Como é a realidade dos surdos e dos intérpretes de libras em Goiás

Língua Brasileira de Sinais ganhou destaque após discurso da primeira-dama, Michelle Bolsonaro

A primeira-dama, Michelle Bolsonaro, inovou com discursou em libras na posse do marido, Jair Bolsonaro, e virou os holofotes para a comunidade surda | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O discurso em Língua Brasileira de Sinais popularmente conhecida como libras  da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, na posse do presidente Jair Bolsonaro (PSL), realizada no dia 1º de janeiro, chamou a atenção para a situação dos surdos no País.

Ao final do discurso, Michelle declarou que as “pessoas com deficiências serão valorizadas” e “terão os direitos respeitados”. A comunicação entre os surdos e o mundo ao seu redor é feita por libras e a aprendizagem da língua é complexa e demorada  o curso completo pode ser concluído em quatro anos..

Em Goiás, existem vários tipos de atendimento aos surdos e o governo estadual, por meio da Secretaria de Cidadania, oferece três centrais de atendimento em Libras: em Goiânia, Trindade e Valparaíso de Goiás. A reportagem não conseguiu contato com a pasta pelo momento de transição do governo.

A Prefeitura Municipal de Goiânia colocou à disposição uma Central de Atendimento em Libras desde dezembro de 2017. Em um ano de atividade, a central realizou 4.020 atendimentos com apenas três intérpretes. O superintendente Municipal dos Direitos das Pessoas com Deficiência, Antonio José Ferreira, conta que a área deve receber novos reforços em breve.

Os atendimentos da central serão priorizados para as áreas da saúde, Justiça, emprego e questões burocráticas com a Prefeitura, como acompanhamento em órgãos públicos para resolver problemas tributários e de abastecimento de água e energia.

Pela quantidade reduzida de intérpretes, a central prioriza consultas médicas em hospitais públicos, o que responde por grande parte dos atendimentos realizados no primeiro ano.

O Paço Municipal utiliza os serviços dos intérpretes com frequência para eventos públicos, segundo Antonio Ferreira. “Temos três intérpretes e elas são bem requisitadas para auxiliar a comunicação nos eventos da Prefeitura”, diz. As agendas das intérpretes de Goiânia estão cheias até março deste ano, explica o superintendente.

Para ajudar na demanda, a Central de Libras capacitou 300 servidores públicos municipais em um ano. “Oferecemos um curso ferramental, ou seja, básico, para funcionários aprenderem o primeiro atendimento com um surdo. Até o momento, vários órgãos capacitaram seus funcionários com a gente, como o Detran, agentes da Polícia Civil, Procon e outros”, ressalta Antonio Ferreira, que possui deficiência visual.

A capital registra 11 mil surdos e nem todos falam libras fluentemente. Antonio Ferreira explica que existe até sotaque variado entre os Estados. “O goiano, por exemplo, utiliza gírias nativas do nosso sotaque que são diferentes de gírias amazonenses. Portanto, um fluente em libras de Goiás pode falar ‘uai’, uma expressão que não existe em libras no Amazonas.”

Na Assembleia Legislativa de Goiás, a servidora Vanusia Oliveira atende aos pedidos da Casa para fazer a tradução em Libras de audiências públicas e eventos de grande porte em Plenário. Na posse do governador Ronaldo Caiado (DEM), não houve intérprete para traduzir a cerimônia. A Casa, por meio da assessoria de imprensa, afirma que o cerimonial do governo não solicitou o serviço.

O superintendente municipal dos Direitos das Pessoas com Deficiência de Goiânia, Antonio José Ferreira, ressalta que a agenda das intérpretes de libras do órgão está cheia até março | Foto: Arquivo pessoal

Vale destacar que o concurso público da Assembleia Legislativa deste ano vai preencher duas vagas para profissionais de Libras.

O governo estadual passado respondeu que os intérpretes de libras presentes nos eventos da governadoria foram disponibilizados por órgãos da administração. A reportagem fez contato com o novo governo, mas com a transição dos trabalhos iniciada nesta semana, os novos titulares estão em processo de interação com suas respectivas secretarias.

Vanusia aprendeu a Língua Brasileira de Sinais há 20 anos na igreja onde freqüenta, em Goiânia. “O maior trabalho com os surdos são feitos nas igrejas. Existem grupos de intérpretes que acolhem o surdo e o ajudam a interagir com as atividades da igreja. Sempre foi assim”, explica.

Sobrevivendo em libras

Por meio de ajuda na comunicação em Libras, o professor Joanilson Faleiro, de 44 anos, conversou com o Jornal Opção sobre as dificuldades cotidianas relativas ao trabalho, à família e à expectativa que a primeira-dama Michelle Bolsonaro traz aos surdos para os próximos quatro anos.

Formado em Letras/Libras pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pós-graduado em Docência Universitária, Joanilson trabalha em três empregos, todos como professor: na Prefeitura de Aparecida de Goiânia, no Instituto Federal de Goiás (IFG) e em uma escola particular, também em Aparecida. Neste último, Joanilson atua no Apoio de Ensino Especial, ajudando crianças de 1ª a 5ª série a se adaptarem com a Língua Brasileira de Sinais.

O professor Joanilson Faleiro, 44 anos, nasceu surdo e aprendeu libras aos 16 anos. A principal dificuldade para a comunidade surda continua a comunicação com o mundo, segundo o professor | Foto: Rafael Oliveira/Jornal Opção

A principal dificuldade apontada pelo docente é exatamente a falta de comunicação com o restante da sociedade. “Quando acontece algum problema, é difícil se comunicar com a polícia, bombeiros e serviços essenciais para a nossa vida. Muitos surdos pagam um intérprete de libras para ser acompanhado em uma consulta médica ou resolver algo em um banco”, conta Faleiro.

A decepção no mercado de trabalho fica em cima das vagas de emprego oferecidas aos surdos, que na maioria das vezes menospreza a capacidade intelectual do trabalhador. “O surdo chega todo animado em um emprego e acaba sendo colocado para fazer serviços gerais, como carregar caixas ou limpeza, justamente por essa dificuldade de comunicação. Como se nós não tivéssemos capacidade de trabalhar em um cargo administrativo, por exemplo. A comunicação do surdo é visual, diferente dos ouvintes”, lamenta.

Joenilson nasceu surdo. Sua mãe foi acometida por rubéola durante a gravidez e a notícia de que o bebê não escutaria o mundo foi uma surpresa para a família. “Cresci sofrendo diversas dificuldades na escola. Aprendi libras aos 16 anos e comecei a militar pelas comunidades surdas. Já tivemos várias conquistas, como poder tirar habilitação para dirigir carros e até caminhão”, sublinha. O professor é casado e tem dois filhos um deles nasceu surdo e está a espera do terceiro. A mais velha, de 14 anos, fala libras fluentemente, assim como a esposa.

Perguntado sobre o significado para a comunidade surda do discurso da primeira-dama Michelle Bolsonaro em libras, Joenilson classifica como “histórico”. “Não foi qualquer pessoa, foi a primeira-dama que discursou. Isso ajudou a divulgar ainda mais a cultura surda, que é importante para gente. Atualmente, existem 10 milhões de surdos no Brasil e esse apoio é muito importante, apesar de ser uma luta antiga. O discurso da Michelle vem somar à nossa causa e torcemos para que a comunidade surda seja cada vez mais evidente na sociedade.”

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