Como resolver alguns problemas do ano passado em 2018

Em Goiânia, em Goiás, no Brasil e no mundo: quatro preocupações que ainda precisam ser solucionadas

Prefeito de Goiânia, Iris Rezende; deputado federal Jair Bolsonaro; presidente dos EUA, Donald Trump; líder norte-coreano, Kim Jong-un: temas de2017 que ainda serão debatidos em 2018

Mais um ano se inicia e, com ele, surge a esperança de resolver problemas vividos no passado. Alguns deles, contudo, tendem a permanecer em 2018. Outros, podem — e devem — ser solucionados. Pensando nisso, o Jornal Opção listou algumas questões de Goiânia, de Goiás, do Brasil e do mundo que seguirão tendo a atenção da sociedade.

Em Goiânia, um dos principais imbróglios de 2017 foi a relação entre o prefeito Iris Rezende (MDB) e a Câmara Municipal. O emedebista utilizou, repetidas vezes, mecanismos de governo sem consultar o Legislativo, como no caso do decreto de regulamentação da Uber. Além disso, vereadores reclamam do fato de Iris não ter apontado um líder para a Câmara, dificultando ainda mais o diálogo entre os dois Poderes.

Coordenador do curso de Ciências Sociais com habilitação em políticas públicas da Univer­sidade Federal de Goiás (UFG), Ro­bert Bonifácio aponta duas alternativas para uma melhora da relação. “Só será mais amigável se o prefeito favorecer fortemente alguns vereadores com recursos e obras localizadas em seus redutos eleitorais ou se o prefeito tiver sua popularidade aumentada significativamente ao longo do ano.”

Pós-doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFGM), Robert Bonifácio acredita ser difícil fazer qualquer tipo de previsão em relação a esse assunto, uma vez que, segundo ele, o governo municipal não tem uma tática política muito explícita e, por isso, a tendência é que a situação se mantenha estável ou até mesmo piore.

Já o professor aposentado, mas ainda ativo em pesquisas, Pedro Célio Alves Borges, também da Faculdade de Ciências Sociais (FCS) da UFG, vislumbra um cenário mais otimista, mesmo não considerando saudável o modelo de governo por decreto, o que, para ele, desgasta a sustentação. “Passado esse primeiro ano, o prefeito vai ter que usar artifícios, criatividade e capacidade de negociar. Acho que a primeira ação deve ser a nomeação de um líder.”

Com Prefeitura e Câmara andando juntas, pode haver uma recuperação da normalidade administrativa e retomada de projetos e obras de infraestrutura. “A harmonia favorece ambas as instituições e, dessa forma, a sociedade”, assinala Pedro Célio.

Por outro lado, Robert Boni­fácio avalia que o cenário de relação amigável só seria benéfico para os goianienses se for resultado do desempenho positivo do governo municipal. “Geraria aumento de popularidade e, em consequência, fomentaria mais boa vontade dos vereadores, já que, nesse cenário hipotético, é vantajoso mostrar-se aliado do prefeito.”

Crise hídrica tende a se agravar

Marcelo Safadi: “Não há solução a curto prazo. Ainda teremos crise hídrica em 2018”

Entre 2014 e 2017, houve uma redução de 25% nos índices de chuva acumulada em Goiânia e Santo Antônio de Goiás. Tal circunstância levou à escassez hídrica na bacia do Rio Meia Ponte e obrigou o governo de Goiás a decretar, em setembro do ano passado, situação de emergência.

Superintendente de Assuntos Metropolitanos da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Recursos Hídricos, Infraestrutura, Cidades e Assuntos Metropolitanos (Secima), Marcelo Safadi frisa que não há um único culpado pela crise e que a busca da imprensa para achar um responsável gera desinformação e prejudica o debate acerca do tema.

De fato, a culpa deve ser compartilhada. Os hábitos da sociedade de um alto consumo de água; o uso indiscriminado de postos artesianos e os desvios, canalizações e pivôs clandestinos; a dificuldade de fiscalização por parte dos entes públicos. Esses são só alguns dos exemplos nocivos ao meio ambiente.

Para Marcelo Safadi, o grande desafio está em combinar políticas públicas dos municípios com a real capacidade hídrica de cada cidade. Nesse sentido, o Plano de Desenvolvimento Integrado (PDI) da Região Metropolitana de Goiânia atesta que o reservatório do Ribeirão João Leite só será suficiente para os lotes já existentes. Em outras palavras, se houver expansão urbana, faltará água.

Sobre o PDI e o Plano Diretor de Goiânia, Marcelo Safadi tece elogios: “São feitos de maneira séria, construindo uma proposta que seja real e atacando os problemas de frente”.

Uma outra preocupação do superintendente de Assuntos Metropolitanos da Secima é a impermeabilização de um território, urbano ou rural, sem a compensação necessária em sistemas de infiltração. “Quando você promove uma atividade agrícola retirando a cobertura vegetal seria preciso fazer as curvas de nível e as bacias de acumulação e infiltração. E, no Brasil, isso não é feito.”

Em 2018, segundo as previsões climáticas, a crise hídrica em Goiás será agravada, uma vez que, com o impacto do aquecimento global, haverá diminuição das chuvas e, com isso, os sistemas hídricos não serão devidamente recarregados. “Não há solução a curto prazo. Ainda teremos crise hídrica em 2018.”

É possível, porém, tomar algumas medidas com vistas à redução do impacto, como o pagamento da água in natura e a limitação da expansão urbana em áreas onde a água já não é suficiente, além da desocupação das atividades rurais das nascentes dos rios, principalmente daqueles que têm abastecimento público. “Tudo isso deve ser feito por meio de uma união entre município, Estado e população”, arremata Marcelo Safadi.

Polarização aumenta intolerância entre cidadãos

Robert Bonifácio: “Polarização será característica na eleição vindoura”

Viu-se, em 2017, uma forte polarização política, especialmente nas redes sociais. Trata-se de um fenômeno decorrente das eleições de 2014 e, posteriormente, do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016.

Em 2018, haverá eleições gerais para presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual ou distrital. De acordo com Robert Bonifácio, essa polarização deve continuar. “A queda do projeto político petista fortaleceu a direita no país e esse cenário polarizado entre esquerda e direita será característica marcante na eleição presidencial vindoura.”

Para o cientista político, a polarização, apesar de fazer parte do jogo democrático, aumenta a intolerância entre os cidadãos, podendo acarretar em uma desestabilização política e gerar uma democracia com menor qualidade e governos inoperantes. O cenário ideal seria, portanto, uma sociedade com nenhum, ou irrelevantes, políticos e partidos extremados. Jair Bolsonaro, de um lado, e Lula da Silva, de outro, são exemplos disso.

Qualidade do voto

Para Pedro Célio, as previsões dependem da candidatura ou não de Lula

Uma possibilidade eficaz para combater a polarização é por meio do aumento da qualidade do voto. Essa missão, entretanto, está longe de ser simples. Seguem, abaixo, três eventuais maneiras, elaboradas por Robert Bonifácio, a fim de cumprir a tarefa em questão:

— Transformação da cultura política dos cidadãos, chegando a um cenário em que as pessoas sejam mais esclarecidas e interessadas por política e que tenham forte apreço pela democracia e a probidade arraigada em seus valores;

— Criação de leis que sejam efetivas em ampliar a representatividades dos diversos segmentos sociais e em assegurar a punição de corruptos de alta estirpe;

— O voto, a campanha eleitoral e o debate político devem ser mais valorizados e praticados, mudando, assim, o cotidiano da democracia.

Ademais, sugere Pedro Célio, é necessário que haja projetos visando diminuir a desigualdade com o objetivo de proporcionar um maior envolvimento da sociedade nas questões políticas. A estrutura política do Brasil, ressalta, é etilizada e a capacidade de manipulação eleitoral, tanto econômica quanto por controle midiático, é um reflexo dessa desigualdade. Daí a dificuldade de garantir a qualidade do voto da grande massa brasileira.

Previsões

Exercícios de futurologia são sempre complicados. Mas, se esta matéria estivesse sendo escrita no final de 2018 com a finalidade de traçar uma retrospectiva do ano no tocante à política, o que você, leitor, estaria lendo neste momento?

“Tudo depende da candidatura ou não de Lula”, avalia Pedro Célio. O ex-presidente petista será julgado, no dia 24 de janeiro, no Tribunal Regional Federal da 4ª região (TRF4) pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro referentes a uma suposta obtenção de benefícios irregulares da empreiteira OAS por meio de um tríplex no município de Guarujá, em São Paulo.

Se condenado em segunda instância, Lula da Silva, que, atualmente, é líder das intenções de votos, torna-se inelegível. No entanto, a defesa ainda possui tempo hábil para entrar com um pedido de suspensão da condenação no Superior Tribunal Federal (STF) ou no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Com Lula da Silva na disputa, o cenário é um. Sem ele, é outro. Em razão dessa imprevisibilidade, Pedro Célio diz ser ainda muito cedo para previsões, mas chama a atenção para a provável, mas leve, recuperação econômica, que pode vir a refletir eleitoralmente.

Por sua vez, Robert Bo­nifácio arriscou um prognóstico maior. Ele pensa que, além da pequena melhora dos indicadores econômicos, algum candidato “de direita” vencerá as eleições presidenciais e que o trabalhador terá seus direitos e rendimentos sacrificados para sanar problemas que por eles não foram criados.

Tensão entre EUA e Coreia do Norte seguirá imprevisível

Em 2017, o mundo se via assustado a cada teste nuclear da Coreia do Norte e cada tuíte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em 2018, a história não deve ser diferente.

Kim Jong-un, que foi educado na Suíça, tenta evitar que aconteça com ele o que aconteceu com Muammar Gaddafi, na Líbia, e Saddam Hussein, no Iraque. Dessa maneira, faz de tudo para manter o regime no poder.

Logo no primeiro dia do ano, o líder da Coreia do Norte disse, durante pronunciamento de ano novo, que o botão da bomba nuclear está em sua mesa. No Twitter, Trump respondeu e afirmou que tem um botão maior e mais eficiente.

Em fevereiro, a Coreia do Sul sediará as Olimpíadas de Inverno e Kim pretende ver atletas norte-coreanos na competição. Para isso, está marcada, para terça-feira, 9, uma reunião entre as duas Coreias.

Vale destacar que o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, sempre foi favorável à prática da diplomacia com o vizinho do Norte. Essa pode ser uma boa oportunidade para incentivar conversas futuras, mas Geisa Cunha Franco, coordenadora do curso de Relações Internacionais da UFG, não enxerga como algo duradouro.

Em breve entrevista ao Jornal Opção, a professora, pós-doutora pela Universidade de Surrey, na Inglaterra, explica o conflito com maiores detalhes.

Geisa Franco: “A China deve ser envolvida ao máximo na negociação”

Com Donald Trump de um lado e Kim Jong-un do outro, dá para fazer algum tipo de previsão em relação à tensão entre Estados Unidos e Coreia do Norte em 2018?

Eu acho bastante difícil, pois os dois líderes são imprevisíveis e o ditador norte-coreano já fez vários movimentos e compromissos de negociação em outros momentos e depois voltou atrás. Aliás, essa é uma estratégia recorrente dele: confundir os outros atores envolvidos nas negociações. Se fôssemos analisar a escalada de tensões do ponto de vista de uma racionalidade de guerra, de equilíbrio de poder, a Coreia do Norte não deveria enfrentar tão acintosamente a maior potência militar mundial, mas, talvez, a racionalidade de Kim Jong-un não seja a mesma racionalidade ocidental. E, por viver em uma ditadura, cercado de assessores extremamente temerosos de sua fúria — ele já mandou matar o tio, um irmão, e outros membros de seu governo —, provavelmente ele não ouve conselhos ou informações que o contrariem.

As duas Coreias estão ensaiando uma reaproximação em virtude da Olimpíada de Inverno a ser disputada na do Sul em fevereiro. Esse diálogo tende a permanecer após os Jogos?

É uma oportunidade de ampliar canais de negociação, mas eu não creio que venha a ter um significado muito duradouro.

O que deve ser feito, na prática, para resolver esse imbróglio?

A China deve ser envolvida ao máximo nesta negociação, mas ela tem se mostrado ambígua e reticente, pois teme que os EUA ampliem seu poder naquela região. Ela apoia algumas sanções, mas evita tomar atitudes mais drásticas.

Qual é a papel da China, da Rússia e do Japão?

China e Rússia têm um papel fundamental por serem membros com poder de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), único órgão multilateral que teria, de acordo com o Direito Internacional, possibilidade legal de intervenção armada em um conflito, conforme o capítulo VII da Carta de São Francisco. Além disso, a China, por ser vizinha da Coreia do Norte, um país extremamente poderoso economicamente e um tradicional aliado do país de Kim Jong-un, tem um papel crucial em uma eventual solução negociada. Não por acaso, Trump, que já desprezou a China em vários de seus inconsequentes discursos e tuítes, vem agora procurando seu apoio para a aplicação de sanções àquele país. O Japão, embora não sendo membro do CSNU, é uma das potenciais vítimas, juntamente com a Coreia do Sul, dos possíveis ataques norte-coreanos. Portanto, tem interesse direto nas negociações. Mesmo não sendo nuclearmente armados por consequência dos tratados pós-Segunda Guerra, o Japão e Coreia do Sul são países ricos, populosos, aliados dos Estados Unidos e, por isso, influentes no cenário internacional.

Imaginemos que estamos no final de 2018 e estamos escrevendo uma retrospectiva do ano. Sendo realista, o que a sra. acha que estará escrito nessa retrospectiva no que tange a essa situação?

Quero acreditar que, no ápice da tensão, o líder da ditadura norte-coreana repense suas bravatas e aceite algum tipo de negociação, pois iniciar um conflito seria um suicídio do seu país e uma tragédia inominável, no mínimo para a Coreia do Sul e o Japão, alvos facilmente atingíveis pela atual capacidade bélica da Coreia do Norte. No entanto, eu, que sempre tendo a acreditar na diplomacia e na negociação, estou cética e temerosa. Acho mesmo imprevisível.

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