As atividades, gostos e filosofias são muito variados entre elas, temos produtoras de leite, soja, gado e outros produtos. Elas são ativistas, agrônomas, veterinárias, agricultoras familiares e produtoras rurais. Mães, donas de casa e lideranças contam suas histórias com exclusividade para o Jornal Opção.

Com diferentes paixões e pensamentos, conheça as trajetórias dessas mulheres que trabalham no campo. Curiosamente, elas utilizam um termo específico para se referir ao dia de trabalho na roça, a “lida”. Simone Dameto, Ana Amelia Paulino, Magna Rodrigues, Ildes Chaves Barbosa e Marília Sebba compartilham sobre a vivência feminina no meio rural.

E a lida é difícil, cansativa, dura; o que não significa que não possa ser aproveitada e apreciada ao máximo por aquelas que adotaram esse estilo de vida. Algumas são herdeiras, outras assentadas, e ainda tem aquelas que estão arrendando ou pagando as parcelas de seus terrenos. O importante para a construção de uma sociedade mais justa, é que elas também conseguiram seus espaços.

Agora, essas mulheres goianas de diferentes cantos e atuações, vão compartilhar um pouco sobre suas experiências pessoais.

Simone Dameto

Simone Dameto

“O mundo do agro é apaixonante”

Formada desde 2014 em agronomia pela Faculdade do Vale, de Avaré, no interior de São Paulo, Simone nasceu e cresceu na pequena cidade paulista. Ela encontrou no agronegócio sua verdadeira paixão. Desde sua graduação em 2014, ela se especializou em cursos na Unesp e embora tivesse um histórico familiar ligado à agricultura, a escolha de seguir carreira no agro foi inteiramente dela. Nascida e criada na cidade, Simone foi a única da família que decidiu continuar no agro, apesar de seus irmãos mais velhos terem tido mais contato com o campo, segundo ela.

Durante a faculdade, Simone trabalhou com o pai na pecuária leiteira e com pequenos produtores, mas sentia a necessidade de explorar outras áreas. Após se formar, ela enfrentou muitos desafios, especialmente por ser mulher em um setor predominantemente masculino. “Mulher, jovem, recém-graduada… Quando eu comecei, fiz vários processos seletivos, mesmo em grandes empresas, em algumas eu já imaginava que as chances eram pequenas por ser mulher, onde poucas mulheres eram contratadas. Passar em um processo e não ser chamada porque sou mulher, é muito doloroso.”

Ao terminar a faculdade, Simone trabalhou como supervisora agrícola em uma propriedade que produzia principalmente grãos. A experiência foi enriquecedora, mas os desafios continuaram. Muitas vezes, durante processos seletivos, ela se deparava com perguntas pessoais e situações desconfortáveis. “Ouvir que o currículo é impecável, que tem todos os requisitos para a vaga, MAS – ela enfatiza a contradição – não podemos te contratar porque precisaríamos de um alojamento feminino. Em outras entrevistas, vários homens em uma sala pequena, você se sente coagida, já perguntaram se sou casada, se meu marido é ciumento”.

E o que se passa na mente de uma mulher em situações como essa? Medo, frustração, tristeza, confusão… Mas Simone pensava o seguinte: “Será que é essa a realidade? Vou ter que fazer parte ‘desse’ agro”? Ela questiona com um tom enojado na voz ao recordar.

Com o passar do tempo, Simone descobriu uma nova paixão pela comunicação, impulsionada pelas redes sociais. Ela agora divide seu tempo entre o trabalho na lavoura e sua agência de comunicação, voltada para o agronegócio, além de participar de eventos do setor. Nos momentos de lazer, Simone valoriza o tempo com seus entes queridos e cuida de seus animais resgatados. Ela aproveita para visitar seus irmãos em São Paulo e desfrutar da companhia de seu marido e gatos em casa.

Simone encontrou no amor um parceiro com objetivos alinhados aos seus. Em 2017, ela e Marcílio decidiram se casar e se mudar para Goiás, foi quando começaram a trabalhar juntos como produtores rurais. Eles cultivam soja e girassol em Bela Vista, uma cidade pequena e próxima de Goiânia. A maior parte das terras onde plantam é arrendada, e por isso optaram por morar na cidade.

A rotina de Simone é diversificada. “Hoje eu me organizo entre as épocas de safra, até para monitorar a lavoura. Só que hoje eu não estou mais tanto no operacional, faz um tempo que eu não dirijo o trator. Eu divido bem o meu tempo porque também tenho uma empresa de comunicação voltada para o agronegócio. Nessa época do ano, que a gente já concluiu a colheita, eu fico mais tranquila para me dedicar para a agência”.

Além disso, ela cuida de dez gatos resgatados em casa e vários animais abandonados na fazenda. “Em casa eu tenho dez gatos resgatados, na fazenda são inúmeros agregados, que as pessoas abandonam na estrada. Tem cachorro, tem gatinho, a gente vai resgatando, cuidando, chega um ponto que eles ganham nome. Eu sou bem apaixonada mesmo pelos bichinhos. Não abandonamos nenhum, então eles vão ficando por lá”, compartilha.

Simone enfatiza que não é herdeira de terras, nem sucessora, mas construiu sua própria trajetória no agro. Junto com seu marido, eles transformaram pastagens degradadas em áreas produtivas, cultivando soja, milho e girassol. Desde o início, Simone sabia que queria empreender no campo e fez disso seu trabalho, mesmo sem vir de uma família proprietária de terras. O casal atua junto, ela é engenheira agrônoma, ele é gestor em agronegócio. “A família do meu namorado trabalhava com pecuária leiteira aqui. Então ele também não é sucessor, nós somos empreendedores da agricultura”.

A paixão pelo agro foi herdada da história de sua família, mas Simone se apaixonou ainda mais pelo campo durante a faculdade. “Muitas pessoas acreditam que para fazer parte do agro você precisa ter uma sucessão ou uma herança, mas não foi isso que eu escolhi para mim. Talvez o caminho tivesse sido outro se eu tivesse continuado em São Paulo, trabalhado só dentro de grandes corporações, mas eu queria empreender no campo. E tem dado muito certo, graças a Deus”.

Ela sempre viu a agricultura como um negócio e estava determinada a fazer disso sua carreira. “Eu me graduei com 23 anos. Episódios machistas ainda acontecem em muitos lugares, mas é uma realidade que está mudando. Ainda bem que eu não me permiti fazer parte desse agro em específico, e assim eu posso, querendo ou não, usar a minha voz para levar isso para que outras mulheres não precisem passar por isso. Agora acho que a tendência é diminuir cada vez mais”.

Ela ainda acredita que graças à conectividade das redes sociais, as mulheres começaram a se destacar mais em suas áreas com o esforço pessoal. De fato, as mulheres começaram a conquistar seus espaços em diversas áreas que eram consideradas masculinas anteriormente. “Nós já estamos conseguindo mostrar que buscamos conhecimento e somos capacitadas. Ainda existe problema, preconceito, machismo, competitividade, olhares atravessados, só não acho que seja exclusivo da nossa profissão, até porque, ser mulher é um desafio constante”.

Ana Amelia Paulino

Hoje, Ana Amélia é uma figura de destaque no setor agrícola de Goiás, atuando como presidente do Sindicato Rural de Porangatu e da Comissão de Agricultura da Faeg. Com essa descrição, as pessoas não imaginam as dificuldades que enfrentou para viver a vida que escolheu.

Ana Amélia Paulino nasceu em São Paulo, em uma família com profundas raízes na agricultura. “Meu avô já era produtor, meu pai também”. Apesar de ter crescido na capital paulista e seguido uma carreira de sucesso como advogada trabalhista, ela sempre sentiu um forte vínculo com a vida no campo, desde jovem. Formada em Direito e com uma carreira consolidada em São Paulo, Ana Amélia decidiu mudar radicalmente sua vida aos 30 anos. “Um belo dia resolvi mudar”, relembra, citando uma famosa música de Rita Lee. Há 24 anos, Ana Amelia fez a transição para Goiás, determinada a viver o estilo de vida rural que sempre sonhou.

Os primeiros anos foram desafiadores. “Não tinha onde morar, não tinha grana, virei professora.” Durante uma década lecionou, aguardando a oportunidade de provar seu valor no campo. Enquanto isso, seu pai resistia à ideia de que ela assumisse a fazenda da família, porque não acreditava que fosse lugar para uma menina. “Ele não aceitava que eu viesse para a fazenda. E quando mudei para cá, enfrentei resistência de alguns funcionários e produtores”. Foi somente após demonstrar sua competência e dedicação que seu pai finalmente permitiu que ela assumisse a administração das terras.

Ali, ela produz gado para o corte e também tem uma criação de cavalos da raça quarto de milha. Para ela, o trabalho no campo vai além de uma ocupação: “É um estilo de vida que me faz ter vontade de trabalhar todo dia. Pulsa meu coração.” Sua jornada não tem sido fácil. Como a primeira mulher a presidir o Sindicato Rural de Porangatu em seus 51 anos de história, Ana Amélia enfrentou e ainda enfrenta desafios significativos. “Encontrei resistência tanto do meu próprio pai quanto de outros produtores que não acreditavam que uma mulher poderia ser bem sucedida no agro.” Apesar das adversidades, ela perseverou, mostrando sua competência e capacidade de liderança.

Apesar de viver na cidade, ela está frequentemente na propriedade familiar, que fica a 30 km de Porangatu. “É um bate e volta, estou constantemente envolvida nas operações e decisões da fazenda.” Além de seu trabalho no setor agrícola, Ana Amélia encontrou na equitação uma paixão que a ajudou em momentos difíceis. “Eu fui corredora de três tambores por dez anos, até sofrer um acidente. Hoje, cuidar dos cavalos me traz muita alegria.”

Após 20 anos tentando engravidar no casamento, se divorciou. Depois, resolveu ser mãe solo de uma filha concebida por fertilização in vitro. Sua história não é apenas de sucesso pessoal, mas também de quebra de barreiras e inspiração para outras mulheres no setor agropecuário. “Independentemente se você é do agro, se você é da cidade, se você quer ser astronauta. Uma vez que você souber o que você quer ser, persiga, persista.”

Ana Amélia Paulino acredita na persistência e na determinação. “Demorei 20 anos para engravidar e engravidei. Demorei para ser representante de um sindicato, mas aconteceu.” Para ela, o segredo é simples: “Persistir naquilo que faz seu coração pulsar.”

Magna Rodrigues

Saindo de Goianira, pouco antes de chegar em Aruanã, existe o pequeno município de Araguapaz. Ali, Magna Rodrigues, assistente social graduada, produz leite, junto com seus pais, no Sítio Lago Azul, parte de um assentamento chamado Santa Ana. Além disso, ela atua como Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores e Agricultoras Familiares de Araguapaz e como Secretária de Mulheres da Fetaeg (Federação dos Trabalhadores Rurais na Agricultura Familiar do Estado de Goiás). 

Magna vive em Araguapaz, mas nasceu em Turvânia, onde viveu até os dez anos de idade. Entre Turvânia e Araguapaz, passou 23 anos no Mato Grosso, onde o pai tinha uma fazenda. Entretanto, por motivos de saúde, o pai não mais conseguia cuidar da produção. Ele tem problemas cardíacos e precisou implantar uma válvula. Como o médico responsável era de Goiânia, a grande distância e as viagens frequentes começaram a ser um problema, por isso decidiram ir para um local mais próximo.

Magna nasceu em Turvânia e viveu lá até os dez anos. Depois, passou 23 anos no Mato Grosso, onde seu pai tinha uma fazenda. Entretanto, problemas de saúde do pai, que precisou de um médico em Goiânia, motivaram a mudança para um local mais próximo. “Sendo assim, dez anos atrás, eu me tornei trabalhadora rural”, explica Magna.

Ela se orgulha de suas raízes, “sou filha de agricultores, meu avô era um agricultor tradicional, sempre fui criada por pessoas do campo”, conta. Agora, ela está pagando as parcelas do Incra para conseguir suas próprias terras. “Acredito que em até dois anos essa propriedade vai ser minha, de papel passado e tudo”. Ela tem dois filhos, ambos com mais de 20 anos. Um é empresário e o outro é engenheiro.

“A gente precisa saber quem é, de onde veio, ter consciência de classe. Não é preciso omitir que somos trabalhadoras rurais. Inclusive, no século que estamos, mesmo entre os homens já começa a ter mais aceitação. Nós, mulheres, lideramos”.

Magna menciona que é muito respeitada pela comunidade, mas frequentemente enfrenta questionamentos sobre a ausência de um marido. “Onde eu moro, sou muito respeitada pela comunidade, até porque sou mãe solteira. Mas muitas vezes as pessoas já aparecem perguntando ‘mas cadê seu esposo’? E eu respondo: eu estou aqui, se servir. Eu tento ser bem objetiva e colocar a verdade em primeiro lugar”.

Hoje, ela é Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores e Agricultoras Familiares de Araguapaz e Secretária de Mulheres da Fetaeg (Federação dos Trabalhadores Rurais na Agricultura Familiar do Estado de Goiás). Ela representa as mulheres de 116 sindicatos na Fetaeg. “Nós atuamos com paridade de gênero. Entre os oito diretores da Fetaeg, quatro são mulheres. A mulher do campo é a primeira a se levantar e a última a ir deitar”, diz.

“Quando eu me disponibilizei para o desafio do Sindicato foi na época da pandemia, então eu pedi a Deus muita sabedoria para conduzir as coisas”. Como por resposta divina, um pastor/reitor, amigo do Mato Grosso, visitou sua cidade para ensinar sobre organização familiar. Na ocasião, ele explicou sobre como até mesmo dentro de casa as pessoas são muito individualistas. “Com a fala dele, eu aprendi que quem deve coordenar o dinheiro da casa é o mais sábio e não necessariamente o homem”, relata. 

O trabalho da Secretaria consiste em compartilhar informações sobre autonomia, diversidade, ecologia, reflorestamento, criatividade, métodos para aumentar a produção e consciência de classe. “Um dos nossos principais objetivos é ensinar essas mulheres mais simples como transformar o próprio quintal em uma produção”, explica.

Magna traz homens como aliados na Federação, conscientizando-os sobre a importância e grandeza das mulheres. Através da escuta, ela conta que trouxe homens para atuarem como aliados na Federação, de forma que eles também participam na conscientização de classe das mulheres enquanto aprendem e auxiliam no enfrentamento ao machismo. E mais, ela afirma também que apesar de cuidar da Secretaria de Mulheres, muitos homens participam voluntariamente das suas atividades.

Questionada sobre suas realizações e orgulhos, Magna cita a Marcha das Margaridas, da qual foi coordenadora. “Conseguimos levar 42 ônibus de agricultores, três vans. Ainda tiveram pessoas que foram em veículo próprio, de ônibus, ou com outras instituições”. A Marcha das Margaridas é a maior mobilização de mulheres trabalhadoras do campo e da floresta. Em 2023 o evento chegou à 7ª edição. Margarida Maria Alves era uma trabalhadora rural que atuava como presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, na Paraíba. Ela foi assassinada em 1983 enquanto defendia os trabalhadores do campo, por isso a manifestação carrega o simbolismo de seu nome.

“Goiás ainda é um estado muito machista, mas eu acredito que aos poucos conseguimos ir avançando, mesmo que com passos lentos”, reflete Magna. No seu mandato, ela conseguiu conquistar a paridade de gênero em todos os órgãos da Fetaeg. “Eu saio com o sentimento de dever cumprido”. Quanto ao sentimento desse momento, ela diz que sente apenas gratidão. Segundo ela, todos precisam ter uma palavra ou um mantra que dê força para seguir em frente. “O meu mantra é: gratidão. Por tudo o que já aconteceu na minha vida, e na vida dessas mulheres que eu tenho trabalhado junto”.

Durante a pandemia, Magna enfrentou grandes dificuldades. “Os agricultores familiares precisaram aprender a lidar com novas tecnologias. Para o pessoal do campo, muitas vezes esse é um desafio muito difícil. Do nada, tudo ficou virtual”, relembra. Surgiram muitas cooperativas e grupos de mulheres trabalhando juntas. “Elas se viraram para vender por link, chamada, Facebook, Instagram, além da organização de grupos no WhatsApp. A mulherada soltou a criatividade. E nós aprendemos a usar essa exposição para a comercialização”.

Hoje, o movimento sindical onde Magna atua é estruturado 62% por mulheres, a maioria delas aposentadas. “Então quem cuida do processo logístico são as mulheres. Porque sozinha eu posso não conseguir chegar lá, mas com outras mulheres, esses passos se tornam maiores”, comenta. 

Ildes Chaves Barbosa

Os avós de Ildes tinham uma propriedade no nordeste goiano, na cidade de Sítio d’ Abadia, onde ela nasceu. Entretanto, devido à uma insatisfação do pai em relação à dificuldade de acesso, se mudaram todos para uma cidade próxima de Ceres, na região do Vale de São Patrício. Ali, ele comprou uma pequena propriedade em 1998, o que ele não sabia é que ela estava dentro da área de uma fazenda que estava ocupada por um acampamento, o local mais tarde se tornaria um assentamento agrário. 

Apesar da tentativa dos acampados de negar a posse da terra à família, o pai não desistiu. Afinal, tinham deixado para trás as terras que possuíam e estavam ali também trabalhando como família com agricultura. “Ele falou que não ia sair dali de mãos vazias, e como ele também era trabalhador rural, acabamos entrando para a lista da reforma agrária e recebemos a nossa roça. Hoje nós temos seis alqueires de terra”, relata. Inclusive, o pai contou sobre a terra que abandonaram e ela o Incra adquiriu o espaço. A família foi unida para Itapaci em 1998, onde moram juntos até hoje, Ildes com os pais e três dos seis filhos porque três deles já se casaram e saíram de casa.  

No assentamento de Itapaci, onde mora até hoje com os pais e parte dos seus seis filhos, Ildes se envolveu profundamente na agricultura familiar. “Já trabalhei com pimenta, hoje estou na produção de leite. Este ano, pretendo plantar mandioca e banana”, revela sobre suas atividades cotidianas. Ildes sempre esteve imersa no meio rural, “eu e meus pais sempre fomos trabalhadores rurais, sempre trabalhamos na roça, meus avós eram trabalhadores rurais também”, relembra, destacando a tradição familiar na agricultura.

O assentamento foi oficializado em 1999, ali Ildes deu aula de catequese para os assentados, fez cursos de cooperativismo, e descobriu a necessidade de criar um sindicato em Itapaci. “Eu e mais um assentado tínhamos essa vontade, porque na época éramos base do sindicato de ceres, e isso era muito complicado”, relembra. Ela conta que era difícil porque haviam muitos assalariados e agricultores familiares, e pessoas de outras atividades muitas vezes não sabiam orientá-los com precisão. Além de que o Sindicato de Ceres era responsável por outras 6 ou 7 bases, então havia muita demanda para uma única instituição.

Além das atividades na propriedade, hoje, Ildes está à frente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Itapaci, enfrentando diariamente desafios para conciliar seu tempo e cuidar tanto da produção quanto das responsabilidades sindicais. “Então eu planejo o que eu vou pensar pensando no que eu consigo cuidar do plantio, da colheita, até porque anda difícil conseguir mão de obra”, relata.

E o trabalho rural, segundo ela, não para quando saí de sua roça. Isso porque sua atuação no sindicato também envolve informações e auxílios quanto ao plantio e a colheita. “A gente também auxilia nessas questões burocráticas como aposentadoria e licença maternidade. A gente ensina a cuidar da terra, escolher o que vai plantar. Lá em casa eu também cuido das galinhas, o dia é bem corrido na roça”. 

A luta por direitos é uma marca forte na trajetória de Ildes. “Nós temos o sindicato justamente para estarmos na luta e reivindicamos nossos direitos, porque nada é fácil para o trabalhador, seja ele de qualquer área. Já não é fácil conseguir as coisas, sem organização seria quase impossível. Na reforma da previdência, por exemplo, lutamos para garantir condições justas de aposentadoria para trabalhadores rurais”, enfatiza.

Durante as discussões sobre a reforma da previdência, o sindicato se organizou porque o texto poderia passar dos 15 anos de trabalho comprovado para 25. “O  trabalho da roça é muito desgastante, especialmente para as mulheres. É o peso, é o Sol, é a posição que ficamos para mexer no chão. Então a gente teve que ir para as ruas, para garantir o direito das mulheres se aposentarem aos 55 e os homens com 60. 

Ela também destaca a importância das mulheres no meio rural e no sindicato. “Às vezes acham que só são homens nesse espaço, mas acaba que as mulheres contribuem muito. Na roça, muitas mulheres tomam a frente das atividades agrícolas”, orgulha-se. Inclusive, ela relata que viveu situações desagradáveis e enfrentou o machismo não só no meio rural, mas também na organização sindical.

“Quando aparece alguém procurando ‘o presidente’, e descobre que ‘ele’ é uma mulher, já começam a olhar meio torto. Na roça, tem muito homem que acha que a mulher não tem condições de fazer esse trabalho. Entretanto, nós temos condições, sim, até a alimentação agroecológica, é oriunda das mulheres, a maioria é feminina. Os homens que eu conheci não costumam gostar muito da agroecologia, não”.

Ela conta que as pessoas que tinham o interesse em criar esse sindicato se uniram e conversaram. Assim, “os poucos corajosos criaram o sindicato dos trabalhadores rurais de Itapaci”. Ela afirma que é preciso se mobilizar, porque ninguém garante o direito dos outros, cada um precisa lutar pelo seu. “Acho que a luta está no sangue, eu acredito que se eu saísse, talvez não tivéssemos outra pessoa para ir lá brigar por nós. É preciso alguém que vá lá dar a cara a tapa, ninguém simplesmente dá os direitos para quem está calado, em silêncio”. 

A trajetória de Ildes é marcada por desafios superados e conquistas alcançadas. “Eu sou trabalhadora rural com orgulho”. No começo, era difícil lidar com o preconceito e a falta de reconhecimento, mas agora, ela destaca que não tem vergonha de dizer que mora em um assentamento de reforma agrária. 

Ela conta que quando precisava vir até a cidade, passava por situações embaraçosas, até mesmo no hospital. “Na hora de preencher um cadastro de hospital, a atendente não queria colocar o nosso endereço, pediam por algum endereço na cidade. Por isso, a gente morria de vergonha disso, mas isso é passado”.

Graças ao trabalho duro e à organização, o assentamento de Itapaci avançou significativamente. “Em uma única safra, sem trator, conseguimos ocupar 14 carros de milho. E agora estamos prestes a receber o título de propriedade, após 25 anos de luta”, comemora Ildes sobre as conquistas alcançadas coletivamente.

“Hoje eu tenho orgulho de estar nesse movimento, porque a gente adquire conhecimentos demais ali, somos capazes de avançar muito mais juntos. Eu sou trabalhadora rural com orgulho. Se nada é fácil, a gente só não pode desistir”. 

O único pedido que ela fez, foi que o Jornal Opção tentasse ajudar na conscientização sobre o que é, de fato, um acampamento de reforma agrária. “Porque a maioria das pessoas não têm conhecimento do que seja, muitas vezes vejo dizerem que são desocupados os que estão lá”. Essas afirmações infundadas incomodam Ildes. Ela afirma que, na verdade, hoje no assentamento existem pessoas extremamente produtivas. “Produzem entre 100 e 500 litros de leite, cada um dos produtores. E graças aos assentamentos, nós podemos mudar de vida e construir condições melhores”. 

No começo, todas as famílias tinham dificuldade em produzir, conta a presidente do sindicato. Entretanto, “em uma única safra nós já conseguimos ocupar 14 carros de milho, isso porque foi no manual, sem trator, sem nada; antes de conseguirmos o nosso lote oficial. Quando recebemos o nosso, dobrou a produção”. 

E ela comemora ao perceber as conquistas alcançadas e os resultados obtidos coletivamente. Por fim, ela celebra o avanço do assentamento de Itapaci. “Agora, esse ano o nosso assentamento deve conseguir o título, fazem 25 anos que estamos lá”.

Marília Sebba 

Veterinária, mãe de duas meninas, dona de casa, fazendeira e pré-candidata ao cargo de vice-prefeita em Catalão, assim se apresenta Marília Sebba. Ela, que é filha do Jardel Sebba (ex-prefeito e ex-presidente da Alego), e irmã de Gustavo Sebba, deputado estadual, comentou sobre a candidatura. Ela disse que esse é mais um desafio, e para ela, “cada desafio é melhor do que o anterior, será uma luta com muita dignidade e respeito”.

Formada em medicina veterinária desde 2010 pela Universidade Federal do Mato Grosso, ela atua na Fazenda Santa Anna há 14 anos,onde tem uma sociedade com o pai. O nome do local é uma homenagem à mãe, Anna. Marília é a responsável não só pelas decisões da produção, mas também coloca a mão na massa – e não é pouco. Marília gosta da vida da fazenda, e explica o motivo: “a paz que o ambiente te proporciona é outra, um sentimento de tranquilidade, o céu é limpo, parece que a Lua brilha mais, até os barulhos são diferentes”.

Ela é quem cuida dos ultrassons, da vacinação e da contagem dos animais com periodicidade, mas gosta mesmo é de andar a cavalo. Ou melhor, se possível, andar de mula. “Sou muito apaixonada nas mulas pela resistência, resiliência e persistência delas, de certa forma, são como as produtoras rurais em tudo que fazem”, brinca Marília. A outra paixão são as vacas e todo o processo da maternidade que elas simbolizam.

Ela relata que começou a trabalhar como produtora rural, em primeiro momento, pela questão familiar Entretanto, o amor pela vida no campo e pelos animais sempre foi grande, “eu acho que herdei essa paixão pelo campo do meu pai. Ele sempre me incentivou, sempre fomos nós dois juntos para a fazenda”, conta ela.

Quanto às dificuldades de ser uma mulher nesse nicho masculinizado, ela compartilha que especialmente no início da carreira foi muito subestimada, inclusive enfrentando resistência por parte de funcionários que não queriam receber ordens dela. “Eles diziam que eu só estava ali porque era a filha do chefe, sendo que eu só comecei a atuar na fazenda do meu pai depois de formada”, desabafa a frustração.

E como lidar com situações assim? Bem, cada uma lida à sua própria maneira, a forma que Marília encontrou foi apresentar resultados positivos. “Eu enfrento de igual para igual, ocupo o meu espaço”. Segundo a memória de Marília, foi só depois de uns seis anos, graças aos bons resultados, que passaram a respeitá-la como dona, pelo mérito. “Assim começaram a respeitar também as minhas decisões, mas eu já fui muito contestada por pessoas que sabiam muito menos sobre o assunto do que eu”, compartilhou.

E o amor por seu trabalho e por seus animais é tamanho, que quando questionada qual o orgulho que carregava, ela creditou o seu trabalho. “Porque eu trabalho e pesquiso o melhoramento genético, a reprodução bovina. E eu crio isso há 14 anos, são excelentes animais, produtos de ponta”. Em seguida, questionada o motivo de se esforçar tanto por um “produto”, ela respondeu firme: “eu vendo o que eu quero para mim”.

Na oportunidade, Marília aproveita para celebrar que  cada vez mais mulheres estão se formando e optando por ir para o campo e trabalhar nessa área. “Juntas, mostraremos que somos capazes de transformar esse mercado de trabalho”. Ela comemora que o empreendedorismo feminino ganhou força nos últimos anos e destaca que as mulheres estão ocupando mais posições de liderança, inclusive na cidade de Catalão, onde existe um forte grupo de mulheres no agro.

“Acredito muito na capacidade da mulher, e as minhas meninas vão crescer com o exemplo de uma mãe ativa e trabalhadora. Tudo o que eu faço é por elas, torço para que continuem a nossa luta e sejam profissionais bem sucedidas em qualquer ramo que escolherem”, finaliza ela.

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