Brasil não entendeu que é um país de velhos e, por isso, não aceita a própria velhice

A população de idosos cresce de maneira acelerada, mas nem o governo nem a sociedade se prepararam para isso e, agora, relutam em admitir que o país não pode continuar assim

Lourdes Arigueri, 81 anos, é uma idosa que representa bem a mudança de comportamento necessário ao País: o de entender e aprender a lidar com a velhice | Marcos Nunes Carreiro/Jornal Opção

Marcos Nunes Carreiro

Costumo dizer que enxergar a cidade é um exercício diário e, na quinta-feira, 19, consegui exercitar minha visão um pouco mais. Passava pouco das sete da manhã, eu de carro indo para o trabalho. Estava quase saindo da Alameda das Rosas, rumo à Avenida Portugal, quando olho para o lado e vejo um grupo de idosos fazendo atividades físicas.

A Alameda das Rosas é um tradicional ponto para a realização de exercícios físicos, pois contorna o parque que abriga o Lago das Rosas e o Zoológico de Goiânia e conta com um pista de cooper de 2,6 km, uma ciclovia e várias academias ao ar livre. O lugar é bastante arborizado, o que garante sombra ao longo de todo o percurso.

Como o local fica no centro da cidade, ele se tornou parte do meu trajeto cotidiano. Faz três meses que passo pela Alameda todos os dias e ainda não havia reparado naquele grupo, seja porque estava distraído ouvindo as primeiras notícias da manhã pelo rádio ou simplesmente porque não olhava para o lado. Bem, resolvi estacionar e ir observá-lo.

Atravessei a rua segurando meu bloco de notas e me sentei num banco de frente para o grupo, ficando de costas para quem caminhava na pista. Era um grupo de 15 pessoas e vi que não havia apenas idosos; as idades variavam entre 50 e 80. Não tardou para que uma das senhoras me perguntasse: vai fazer com a gente? Não, respondi eu em meio a sorrisos.

Havia uma professora. Apro­veitei um pequeno intervalo entre os exercícios e a chamei para perguntar se aquele grupo se reunia ali todos os dias. Sim, disse ela. Há dois grupos: um que se reúne das sete às oito da manhã e outro que vem das oito às nove. E é gratuito? Sim.

Reniê França faz parte de um grupo de professores da Agência Municipal de Turismo, Eventos e Lazer (Agetul), órgão da Prefeitura de Goiânia, que se reúne para ministrar aulas a quem quiser participar das atividades no Parque. Perguntei a Reniê se poderia tirar algumas fotos e entrevistar alguns dos alunos depois da aula. Ela me indicou duas senhoras para falar.

Uma das senhoras estava completando 82 anos naquele dia. Floriza Gonçalves, mais conhecida como Flor, veio ao meu encontro no fim da aula, depois que a turma se reuniu em volta dela para cantar parabéns. Flor saiu de São Paulo rumo a Goiânia há cerca de um ano e faz atividades ali na Alameda desde que chegou à nova cidade. Ela que diz que não há nada melhor: Aqui a gente aprende muito, conversamos e nos divertimos.

Flor revela ter ido ao médico na semana anterior e que ele aprovou as atividades que faz diariamente. Ela conta: O médico disse que a melhor coisa para mim é fazer esses exercícios; se eu parar, perco também um pedaço da minha vida.

Junto com Flor, também veio outra senhora, esta uma primavera mais nova. Lourdes Arigueri, 81 anos, me pediu um abraço. Des­concertado, abracei a pequenina senhora, que me revelou gostar de abraçar “gente jovem”. Rimos juntos da afirmação. Lourdes caminha em volta da Alameda há 32 anos e foi eleita, segundo ela, caminhante modelo do local, em 1995.

Lourdes vai caminhar toda bonita: batom vermelho, cabelo penteado com esmero, lápis de olho e brincos dourados. Sorridente, ela relata que acorda às cinco da manhã e vai para a A­lameda caminhar. Antes, ela dava cin­co voltas no parque e hoje, por cau­sa das atividades do grupo, só dá três.

“Meus exames são perfeitos. Tenho colesterol baixo, um bom coração e tomo poucos remédios. Isso aqui é uma terapia e ainda ajuda na saúde e na flexibilidade.” É verdade. Lourdes é, talvez, a mais flexível das pessoas que estavam fazendo exercícios naquele dia, cumprindo com primor todas as atividades propostas por Reniê, a professora.

Lourdes me impressionou. De volta ao carro, fui em direção ao jornal pensando nas três voltas que aquela senhora dá todos os dias em volta do parque. Será que eu consigo? Bem, tenho 25 anos, 56 a menos que ela. Passei o dia pensando nisso e, lá para as 17 horas, resolvi ir em casa, pegar uma bermuda, trocar de tênis e voltar para a Alameda.

Comecei a caminhar às 18h22. No começo foi tranquilo e fiz a primeira volta em 27 minutos e a segunda em 25. A essa altura já não estava tudo bem. As pernas começaram a doer, pensei em trapacear algumas vezes durante a terceira volta e preciso ser sincero: trapaceei. Cortei o parque pela metade e às 19h29 voltei para o carro. Até tentei me iludir dizendo a mim mesmo que já estava na hora de buscar minha esposa no trabalho, mas a verdade é que não consegui dar as três voltas.

A conclusão óbvia da experiência é que estou sedentário (há meses não praticava nenhum tipo de atividade física), mas outra, mais importante, vem à tona: inconscientemente, pensei que a senhora de 81 anos não poderia ter mais resistência física que eu, afinal sou jovem e ela, velha. Esse pensamento, no mínimo preconceituoso, é regra na sociedade atual.

Todos nós, jovens, achamos que os velhos são obsoletos, frágeis, deteriorados, o que obviamente não é verdade. Dona Lourdes passou a ser um exemplo para mim desde a quinta, 19, juntando-se a meu avô — o velho Raimundo Sibem, como é conhecido, tem 86 anos, ainda trabalha como pedreiro, completa seis anos de casado neste ano e tem um filho de 14 anos, fruto de uma curta relação que teve, aos 72, com uma mulher mais jovem (Sim, eu tenho um tio adolescente).

Como eles, há muitos idosos que deveriam ser exemplo e objetivo a ser alcançado pela maioria dos jovens. Cito dois: Ursulino Leão, escritor que aos 93 anos continua escrevendo e publicando seus textos — em 2015, por exemplo, lançou dois livros, um de crônicas e outro de contos; e Waldyr O’Dwyer, militar que participou da Força Expedicionário Brasileira na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial.

Capitão Waldyr, como é conhecido (aposentou-se do Exército com a patente de capitão), é um dos grandes expoentes da industrialização do Estado de Goiás e foi um dos responsáveis pela criação, por exemplo, do Distrito Agroindustrial de Anápolis (Daia). O Capitão completa 101 anos no próximo mês de julho e ainda vai quase todos os dias à sua empresa, a Anadiesel, em Anápolis.

Todas essas pessoas são figuras de destaque e a questão é: são pessoas de destaque apenas por serem idosas? Se contar a história de qualquer um deles a um jovem ou a um adulto no Brasil, eles com certeza ficarão impressionados e o motivo é simples: os brasileiros não estão acostumados a ver velhos como pessoas ativas. O conceito geral é o de que idosos são dependentes e inativos, inúteis.

Isso se dá em razão do fato de que a sociedade brasileira não se preparou para envelhecer e, por isso, ainda carrega preconceitos em relação ao envelhecimento. A verdade, como diz a geriatra Elisa Franco, é que as pessoas ainda não entendem o processo de envelhecer, pois não param para pensar nele. O resultado é uma sociedade que enxerga o velho como fardo.

E isso acontece em meio a um processo intenso de envelhecimento da população, que é impactado por dois fatores principais: a queda da mortalidade infantil e a redução da mortalidade por outras doenças. A primeira pode ser vista diretamente via dados do IBGE. Em 2000, a taxa era de 29 crianças por mil nascidos para 13,8. “É uma queda muito considerável”, diz o assessor de gabinete do IBGE em Goiás, Daniel Ribeiro de Oliveira.

Soma-se a isso o aumento da urbanização do País, o que garante às pessoas um maior acesso a água tratada e a assistência de saúde, algo que vem acompanhado da evolução da tecnologia médica e de vacinas, antibióticos etc. O resultado disso é uma população que já tem sua maior parte formada por adultos e que caminha cada vez mais rápido para ser uma população de velhos.

Em 1991, as pessoas com 60 anos ou mais, no Brasil, representavam 7,30% da população; em 2015, já eram 14,34%. Ou seja, em menos de 25 anos, o número de idosos no Brasil dobrou. E esse número sobre exponencialmente se olharmos mais para trás: em 1960, o Brasil tinha pouco mais de 3 milhões de velhos; em 2010, já eram quase 20 milhões.

Fora isso, o brasileiro ganhou 30 anos em sua expectativa de vida (subiu de 45,5 anos, em 1940, para 75,5 anos, em 2015) e diminuiu drasticamente sua taxa de fecundidade (de 6,3 filhos por mulher, para 1,9). E o processo continua, mesmo que de maneira mais lenta. É o que diz Daniel Ribeiro: “Até chegarmos ao nível de Japão, em que as pessoas passam de 85 anos, demora. A cada ano que a mortalidade infantil cai e essa criança vive, aumenta-se a expectativa. A criança com 0 anos, hoje, tem expectativa de viver até os 75,5; quando ela chegar aos 75, sua expectativa será de 87 anos”.

A conclusão é mais que óbvia: o Brasil precisa de uma mudança cultural no que se trata de entender o envelhecimento de sua população, afinal, dentro de alguns anos, teremos um número de velhos muito superior ao atual. Em 35 anos, eu serei velho e, em termos de mudança de cultura, 35 anos é um tempo curto.

Por que a sociedade reluta em aceitar seus velhos? Provavelmente porque só vê o lado ruim da velhice

Elisa Franco: “O envelhecimento da população é uma conquista que traz desafios. A sociedade não se adaptou a eles e, por isso, vê a velhice como um fardo”; Vera Lucia Morselli: “Percebemos que há uma mudança no comportamento do idoso. Ele começa a perceber e a entender que é positivo envelhecer” | Fotos: Fernando Leite/ Jornal Opção

“Velho” é uma daquelas palavras cujo significado foi deslocado e a qual se atribuiu alguns penduricalhos semânticos. Velho é um adjetivo que, quando relacionado a uma pessoa, acrescenta a ela um defeito: o de ser inútil. Na verdade, velho nada mais é que um sinônimo para idoso. Então, por que todos pisam em ovos para não chamar um idoso de velho?

O ponto tratado aqui é o seguinte: a palavra “velho”, mesmo estando no mesmo campo semântico de “idoso”, não é visto assim pela sociedade, que atribuiu a ela o mesmo sentido de deterioração de quando se utiliza velho em relação a um objeto. Dessa forma, do mesmo jeito que ninguém gosta de um carro velho, todos passaram a ter receio também de uma pessoa velha.

Foi aí que surgiram os eufemismos, como “terceira idade”. “E depois”, revela a geriatra Elisa Franco, “veio alguém e criou o ‘melhor idade’. Sérgio Rodrigues faz uma crítica a isso no livro que lançou recentemente, o ‘Viva a Língua Brasileira’: o eufemismo, quando exagerado, fica caricato. Qualquer ser humano sabe que, após os 60 anos, você não está na melhor idade. A velhice é simplesmente uma fase da vida e há vantagens e desvantagens de se ter chegado a ela, portanto, deve ser respeitada.”

Elisa explica que os termos usados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) são três: envelhecimento bem sucedido, usual e mal sucedido. O bem sucedido é aquele que tem doenças, mas em que elas não causam impacto na capacidade do indivíduo de continuar exercendo atividades diárias, prazerosas ou úteis à sociedade. Veja leitor que a palavra “velho” está embutida.

“Então”, relata a geriatra, “como ‘velho’ é uma palavra ruim, vamos dando nomes mais bonitos, como idoso, terceira idade, melhor idade, mas continuamos tendo preconceito com aquele velho que não está tão bom o suficiente para ir à praça fazer ginástica, mesmo que ele possa fazer ginástica em casa e ter uma vida útil, embora tenha limitações. Não precisamos inventar palavras diferentes. Precisamos é trabalhar para ter um envelhecimento saudável e para que a sociedade se prepare para entender melhor o processo.”

A questão, para Elisa, é o modo de ver e entender o envelhecimento e se preparar para ele. “O envelhecimento da população é uma conquista, pois mostra que houve uma melhora nas políticas públicas de cuidado com a saúde. Porém, envelhecer demanda mais cuidados. Então, é uma conquista que traz desafios e nosso País não olhou para isso durante o século 20”, critica.

A verdade é que a isso não se atentou nem o País, como Estado, nem a sociedade, como conjunto, nem as próprias pessoas, como indivíduos. Em outras palavras, a sociedade não se adaptou às limitações que a velhice impõe e, por isso, a vê como um fardo, sendo que, na verdade, trata-se de um marco de desenvolvimento da Nação, afinal um País com expectativa de vida mais alta, e com um maior número de idosos, é considerado mais desenvolvido — a expectativa de vida de um povo é um dos fatores levados em consideração no cálculo do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

O que fazer: mudar a sociedade e adaptá-la a essa demanda. “Temos que rever nossas casas, os ambientes públicos, o trabalho, a Previdência Social, o sistema de saúde etc. Não houve uma visão de adaptação à nova realidade. Por isso, as pessoas acham que envelhecer é a pior coisa do mundo e daí vem a dificuldade que as pessoas têm de lidar com a própria velhice e com a velhice do outro”, argumenta.

A geriatra relata que houve avanços, mas que foram muito lentos diante da demanda existente. Segundo ela, nunca foi discutida, por exemplo, a adequação do sistema de saúde ao envelhecimento da população. “Quando se discute isso, as autoridades costumam dizer que o Brasil tem uma porcentagem de idosos ainda pequena e citam o Canadá, que tem mais de 20% da população formada por idosos. Porém, em saúde, o que importa não é a porcentagem, mas o número absoluto”, diz.

Para esclarecer a fala de Elisa, basta pensar o seguinte: o Canadá tem aproximadamente 40 milhões de habitantes, o Brasil tem mais de 200 milhões. Nesse sentido, o número absoluto de idosos canadense, embora represente uma porcentagem maior em relação à população, não chega nem perto do número absoluto de velhos no Brasil, que tem uma porcentagem menor: os 20% canadenses representam 8 milhões de pessoas; os 14% brasileiros, 28 milhões.

Dessa forma, relata Elisa, “temos um sistema de saúde menos desenvolvido lidando com um número maior de idosos, que precisam usar muito mais o sistema de saúde, que precisa estar muito mais preparado. Então, tudo é mais difícil para o idoso no Brasil: o atendimento no hospital, andar na rua etc. Por isso as pessoas só veem o lado ruim da velhice e a sociedade não quer aceitar o velho.”

Enquanto isso, já é possível notar que os velhos estão mudando o pensamento em relação a seu envelhecimento e buscando cada vez mais ações em benefício próprio. Hoje, a quantidade de velhos que buscam fazer atividades físicas e intelectuais, sejam públicas ou privadas, cresce exponencialmente. E as oportunidades também.

Em Goiânia, além de alguns projetos da Prefeitura e de iniciativas da organização civil, tem surgido muitos programas de organizações privadas. A Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), por exemplo, tem um programa de extensão chamado Universidade Aberta à Terceira Idade (Unati), que oferece cursos e atividades gratuitas para idosos.

As atividades, que vão desde informática, educação física à alfabetização de adultos, beneficiam atualmente mais de 600 idosos. É o que conta a professora da PUC-GO, a psicóloga Vera Lucia Morselli. Ela conta que ministra disciplinas na Unati há dois anos e que, nesse tempo, tem visto pessoas ativas, politizadas e questionadoras, algo que não tem a ver com formação acadêmica, mas com posição de mundo. “Os velhos se reconhecem como parte integrante da sociedade e reivindicam seus direitos”, relata.

Para Vera, existe uma mudança em curso no comportamento do velho. “Temos visto atualmente pessoas com 70 anos que trabalham e que fazem atividades físicas, às vezes, nada moderadas. O idoso se vê como uma pessoa ativa, com vontade, morando sozinho e não como aquele que tem que ficar cuidando de neto ou que tem de se submeter a vontade dos filhos. Então, vemos uma sociedade que está mudando, mas que ainda não mudou por inteiro”, ressalta.

Ela destaca que, na Europa, é possível ver uma sociedade já acostumada aos idosos, que andam de ônibus e se fazem presentes em cafés. “No Brasil, agora que estamos nos atentando para isso. No Rio vemos que há mais espaço para os velhos. Em Goiânia, menos. Teatro, cinema, praças. Vemos que os idosos estão presentes”, afirma.

De fato, é possível ver uma mudança, por parte do próprio velho. Quando se falava em uma pessoa de 60 anos há 60 anos, tratava-se de uma senhora de cabelo branco e preso e de vestido comprido. Hoje, uma senhora de 60 anos está de tênis, roupa de ginástica e com o cabelo colorido. Mais: se o idoso de antes tinha como tabu se relacionar ou falar sobre relacionamento, hoje já não há. Vera conta: “O idoso gostar de namorar. Outro dia ri muito com uma senhora, pois ela me disse que adorava dar uns amassos”, ri.

2 respostas para “Brasil não entendeu que é um país de velhos e, por isso, não aceita a própria velhice”

  1. Carlos Spindula disse:

    Parabéns pela reportagem ! Todos vamos ficar velhos, ou com DNA (data de nascimento antiga) se não morrermos jovens. Isso é natural. Nossa sociedade precisa entender isso e respeitar e amar mais seus idosos. Temos muito a melhorar !

  2. Juraci Vieira Gutierres disse:

    Excelente. Que venham outras reportagens abordando a complexidade que é o envelhecer numa sociedade que quer ser sempre jovem e esquece que só não envelhece quem morre antes. Os convido a visitar o Blog Viva a Velhice que está em http://www.vivaavelhice.com.br

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