Agonia da população piora com novo software

Sem pagamentos, donos de laboratórios reclamam por não ter condições de atender, enquanto os usuários sofrem com falta de exames

Imagem: Reprodução

A implantação do novo sistema de software convulsionou ainda mais os problemas na Saúde em Goiânia desde o início de dezembro. Cerca de 50 laboratórios e clínicas são credenciadas na Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia, mas 4 estão atendendo a uma demanda incalculável. Com o sistema fora do ar, sem acesso às vagas quando funciona e falta de treinamento de servidores, a situação se tornou caótica. Na tentativa de sanar o problema, a secretaria adquiriu, com dispensa de licitação — sob argumento de urgência pela titular da Pasta, Fátima Mrúe —, um software de gerenciamento de vagas. Não resolveu.

A reportagem do Jornal Opção teve acesso a conversas em um grupo de WhatsApp dos laboratórios em que são discutidos a falta de pacientes nas unidades. Em um dos áudios, a dona de um laboratório conta que no final do mês de novembro o serviço foi descontinuado e que a prefeitura prometia que, no início de dezembro, o serviço voltaria a se normalizar.
“Estão configurando agora, mas não deram treinamento ao pessoal do Cais e nos laboratórios”, diz o áudio. “Tem quatro ou cinco laboratórios que estão com pacientes e o restante está sem. De alguma forma eles [os quatro] estão sendo favorecidos, mas acho mais que é uma falha no sistema. Mas deveria estar direcionando para todos”, denuncia ela.

A maior reclamação no grupo é a de que desde que o sistema da prefeitura saiu do ar para dar lugar ao novo, a maioria dos laboratórios não faturou nada. “Pelo jeito, em dezembro não vamos fazer nenhum atendimento. E fevereiro, vamos fechar o laboratório? Do dia 20 em diante não faturamos nada. Os médicos praticamente param de atender”, diz no áudio, que lembra que os laboratórios realizam os exames, mas são pagos dois meses depois.

Em outro áudio, proprietária de outro laboratório desabafa: “Desde que começou este novo sistema não chegou nenhum paciente. Ela [Fátima Mrué] disse que o novo sistema era um caso emergencial [justificativa para contratar sem licitação o software]. O Cais está abarrotado, todo mundo xingando. Não sai chequinho, não sai nada.” Ela sugere ainda que a secretaria estaria evitando marcar os exames para economizar. “O que Iris prometeu para a Saúde não está cumprindo nada”, afirma.

Funcionário despreparado
Além do suposto direcionamento de pacientes a apenas quatro unidades, o dono de outro laboratório conta no grupo que não recebeu o pagamento dos exames realizados na gestão do Paulo Garcia (PT). “Tenho faturas abertas desde outubro do ano passado. Paulo Garcia pagou 50% do valor, que estava há dois meses atrasado. Até hoje não pagaram e não tem previsão. Nós pagamos para trabalhar.”

Com a Central de Regulação lotada, durante a semana muitos pacientes foram mandados para as unidades de saúde perto de suas casas, mas se depararam com funcionários sem qualquer preparo para lidar com o sistema pelo qual a prefeitura deverá desembolsar R$ 4,2 milhões, à empresa Vivver Sistema.

Em alguns postos de saúde, computadores ainda operam no Windows XP, incompatível com a rapidez com que o sistema desenvolvido, provocando panes e lentidão. Para piorar, como apurou a reportagem com os próprios funcionários, o sistema possibilita que as vagas fiquem disponíveis, mas os servidores não conseguem encaixar os usuários. Por isso, não resta alternativa senão mandar o paciente voltar para casa sob a justificativa de que o “sistema está fora do ar”.

De fato, em muitas das unidades de saúde o sistema permanece offline, muito parecido com o sistema operado pela própria prefeitura anteriormente, com a mesma internet fraca.
O dono de uma clínica que realiza exames conta que a pasta suspendeu o atendimento dos pacientes que faziam atendimento em clínicas particulares. “Existia uma complementação de pagamentos para exames. Paulo Garcia pagava, mas a gestão atual não paga mais.” Isto ocorreu depois da portaria nº 260/2017 que revoga outra portaria, a de número 093/2014, que autorizava a área de Saúde do município a fazer a complementação da Tabela SUS, devido aos baixos valores que não cobrem os custos dos procedimentos.

“Agora não temos condições de fazer os exames e suspendemos os atendimentos. O paciente ficou desassistido. O que era uma fila enorme, ficou maior ainda. A secretária disse que em dois meses, com o novo sistema instalado, a situação vai estar normalizado. Acredito que não. Mesmo com todas as clínicas atendendo não será possível”, diz o proprietário.
Ele afirma ainda que a secretária sugeriu que as clínicas voltassem a atender pela metade do preço dos exames. “Isso é inviável. Estaríamos pagando para realizar os exames para a Secretaria de Saúde de Goiânia. Com esta decisão impensada, a fila quadriplicou”, conta ele, que trabalha com a prefeitura há cinco anos e se assustou com a revogação do valor, pois investiu em infraestrutura e aumentou o quadro de funcionários para atender aos clientes.

Mudança traz traumas
Presidente do Sindicato dos Laboratório de Análises e Bancos de Sangue no Estado de Goiás (SindLabs), Radiff Domingos ameniza a situação, depois de ter se reunido com a secretária de Saúde, na quinta-feira, 7. “Toda mudança traz alguns traumas. Agora vai ser online, estão consertando os defeitos. Espero que a partir da semana que vem tudo se resolva, pois esta semana foi muito difícil.”

Domingos prefere apontar a inexperiência nos profissionais dos Cais que, para ele, “estavam apanhando”. Ele revelou, ainda, que alguns laboratórios vão atender dentro das unidades de saúde. Indagado sobre quais critérios para a escolha, ele se limitou a informar que os seis “foram convidados” e vão atender urgência e emergência, além dos ambulatórios que não precisam de muitos equipamentos. “É que fazem mais exames de sangue e urina, hepatite e malária, com resultados rápidos”, explica. l

Laboratórios reclamam da falta de pagamento

Deusenira Alves Feitosa: sem conseguir resultado de exame | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Nos Cais, pacientes não conseguiam, além de consultas, realizar exames simples, como hemograma. Quem conseguiu fazer nos últimos meses, ainda não obteve o resultado. A justificativa? Falta de pagamentos pela prefeitura. É um problema grave que reflete diretamente no usuário.

Com olhos afundados no chão de granito, amparado pela sobrinha, Domingos Nunes, de 64 anos, não tinha palavra para expressar o calvário por que passava para ser atendido da madrugada até o final da tarde da quinta-feira, 7.

Levado pela sobrinha Deusenira Alves Feitosa, 45, a uma cadeira na recepção do Cais Campinas, depois de passar o dia na Santa Casa à espera de exames que não foram realizados, Domingos foi poupado de ouvir que teria de procurar atendimento em outro lugar. “Minha cabeça dói muito”, ele dizia constrangido para a sobrinha que se desesperava. “Não sei que fazer. Não conseguimos tomar café da manhã, nem almoçar”, contava Deusenira às 15 horas, mostrando encaminhamentos que não a levariam a lugar algum.

Além do pedido de exames do dia, ela carregava um protocolo que informava que uma tomografia do crânio de Domingos foi feita no dia 9 de setembro, com entrega prevista para 27 de outubro. Semanalmente, Deusenira procura a Santa Casa e a resposta é a mesma: “Não ficou pronto porque o laboratório que realizou o exame não recebeu da prefeitura”. A mulher estava sem saber o que faria para que o tio fosse atendido.

Procurada pela reportagem, a Santa Casa informou que a equipe de médicos radiologistas foi trocada e que está “se desdobrando para regularizar a emissão dos laudos de exames”. A expectativa, diz a nota, é que a situação seja normalizada ainda neste mês. A assessoria informou que vai se desdobrar para resolver o problema de Domingos.

Enquanto a reportagem esteve no local, pelo menos 20 pacientes procuraram a unidade e foram encaminhados a outros locais. “Aqui só tem uma pediatra, olha ela ali, vê se ela te atende”, disse, irritada, uma recepcionista a outro idoso que esbravejava na sala de espera do Cais. Ele saiu bravo, sem querer falar com o repórter.

Logo depois, uma equipe do Samu chegou com uma idosa cadeirante, vinda de outra unidade, para realizar um exame de raios x e consultar com um médico. Fez o exame e foi para casa sem a consulta.

O enfermeiro do Samu, que pediu anonimato, contou que na terça-feira, 5, apenas três viaturas rodavam em Goiânia. “A gente precisava escolher a qual ocorrência atender. Hoje [quinta, 7], a situação não está diferente”, contou, antes de um jovem aparecer com as mãos queimadas.

Uma das referências no atendimento a queimados, o Cais de Campinas não tem mais do que se orgulhar: passa o dia com a porta fechada, usada eventualmente – não para atender vítimas de queimaduras, mas para dar pontos. É o que revelou uma funcionária. A porta, como constatou a reportagem, fica trancada. Quem chega à unidade necessitando de atendimento, é orientado a procurar outros locais. “Pela falta de servidores, deslocaram médicos e enfermeiros para atender em outras unidades, desmantelando o serviço para os queimados na unidade”, contou outra funcionária.

Pouca gente quer se comprometer, por isso pedem anonimato quando falam do caos que se instalou na Saúde em Goiânia. A vereadora Dr. Cristina (PSDB) conta que recebe constantemente denúncias de servidores que são alocados para outras unidades se dizem algo que contrarie a Pasta.

“Esta gestão parece uma ditadura. Às vezes o médico está no meio de um plantão e tem que mudar de unidade. Os servidores da Saúde estão apavorados”, salienta a vereadora. Para ela, é preciso aumentar as equipes técnicas e não punir os que ainda resistem à bagunça que virou a Saúde em Goiânia.

A secretária municipal de Saúde, Fátima Mrué, ao ser questionada por meio de sua assessoria de imprensa, não respondeu a nenhuma das perguntas enviadas por e-mail.

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