Como acabar com a burocracia, a maior vilã dos empresários brasileiros

Em parceria com BB e governo federal, Sebrae lança programa para facilitar a vida das pequenas empresas

Hudson Queiroz, proprietário da floricultura Plant Uma Flor, é um dos empresários brasileiros que conseguiram vencer a burocracia e que mantêm seu negócio de pé | Foto: André Costa

Cláudio Ribeiro

É do conhecimento de todos aqueles que já passaram pelo processo de abrir um micro ou pequeno negócio, no Brasil, as dificuldades que se vão interpondo no caminho. Dificuldades estas que são de duas ordens principais: 1) organização da imagem e da estrutura da empresa (marketing, identidade visual, criação de um ambiente dinâmico, compra e uso dos suportes físicos e tecnológicos adequados etc.); e 2) a grande carga burocrática que deve ser enfrentada para que o empreendimento comece a engrenar e que compreende desde a preparação da documentação básica até os procedimentos para conseguir crédito junto a instituições financeiras.

Pois bem, em Goiânia há dois bons exemplos de empreendedores que conseguiram fazer o seu pequeno negócio vingar, driblando as agruras da burocracia e criando uma identidade muito bem articulada e eficaz. Para isso, ambos procuraram ajuda, em diferentes momentos, no Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Em­presas  (Sebrae Goiás).

O primeiro caso é o de Hudson Queiroz, proprietário da floricultura Plant Uma Flor, localizada no Setor Marista. A ideia de empreender um negócio relacionado à venda de flores ocorreu a Hudson por sugestão de seu pai, que cultivava algumas espécies desde 1979. Sendo assim, em 1998, o empreendedor abriu a Plant Uma Flor, que, hoje, produz e comercializa cerca de 40 espécies diferentes de flores.

Entretanto, para conseguir emplacar o negócio e correr o menor risco possível, Queiroz buscou ajuda junto ao Sebrae-GO, em especial ao Sistema de Gestão e Consultoria Tecnológica dessa instituição, o Sebraetec. As consultorias que Queiroz recebeu do Sebraetec o ajudaram não apenas a estruturar o negócio, com organização e planejamento em questão de orçamento e despesa, mas também a definir a imagem da empresa, que passou a ser pensada de modo a atingir um público específico e especial.

Churros da Kombi vintage, que é o primeiro modelo do tipo no Brasil, já conquistaram celebridades | Foto: Divulgação

Outro caso, semelhante ao de Queiroz, é o de Josué Medeiros, proprietário da Dolce & Canella Churros Gourmet, uma empresa que produz e vende churros num quiosque em forma de Kombi, no Shopping Flamboyant. Medeiros começou o empreendimento em 2016 e teve tamanho êxito que seus churros já foram provados e aprovados por personalidades famosas, como o padre Fábio de Melo e o ator Bruno Gagliasso. O negócio é exercido em parceria com a chefe de cozinha Tatiana Mendes, que desenvolve os sabores. Vale destacar que, além do serviço oferecido no Shopping Flamboyant, a Dolce & Canella também pode ser contratada para levar seus produtos a eventos, como festas de casamento, por exemplo.

O formato do quiosque remete às memórias de infância da esposa de Medeiros, da época que ela viajava de Kombi, com a avó, para visitar a fazenda desta. Lembrando que o modelo de Kombi vintage como quiosque é o primeiro a ser instalado em um shopping, no Brasil. Dessa forma, Medeiros conseguiu aliar inovação e estratégia tendo como emblema a figura tradicional do antigo modelo de Kombi.

O sucesso que adveio dessa combinação também foi devido à busca de ajuda, por parte de Medeiros, junto ao Sebrae-GO. Antes de concretizar a abertura da Dolce & Canella, ele recebeu consultoria e participou do Circuito de Palestra dos Seis Passos Para Sair da Crise. Medeiros soube aproveitar o momento difícil pelo qual passa o país para se informar sobre estratégias de empreendimento, sendo exitoso em sua escolha.

Atitudes como essas de Hudson Queiroz e Jo­sué Medeiros exemplificam o que tem sido feito por milhares de brasileiros, a cada dia, sobretudo em tempos de crise econômica. Como bem destaca o diretor técnico do Sebrae-GO, Wanderson Portugal: “A força motriz da nossa economia é o segmento das micro e pequenas empresas formalizadas. Elas representam 98,5% dos negócios, respondem por 52% dos empregos formais e pagam 41,4% da massa salarial, além de gerar 27% do PIB nacional. No Brasil, elas somam 9,7 milhões de negócios. Em Goiás, são 337 mil micro e pequenas empresas.”

No que diz respeito ao apoio às iniciativas dos micro e pequenos empresários, o Sebrae, a nível nacional e regional, está na dianteira. Como ressalta Portugal, “o Sebrae-GO tem como missão promover a competitividade e o desenvolvimento sustentável dos pequenos negócios e fomentar o empreendedorismo, para fortalecer a economia goiana.” Entre as novas estratégias desenvolvidas pelo Sebrae, está o programa Empreenda Mais Simples, inaugurado em 18 de janeiro deste ano, na sede nacional do Sebrae, em Brasília. Como ressalta Portugal, “em parceria com o Governo Federal e o Banco do Brasil, o Empreender Mais Simples tem como proposta a defesa de menos burocracia e mais negócios. É um programa que irá facilitar a concessão de crédito para as micro e pequenas empresas, além de desburocratizar a gestão dos pequenos negócios.”

Dentro dessa parceria, o Sebrae, diz ainda o diretor técnico, “irá orientar os empresários durante e depois a contratação do crédito. O programa é, portanto, uma das maneiras que o Sebrae pratica a sua missão de apoiar e fomentar cada vez mais um segmento tão fundamental para nossa economia e nossa sociedade.” E, do mesmo modo que os empresários que citamos, Queiroz e Medeiros, quaisquer micro e pequenos empreendedores de Goiás, seja do campo ou da cidade, “podem ser beneficiados pelas mais diversas soluções e demais programas do Sebrae e podem também buscar orientações em um ponto de atendimento mais próximo do Sebrae no Estado. São quase 50 endereços, além do atendimento pela Central de Relacionamento, através do número 0800 570 0800, e no portal www.sebraego.com.br”.

Presidente Michel Temer, durante o lançamento do programa: “A burocracia é algo angustiante para todos os governos. Espero que consigamos diminuir isso no próximos anos” | Foto: Divulgação/Sebrae

A cerimônia de inauguração do Empreender Mais Simples contou com a presença do presidente da República, Michel Temer, com o presidente do Sebrae, Guilherme Afif Domingos, e com o presidente do Banco do Brasil, Paulo Rogério Caffarelli. A verba total destinada ao programa é de R$ 8,2 bilhões do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), que atenderá cerca de 40 mil empresas. Deste montante, o investimento inicial será de R$ 1,2 bilhão.

Sobre esses valores, em seu discurso na ocasião da cerimônia, Michel Temer disse aos presentes o seguinte: “Afif disse que, para dar muitos passos é preciso, antes, dar o primeiro passo. Mas eu devo registrar que o primeiro passo, tendo em vista os R$ 8,2 bilhões, é de R$ 1,2 bilhão. É um largo passo que está sendo dado neste momento. Exatamente por provocação do Sebrae, que faz, não preciso reiterar, um belíssimo trabalho”.

A “provocação” a que se refere Temer é não apenas a ideia do programa, mas também o investimento por parte do Sebrae, que foi de R$ 200 milhões. Afif Domingos explica que, com relação aos empréstimos, as micro empresas poderão receber até R$ 360 mil, enquanto que as pequenas poderão solicitar até R$ 3,6 milhões. Em seu discurso, Afif Domingos ainda levou uma lista bastante extensa, contendo cada procedimento necessário para a abrir pequenos empreendimentos e mantê-los de pé. A ideia do presidente do Sebrae foi a de tornar evidente aos presentes o quão hipertrofiada é a burocracia brasileira.

Tomando a deixa da fala de Afif Do­mingos, o presidente Michel Temer disse ainda que o problema da burocracia do nosso sistema é angustiante:

“E é interessante essa coisa da desburocratização. A burocracia é algo angustiante para todos os governos. Nas várias ocasiões em que eu viajei para o exterior e, quando fazia reunião com empresários, a preocupação principal era com a burocracia do nosso sistema. Eu espero, Afif, que daqui há algum tempo, em face das providências que estão sendo tomadas pelo governo, com as sugestões do Sebrae, que num próximo discurso, ao invés de uma lista extensa, você possa usar apenas metade da folha.”

Diretor técnico do Sebrae-GO, Wanderson Portugal: “Nosso objetivo é fortalecer a economia goiana por meio das micro e pequenas empresas” | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

O objetivo da desburocratização fica patente no discurso de Michel Temer, que ressalta a importância da facilitação das condições de micro e pequenos empreendimentos para a própria saída da crise econômica. Segundo o presidente da República, “a microeconomia produz resultados imediatos, e é isso que nós queremos”. Os resultados do Empreender Mais Simples, conclui o presidente, já poderão ser avaliados no segundo semestre de 2018.

O papel do Banco do Brasil no programa também é de importância estratégica crucial. Segundo o presidente do banco, Paulo Rogério Caffarelli, 2,3 milhões de clientes do BB são micro e pequenas empresas. No ano 2016, o BB destinou R$ 61 bilhões de crédito a pequenos negócios. Para se ter uma ideia, os dados da Global Entrespreneurship Monitor (GEM), de 2016, apontam que o Brasil teve a maior taxa de empreendedorismo de sua história. Sendo assim, a participação da instituição financeira no Empreender Mais Simples segue o curso natural da realidade brasileira, em termos de iniciativa em pequenos negócios.

Cabe dizer que, para ter acesso ao crédito orientado oferecido pelo programa, o micro ou pequeno empresário deverá se submeter a um processo de consultoria, mas também organizar-se de modo a conseguir, em prazos previamente estipulados, honrar os compromissos e melhorar sua situação de capital de giro.

Para que o fluxo do negócio não fique emperrado nos trâmites burocráticos, o Empreender Mais Simples prevê que a liberação do crédito junto ao BB será efetuada em cerca de três dias, a partir do momento em que se tiver a chancela do Sebrae.

Por fim, para que tudo se torne ainda mais ágil, o programa colocará à disposição do empreendedor dez sistemas que facilitarão todo o processo de cumprimento das exigências burocráticas, formais etc. (veja box ao lado) Esses sistemas serão desenvolvidos ao longo de dois anos.

10 serviços on-line para facilitar a vida do empresário

  • Implantação do sistema Redesimples
  • Documentos fiscais eletrônico das micro e pequenas empresas
  • e-SOCIAL, para unificação de obrigações trabalhistas e previdenciárias
  • Processo de restituição automatizada do Simples Nacional
  • Pedido eletrônico de isenção de IPI e IOF
  • Pedido simplificado de restituição e compensação
  • Repositório nacional de dados do Simples Nacional
  • Aprimoramento do Portal do Empreendedor e Conta Corrente (fiscal) do MEI;
  • Sistema de pagamento do Simples Nacional por modalidade eletrônicas
  • Sistema de parcelamento do Simples Nacional

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