Capturada, expulsa, exilada: o caso da onça de Goiânia

Não foi ela quem invadiu a cidade; foi a cidade que se expandiu para o mundo dela

Divulgação/Ibama

Quando alguém quer fazer uma piada – na verdade, uma chacota – com os goianos ou demais povos do Centro-Oeste, pergunta se em nossas cidades realmente as onças andam pelas ruas. Se em um ambiente fora do círculo de amizades, é algo que geralmente feito para constranger, ainda que a pretexto de se mostrar como uma galhofa.

Mas este ano, uma onça esteve realmente na cidade. E o Jornal Opção foi o primeiro a divulgar, ainda na edição 2170, de 11 de fevereiro, por meio de uma fonte próxima ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) detonou a informação: um desses animais estava em território urbano, acuado talvez em uma faixa relativamente pequena na região oeste da cidade, entre os bairros Parque Oeste Industrial e Conjunto Vera Cruz.

E não era uma onça comum. Por “comum”, entenda-se as onças-pardas, também chamadas também de jaguatiricas, que, de porte menor, são encontradas em ambiente urbano com uma raridade menor. Pela descrição e pelas pistas deixadas, era uma onça-pintada, o topo da cadeia alimentar na natureza brasileira.

O problema era exatamente o tipo de pista: a carcaça de um bezerro. Os ataques a bichos domésticos e gado em geral poderia levar alguém a atentar contra a vida do animal silvestre, que, nesse momento, passou a ser tratado como uma preciosidade. De nossa parte, com responsabilidade jornalística, demos a notícia em primeira mão, mas sem qualquer sensacionalismo.

Desde fevereiro e ao longo do ano, apareceram vários relatos sobre a onça. Quando a notícia tomou corpo entre a população, começaram a surgir supostos vídeos do animal atacando criações – “supostos” mesmo, já que não passaram de mais um capítulo da irritante onda de fake news que assola as redes sociais. A irresponsabilidade poderia ter gerado um pânico desnecessário que culminasse, talvez, numa caçada absurda para abatê-lo a tiros.

Felizmente, a longa e custosa busca terminou bem: na quinta-feira, 28, a onça-pintada foi finalmente capturada em uma força-tarefa que juntou técnicos do Ibama e do Instituto Onça-Pintada. Poucos dias antes, ela havia sido flagrada pelas dentro de um condomínio e houve uma intensificação da procura pelo temor de ela acabar sendo morta. No dia seguinte, depois de passar por um check-up e ganhar uma coleira de monitoramento, a onça foi levada para o noroeste do Estado, em uma área de preservação permanente.

Além das pegadas, deixa também os rastros de uma história triste em Goiânia. Animal acostumado a percorrer dezenas de quilômetros por dia e ter uma superfície de grande extensão como sua “casa”, passou quase um ano confinada entre casas, avenidas, muros e cercas. Não foi ela quem invadiu a cidade; foi a cidade que se expandiu para o mundo da onça. E o mundo da onça é também o mundo da árvore, da água, da terra.

O conceito de “fazenda asfaltada” nunca foi tão adequadamente verdadeiro. Em meio à “cidade” que não conhecem, os bichos transitam perdidos – semanas atrás, havia um tamanduá-bandeira em plena avenida principal do Setor Crimeia Leste.

Uma resposta para “Capturada, expulsa, exilada: o caso da onça de Goiânia”

  1. Avatar Leo Caetano disse:

    Finalmente li algo que concordei sobre a onça. Parabéns ao opção. Sério mesmo. Não como outros que querem dar nome pra onça

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