A arte regional e inocente que atraiu os olhos do mundo para Goiás

Sem formação acadêmica ou estilos eruditos em suas produções, Fé Córdula e Antônio Poteiro vincularam o Estado à arte naïf como referência de regionalismo autodidata

Um trabalho de Antonio Poteiro

Um trabalho de Antonio Poteiro

Tela de Fé Córdula

Tela de Fé Córdula

Augusto Diniz

Em 8 de junho de 2010 morria, aos 84 anos, um dos maiores nomes das artes plásticas de Goiás. O pintor e escultor Antonio Poteiro trouxe com sua notoriedade espaço para outros artistas se destacarem no que pode ser identificado como uma espécie de arte autodidata, sem passar por uma formação em Belas Artes ou um critério erudito.

Seis anos depois, na tarde da quinta-feira 11 de agosto de 2016, morria outra figura importante das artes em Goiás, o artista Fé Córdula. Aos 83 anos, Fé Córdula, ao lado de Poteiro, era um dos grandes representantes da arte naïf em solo goiano.

Mas os dois têm em comum uma grande particularidade: não eram goianos. Apesar de terem desenvolvido seus trabalhos em Goiás, Poteiro nasceu em Portugal, na aldeia de Santa Cristina da Pousa, que fica na província do Minho, e Fé Córdula era do sertão do Seridó, nascido em São Rafael, no Rio Grande do Norte.

Francisco de Assis Córdula veio para Goiás na década de 1970 e terminou a vida em um sítio na cidade de Abadia de Goiás, onde morava com a esposa Maria das Dores Feitosa. Já Antonio Batista de Sousa, o Poteiro, chegou a Goiânia em 1955.

O português Antonio Poteiro: artista primitivo; e O rio-grandense do norte Fé Córdula: artista naïf

O português Antonio Poteiro: artista primitivo; e O rio-grandense do norte Fé Córdula: artista naïf

Termo naïf
Os dois se tornaram referências de Goiás na arte naïf. Mas o que vem a ser isso? A discussão em torno do nome naïf até hoje é muito grande. Do francês “ingênuo”, a classificação criada no final do século XIX surgiu a partir da exposição de Henri Rousseau em Paris no Salão dos Independentes no ano de 1886. Conhecido como “Le Douanier” ou “funcionário da alfândega”, o artista da França era um autodidata que depois teria atraído a atenção de nomes como Pablo Picasso para seus trabalhos.

Amaury Menezes: "Poteiro nunca foi um artista naïf, ele é um pintor primitivo" | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Amaury Menezes: “Poteiro nunca foi um artista naïf, ele é um pintor primitivo” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Para o artista plástico Amaury Menezes, que conheceu e conviveu com Antonio Poteiro, é um erro definir o português radicado em Goiânia como um artista naïf. “O Poteiro nunca foi naïf. Talvez ele seja o mais importante artista primitivo da história do Brasil”, defende Amaury.
Essa diferença entre naïf, a arte ingênua realizada por artistas autodidatas que não estudaram artes plásticas, primitiva e bruta também não é tão fácil de se fazer. Mas o fato é que Goiás, pelo reconhecimento internacional que o trabalho de artistas como Antonio Poteiro, ganhou principalmente na pintura que traz um forte traço emocional do seu autor ligado às tradições religiosas, culturais, as festas do interior e traços de suas cidades e povo marcaram o Estado como um local de proliferação de artistas naïf.

Com a abertura que o reconhecimento dos trabalhos, principalmente nas pinturas e esculturas, de Poteiro, Goiás tem como destaque outros nomes com obras significativas. Entre esses artistas estão Helena Vasconcelos, Sebastião dos Reis, Moacir (Mo), Pérsio Forzani e Manoel Santos.

As cores fortes e chocantes, a assimetria das formas nos quadros são sempre lembradas como características do estilo de arte naïf. Mas quando comparadas à arte primitiva, há a diferença entre a assimetria do naïf e a simetria do equilíbrio dos primitivistas. Enquanto é perceptível a ausência de perspectiva em pinturas primitivas, o naïf traz um certo conhecimento teórico, mesmo que não acadêmico, da perspectiva na pintura.

Para Amaury Menezes, o que caracteriza ainda com mais evidência Poteiro como primitivista e não naïf é a falta de domínio da mistura de cores. “Enquanto um artista naïf tem conhecimento do estudo de cores e sabe usar duas cores para dar origem a outra e usar em seus trabalhos, o primitivo, como o Poteiro, se quiser usar um laranja, por exemplo, ele vai comprar um tubo de tinta laranja.”

Regionalismo

Para PX Silveira, o termo adequado seria arte ínsita ao invés de naïf | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Para PX Silveira, o termo adequado seria arte ínsita ao invés de naïf | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Como o naïf e o primitivo partem de um artista que não tem formação em artes plásticas, a retratação do seu cotidiano e da sua formação cultural se tornam ainda mais forte em seu trabalho. As explicações para isso variam, mas há um pensamento comum de que o regionalismo no naïf é característico do local em que vive o artista.

A tradição religiosa nas cidades do interior de Goiás ligada às festas tradicionais acaba sendo bastante retratadas nas obras desses artistas que residem ou moravam no Estado. Outro fator é o traço econômico. Como a produção primária é forte em muitas cidades, a produção artística ganha forma com base nessa economia primária.

Essa visão de arte naïf como um termo que qualifica esse tipo de produção artística não é vista com bons olhos por alguns. O especialista em arte PX Silveira admite que não gosta do termo naïf. “O termo que mais me agrada é do arte ínsita”, afirma Silveira. Para ele, a arte que vem do próprio artista descreve mais o trabalho desses goianos do que o naïf.

“Naïf é um termo incompleto. Chamar de arte inocente é um pouco pejorativo.” PX Silveira começa a traçar o que diferencia o bom artista do reprodutor de cenas. Para ele, é quando nomes como Poteiro e Fé Córdula perceberam que o que eles faziam tinha valor como arte.

Não é arte erudita, mas também é arte

O escritos Miguel Jorge vê a emoção do artista aplicada na produção naïf | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

O escritos Miguel Jorge vê a emoção do artista aplicada na produção naïf | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

O ponto de partida do artista naïf, tanto para o artista plástico Siron Franco ou PX Silveira, vem da criação de uma linguagem própria do autor em sua obra. “No naïf, só se sobressai quem constrói sua própria identidade artística”, afirma Silveira.

O escritor Miguel Jorge vê no artista não erudito o dom de transformar algo tratado como ingênuo em uma pintura carregada do emocional do autor com suas lembranças da infância, mesmo sem seguir uma linha de refinamento. “É uma escola espontânea que não vem do estudo.”

A preocupação, muitas vezes, é com a repetição. Siron Franco diz que muitas vezes não se respeita o tempo de criação do artista. “O perigo do mercado é roubar a alma do artista”, lembra.

Ao mesmo tempo que o mercado da arte valorizou esses artistas naïfs e primitivos, a procura por esse estilo, principalmente na pintura, gerou uma produção quase que em série. “A proliferação chegou a ser muito grande ao ponto de virar venda em feira pública.”
Nesse sentido, Amaury Menezes discorda e diz acreditar que cada artista tem o mercado que consegue com a projeção atingida pelo seu nome. “Tem bons artistas acadêmicos, por exemplo, que expõem seus trabalhos em feiras e praças, como acontece na Praça da República, em São Paulo”, defende Amaury.

Ruptura

O caso de Poteiro é citado por muitos para exemplificar a ruptura apresentada para uma certa mesmice na arte autodidata. Quando ele foi incentivado pela historiadora Regina Lacerda a passar dos potes com figuras fixadas, que deram o apelido de Poteiro, à escultura com barro, o português que morava em Goiânia atingiu outro patamar em sua produção artística.

Assim como evoluiu ao receber de Siron Franco e Cléber Gouvêia, na década de 1970, o incentivo para se aventurar na pintura de telas. Coisa que Poteiro fez sem nem saber a técnica para aproveitar a tinta. Sem diluir ou aproveitar melhor esse material, ele usava o que pegava com o pincel direto do tubo e aplicava na tela.

Essa mudança no trabalho gerou o reconhecimento internacional que Poteiro alcançou. Para Siron, o português foi feliz por ser visto pelo mundo das artes em um momento propício, nos anos 1980, quando Gabriel García Márquez, colombiano, era um escritor no auge, assim com o goiano José J. Veiga. “Tudo convergia a favor, era o momento desse tipo de arte no mundo”, descreve Siron.

Enquanto o termo primitivo era visto como algo pejorativo, o naïf cresceu como algo mais bonito, imponente, como destaca Amaury Menezes. Enquanto a temática pode ser considerada ingênua, como a tradução da palavra naïf sugere, a prisão a determinado tema não limitava sua produção artística, inclusive na descrição da cena pintada na tela.

Instintivo
Esse dom descrito como instintivo, que vem das referências familiares, culturais ou religiosas, traços do regionalismo que cada região vivencia, ajudam esses artistas a criarem seus cenários, descritos como pictóricos (referentes ao próprio autor). Como parece algo muitas vezes repetitivo, essa intuição enfrenta sempre muito preconceito, como lembra Siron Franco.

Descrito por Amaury Menezes como um dos três artistas goianos que aparecem sempre quando são citados dez grandes artistas plásticos brasileiros, Siron destaca nos que ganharam notoriedade na pintura goiana os que conseguiram se diferenciar no uso da linguagem, como Poteiro e Fé Córdula. “Fé Córdula tem outras influências em seu trabalho distintas das do Poteiro.”

A arte simples, sem um estudo formal, como frisa Siron Franco, não tira de artistas como Poteiro o lugar de “um dos três maiores artistas primitivistas do Brasil” na visão dele.

Repetição

Siron Franco vê o artista autodidata como um músico de ouvido, que consegue criar grandes obras sem o conhecimento acadêmico | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Siron Franco vê o artista autodidata como um músico de ouvido, que consegue criar grandes obras sem o conhecimento acadêmico | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Na opinião de Siron, não há como concordar com a afirmação de que toda falsificação tem um algo de original. “Esse uso do inconsciente, da intuição, da emoção, vem de uma mistura de tudo, que não é notada em repetidores de arte”, ressalta.

E o não conhecimento formal em nada impede que o desenvolvimento artístico desses escultores e pintores dê frutos a trabalhos criativos e únicos. “O Poteiro era muito simples, mas era um homem do mundo, ele sabia misturar as influências que recebia em suas obras”, diz Siron Franco.

“Os pintores primitivos querem descrever a cena. E o Poteiro colocava isso de uma maneira exuberante. Ele era como um músico de ouvido, que não sabia ler uma nota musical, mas consegue fazer músicas brilhantes.”

Para Siron, talvez hoje não se tenha um espaço na arte para a valorização do naïf, do primitivo e desses artistas em seu valor de venda. “O clima da época valorizava esse realismo mágico e todo tipo de experimentação.”

PX Silveira cita Poteiro como o artista que abriu o caminho para que houvesse um reconhecimento à arte naïf, bruta ou primitiva. Parte desse trabalho ganhou espaço no Museu de Arte Contem­porânea de Goiás (MAC Goiás), no Centro Cultural Niemeyer. Até 23 de outubro, a exposição “Po­teiro: colorista do Brasil” recebe visitantes com entrada gratuita de terça a sexta-feira das 9 horas às 17 horas e aos finais de semana e feriados das 11 horas às 17 horas. A curadoria é de Enock Sacramento, que selecionou 37 pinturas e quatro esculturas do português representante do naïf ou do primitivo produzido em Goiás.

Segurança
PX Silveira lembra que o destaque que Fé Córdula e Poteiro conquistaram trouxe uma aura de segurança a outros artistas considerados naïf em Goiás que passaram a valorizar sua própria produção como arte. “Esse reconhecimento gerou o contato com o público também fora do Estado”, afirma.

Essa falta de medo de errar identificada por PX Silveira nas obras de Antonio Poteiro, sem qualquer preocupação com o belo, que já era um traço diferente da produção de Fé Córdula, tirou o medo também de outros artistas. Enquanto Fé lapidava mais a sua pincelada, Poteiro era mais radical, como aponta Silveira. Mesmo que não fossem goianos, os dois, produzindo em Goiás, colocaram, assim como Siron Franco e Ana Maria Pacheco, o Estado como um dos locais de grande importância nas artes plásticas brasileiras. l

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