Ainda não dá para cravar Bolsonaro no PSL

Apesar da garantia de Luciano Bivar, presidente nacional da sigla, histórico recente do presidenciável gera mais dúvidas do que certezas

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

O deputado federal Jair Bolsonaro, ainda ligado ao PSC, fechou um acordo de filiação com o PSL no último dia 5, causando enorme repercussão no meio político ao romper com o PEN, futuro Patriota.

Na assinatura do termo de compromisso, o parlamentar do Rio de Janeiro e o presidente do PSL, Luciano Bivar — deputado federal por Pernambuco —, afirmaram existir “total comunhão de pensamentos”. Entre as prioridades destacadas pelo documento, estão o pensamento econômico liberal, o direito à propriedade privada e a valorização das Forças Armadas.

Ainda não dá para garantir, contudo, a ida do presidenciável, que aparece em segundo lugar na maioria das pesquisas de intenção de voto, ao novo partido, uma vez que a oficialização deve ocorrer apenas durante a janela partidária — de 7 de março a 7 de abril — a fim de evitar a perda de mandato por infidelidade. Além disso, o histórico recente de Bolsonaro não dá a certeza de que, até março, o deputado federal não tenha rompido com o PSL e declarado lealdade a outro partido.

De acordo com levantamento feito pelo jornal “Estado de Minas”, o PSL será o oitavo partido de Bolsonaro — sem contar o Patriota. São eles: PDC (1988 a 1993); PPR (1993 a 1995); PPB (1995 a 2003); PTB (2003 a 2005); PFL (2005); PP (2005 a 2016); PSC (2016 à atualidade).

A saída do PP se deu porque não havia espaço suficiente para Bolsonaro disputar a Presidência. Acolhido pelo PSC, o parlamentar sofreu resistência de dirigentes em razão de seu radicalismo político e do processo por apologia ao estupro respondido por ele no Supremo Tribunal Federal (STF). No entanto, o estopim foi a aliança entre PSC e PCdoB no Maranhão nas eleições municipais de 2016, que, na visão do presidenciável, foi inaceitável.

Desde então, Bolso­naro vem procurando um partido para se candidatar em 2018. Conve­rsas teriam sido realizadas com alguns na­nicos, como PRTB e PSDC. Para partidos pequenos, é interessante ter uma fi­gura como Bol­sonaro, haja vista que, para continuar existindo, eles precisam cumprir a cláusula de desempenho e o deputado federal certamente irá atrair muitos votos.

Com o Patriota, parecia que tudo estava bem encaminhado. Não estava. Em vídeo divulgado nas redes sociais, o deputado federal fluminense aparece ao lado do presidente nacional do Patriota, Adilson Barroso, dizendo que a decisão estava tomada. Ele seria mes­mo o candidato da legenda ao Planalto. “A palavra vale muito mais que um pedaço de papel”, frisou Bolsonaro. Neste caso, não valeu.

Santana Pires: “Não confio mais na palavra de Bolsonaro” | Foto: Reprodução/Twitter

A palavra e a assinatura de um termo de compromisso — semelhante ao do PSL — não foram suficientes para bancar a decisão tomada no dia 23 de novembro. Presidente do Patriota em Goiás, Santana Pires conta que Bolsonaro queria tomar o partido inteiro para o seu grupo — todos os 27 diretórios regionais, além da presidência nacional. “As portas ainda não estão completamente fechadas para o Jair, mas eu não confio mais na palavra dele.”

Mesmo sem Bolsonaro, o Patriota tem pretensão de lançar um candidato a presidente e a executiva nacional vem mantendo contado com Joaquim Barbosa, ex-presidente do STF, que tem um posicionamento completamente diferente do deputado federal.

Delegado Waldir se apresenta como a voz de Bolsonaro em Goiás | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

No PSL, Bolsonaro encontrará dificuldades como pouco tempo de TV e uma fatia pequena dos fundos partidário e eleitoral. No Patriota, ocorreria o mesmo. Em 2017, o PSL recebeu R$ 5,3 mi­lhões do fundo partidário. O Pa­tri­o­ta, R$ 4,5 milhões. Enquanto isso, o PSC ficou com R$ 14,9 milhões. O R$ 1,7 bilhão do recém-criado fundo eleitoral será dividido entre os partidos conforme o tamanho de cada um.

O deputado federal Delegado Waldir (PR) se apresenta como a voz de Bolsonaro em Goiás e confirma que irá se filiar ao partido que seu colega de Câmara escolher. Para ele, ainda há possibilidade de mudança até a janela partidária. “É necessário um partido onde ele tenha o comando e não seja rifado amanhã. O ideal, para um presidenciável, é controlar todo o diretório.”

Ao Jornal Opção, Luciano Bivar garante que a filiação está “fechadíssima”. “Trata-se de uma comunhão de ideias muito forte. A vinda do Bolsonaro foi incondicional e não houve nenhum fisiologismo.” O presidente nacional do PSL minimizou a saída de filiados que buscavam uma renovação do partido com ideias liberais ao revelar que, nos últimos dias, houve um acréscimo de mais de 20% de filiados devido à chegada de Bol­sonaro. “Nunca o PSL filiou tanta gente.”

Luciano Bivar garante que ida de Bolsonaro ao PSL está “fechadíssima” e diz que partido nunca registrou uma quantidade de filiados tão alta | Foto: Divulgação/PSL

Vice

O site O Antagonista cravou que a vice de Bolsonaro será de Luciano Bivar, que desmente: “[a vice] está aberta. Estamos dispostos a conversar com qualquer partido, menos os de esquerda”.

Durante coletiva de imprensa após o fechamento do acordo com o PSL, o próprio Bolsonaro disse que não há definição em relação a esse assunto. “Tem de ser uma pes­soa que agregue, tenha boas ideias e ajude a governar. Não interessa a região, o gênero e a cor de pe­le.”

Perguntado se aceitaria ser vice de Bolsonaro, Delegado Waldir externou que seus planos para 2018 são outros e declarou que o senador Magno Malta (PR-ES) é um dos favoritos para ocupar a vaga.

Governabilidade

Há quem diga que a dificuldade de Bolsonaro em encontrar um partido para ser candidato é um presságio do que pode vir a ser o seu governo, ou seja, se não consegue negociar com partidos pequenos, o cenário de obstáculos se ampliaria com o Con­gresso. Em outras palavras, Bol­sonaro não seria capaz de obter a governabilidade necessária para comandar o País.

De fato, ocupar um cargo do Executivo é bem diferente de um do Legislativo. E a experiência de Bolsonaro na política se limita ao segundo — elegeu-se vereador do Rio de Janeiro em 1989 e, dois anos depois, foi à Câmara Federal, onde permanece até hoje. No Executivo nacional, é exigido um jogo de cintura muito maior para conversar com os 81 senadores e 513 deputados federais.

Talvez fosse o caso de, primeiramente, tentar governar seu Estado, o Rio de Janeiro. Se colocasse ordem no caos deixado pelo MDB, Bolsonaro poderia se gabaritar à Presidência e, eventualmente, eliminaria as desconfianças — pelo menos parte delas.

Mas, de acordo com Luciano Bivar, a questão da governabilidade é um problema a ser resolvido posteriormente, pois os esforços, agora, devem ser concentrados na candidatura. De qualquer maneira, Bivar pensa que, se for feito um bom governo, o apoio surgirá naturalmente. Delegado Waldir, por sua vez, aposta na eleição de uma numerosa bancada de parlamentares que sejam partidários dos pensamentos de Bolsonaro.

PSL de Goiás não tem nenhuma dificuldade em apoiar Bolsonaro

Para Benitez Calil, o partido deve seguir os anseios da juventude | Foto: Reprodução/Facebook

A decisão do PSL de fechar com Bolsonaro veio de cima para baixo, isto é, a direção nacional do partido não consultou os diretórios regionais Brasil afora. Em Goiás, entretanto, a questão não é encarada como um problema, pelo menos por parte do presidente da sigla no Estado, Benitez Calil.

Segundo ele, o PSL goiano não terá nenhuma dificuldade em apoiar Bolsonaro. “O partido é uma vertente de jovens e temos de seguir o que a juventude quer.”

Lucas Calil algega divergência ideológica com Bolsonaro | Foto: Alexandre Parrode/Jornal Opção

Lucas Kitão avalia Bolsonaro com ideias “incompatíveis” com o PSL | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Por outro lado, os principais políticos da legenda em Goiás não demonstraram muita satisfação. Deputado estadual licenciado e chefe da Secretaria Extraor­dinária de Esportes do governo estadual — mas que irá voltar à Assembleia Legislativa após o recesso parlamentar —, Lucas Calil, filho de Benitez, alega divergência ideológica com Bolsonaro e descarta apoiá-lo.

Independentemente da ida do presidenciável ao PSL, Lucas Calil deve deixar o partido na janela partidária com vistas a projetos maiores no futuro, o que requisitaria uma estrutura partidária mais robusta. “No PSL, não tenho essa estrutura.” Conversas já estão avançadas com o PP e o PSD por intermédio dos deputados federais Roberto Balestra e Thiago Peixoto, respectivamente.

“Atordoado”, Santana Gomes também deve se desfiliar do PSL | Foto: Marcos Kennedy/Alego

Vereador de Goiânia, Lucas Kitão faz parte do grupo político de seu xará Calil e irá se filiar ao mesmo partido que o grupo entender ser o mais benéfico. Em relação ao acordo entre PSL e Bolsonaro, Kitão confessa que foi pego de surpresa e avalia o deputado federal com ideias “incompatíveis” com a sigla. Ressalta, porém, que ainda é cedo para bater o martelo. “A estratégia coloca o PSL em evidência e, assim, atrai alguns adeptos, mas o partido perde a essência. Cabe à direção nacional ponderar o que é mais vantajoso.”

O deputado estadual Santana Gomes, que deixará o cargo com a volta de Calil ao parlamento goiano, diz que a situação envolvendo o partido e Bolsonaro o tem deixado “atordoado”. Por isso, Santana também deve se desfiliar do PSL. “Meu grupo é o do governador Marconi Perillo [PSDB] e vou acompanhar a diretriz dele.”

Livres se sentiu traído

Desirée Penãlba: “A relação com o Luciano Bivar não existe mais” | Foto: Reprodução/Facebook

Uma matéria do jornal “O Estado de S. Paulo”, de 17 de dezembro do ano passado, assinada por José Fucs, deu a seguinte manchete: “Livres ganha espaço e pode assumir o comando do PSL”. Àquela altura, o Livres, movimento de renovação liberal que surgiu dentro do PSL, já controlava 12 diretórios estaduais. Menos de um mês depois, o grupo anunciou o desembarque do partido em virtude da chegada de Bolsonaro.

Sérgio Bivar, filho de Luciano, é um dos idealizadores do Livres. Procurado pela reportagem, ele optou por não comentar. “Prefiro ficar fora dos holofotes e seguir ajudando a construir o Livres como sempre fiz.” Em sua página pessoal no Facebook, Sérgio desmentiu nota dada por “O Globo”, que falava acerca da possibilidade de ele continuar com o pai, deixando os companheiros do movimento “na mão”. “A notícia não procede. Sigo no conselho do Livres e o caminho é a desfiliação. Conversas com outros partidos já estão rolando.”

Líder do Livres em Goiás, Desirée Peñalba relata que, no final de janeiro, o grupo irá se reunir para discutir o seu futuro. Ainda não se sabe os rumos que serão tomados. Pode ser que o Livres se torne um novo partido ou se transforme em um movimento cívico, como o Acredito e o Agora!, filiando membros em diferentes siglas.

A princípio, informa Desirée, houve um sentimento de traição por conta do anúncio de Bolsonaro como pré-candidato do PSL à Presidência, mas, posteriormente, deu mais ânimo para seguir em frente. “O grupo não pode perder a força e se dispersar. Agora, somos muito mais do que a renovação de um único partido. O Livres só tende a crescer.”

Volta descartada

“Quem trai uma vez, trai de novo”, salienta Desirée ao comentar que Bolsonaro pode acabar não indo para o PSL de maneira definitiva. “Além de ser um dos responsáveis pela traição com o Livres, ele se sujou com o pessoal do Patriota.”

Questionada sobre uma eventual volta do Livres à legenda caso a filiação de Bolsonaro não seja confirmada, Desirée — que, atualmente, é 1ª suplente na Câmara Municipal de Goiânia e objetiva se candidatar a deputada estadual no pleito deste ano — afirma ser “impossível”. “A relação com o Luciano Bivar não existe mais.”

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