A casa já está arrumada mesmo?

Ao prestar contas de sua administração à Câmara dos vereadores, o prefeito Iris Rezende garantiu que gasta todo o tempo para consertar estragos encontrados na “casa”. Já conseguiu?

Prefeito Iris Rezende,
durante prestação de contas da gestão a Câmara de Goiânia

De certa forma, e grosso modo, o prefeito Iris Re­zen­de fez uma prestação de contas sexta-feira aos vereadores em que enalteceu o trabalho que está sendo realizado por ele e sua equipe, e sinalizou que até agora não tem feito outra coisa que não consertar os estragos que encontrou. Não há dúvida de que o tom foi levemente otimista, mas também carregado de apreensões. A maior delas é com o aumento na principal fonte de receita própria, o IPTU/ITU. Vereadores fora da base tem feito o possível para civilizar esse aumento com base na taxa de inflação. O risco maior é se a questão for parar nas mãos da Justiça. O ex-prefeito Paulo Garcia (que faleceu recentemente) tentou várias vezes aumentar o imposto, mas sempre foi derrotado quando a decisão passou pelo Judiciário.

A principal questão, porém, é saber se realmente a situação financeira da Prefeitura está sob controle ou se há ainda um longo e tenebroso caminho para percorrer. Aparente­mente, diante da sucessão de reclamações da população nas unidades de atendimento de saúde e em casos pontuais sobre o serviço de coleta de lixo doméstico, a hipótese mais provável é que o cobertor ainda é curto demais. Quando cobre a cabeça, os pés ficam sem proteção. Ou seja, quando avança um setor, um outro imediatamente entra em colapso.

O próprio Iris admitiu que nem tudo está funcionando normalmente. Segundo ele, o trabalho ainda é de ajustamento da máquina de maneira a atender as muitas demandas da cidade com o pouco ou quase nenhum dinheiro em caixa. A crise é tanta e tão grave que em menos de um ano de administração, nove meses para ser exato, já se trocou ninguém menos que o secretário de Finanças. Isso, definitivamente, não é uma situação corriqueira. Normal­mente, os governantes topam montar a cúpula da máquina administrativa em parceria com os comandos aliados. Mas há pelo menos uma função que jamais é negociada: exatamente a área financeira. E geralmente os escolhidos ficam pelo menos um ano na função em todos os inícios de mandato. Isso quando não permanecem durante todo o governo. Se houve a troca, é inegável que algo bastante grave ocorreu, ou assim foi interpretado pelo governante ou pelo auxiliar.

Um dos graves problemas da Prefeitura de Goiânia é o tamanho hiper-dimensionado da máquina. Para se ter uma ideia, São Paulo tem 25 funções de 1º escalão. Goiânia, com população e arrecadação incomparavelmente menor, tem 24 – e o Estado de Goiás tem 10 Secretarias. Iris poderia ter optado por uma radical mudança nesse perfil administrativo logo que assumiu o comando? Em tese, sim. Afinal, embora tenha passado a Prefeitura para um aliado em abril de 2010 e apoiado a reeleição de seu sucessor em 2012, os dois romperam em 2016. Isso fez dele um candidato de oposição, sem compromissos portanto com o ex-aliado.
Se em tese ele poderia, sim, colocar em andamento uma estupenda redução na máquina, o que poderia render uma boa e necessária economia para aliviar o combalido cofre municipal, na prática a coisa é bem mais complicada. Iris teve boa votação ao vencer as eleições, mas a base levou uma surra danada nas urnas. O resultado é que ele teve que negociar posições politicamente para criar condições mínimas de governabilidade. Uma coisa, a negociação política, inviabilizou completamente a outra, a reforma administrativa. E isso foi feito porque não havia alternativa. Para implementar a reforma, Iris teria que mandar o pacote de medidas para a Câmara, onde ele não tinha maioria para garantir a aprovação. Agora, pelo que se percebe, Iris tem a tal base de governabilidade, mas o preço a se pagar é esse que aí está: uma montanha de problemas.

A pergunta que se pode fazer é sobre a perspectiva em relação ao tempo que será necessário para finalmente o prefeito conseguir “consertar a casa”, e se vai conseguir fazer isso. Não é tarefa fácil. Mesmo o aumento no IPTU/ITU, caso passe, não garante muita coisa. O brasileiro ainda está com o bolso destroçado por conta da pior crise econômica da história, e o goianiense não é exceção. Quanto mais alto for o imposto, maior pode ser também a inadimplência. A esperança é que o desempenho da economia brasileira melhore bastante em 2018, o que fatalmente melhoria tudo, inclusive o resultado do caixa.

Iris Rezende dizia na campanha que quando assume governo logo as máquinas começam a “roncar”. Em ou­tras administrações isso realmente a­conteceu, o que lhe garantiu a fama de administrador e as vitórias. Desta vez não está acontecendo nada disso. A razão é a mais prosaica de todas: as má­quinas precisam de combustível para “roncar”, e combustível custa dinheiro.

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