A solução virou encrenca séria

Em menos de 20 anos, a marginal Botafogo, que desafogou o trânsito da rua 115, além de outras vias importantes das imediações, tornou-se um problema de solução complicadíssima, mas há problemas de drenagem em quase toda a cidade

Trechos entre a Avenida Jamel Cecílio e o Viaduto da 88 são interditados | Foto: Larissa Quixabeira / Jornal Opção

Um goianiense que tenha se mudado de Goiânia por volta do ano 2000 certamente ficaria escandalizado com a situação da marginal Botafogo durante a temporada de chuvas. Por menor que seja a precipitação, especialmente nas margens à direita do córrego, a caixa construída para escoar a água fica cheia. Nos temporais, com chuvas muito intensas embora rápidas, a situação aproxima-se da tragédia. Os transbordamentos estão se tornando cada vez mais assustadores, sem falar nas encostas arrastadas pela força da correnteza. E o problema da drenagem em Goiânia não se restringe à marginal. Locais que nunca passaram por inundações agora oferecem risco à população.

Será que tem chovido mais do que há duas décadas? Não. Goiânia sempre enfrentou sérios problemas com seus córregos. Ao ponto de boa parte da população ribeirinha ter sido retirada de pontos considerados de alto risco ao longo dos anos. A diferença é que antes esses pontos perigosos em dias de chuvas intensas agora estão por todos os lados.

Impermeabilização

 O caso da marginal Botafogo é exemplar para explicar pelo menos uma parte do problema, e assim revelar o tamanho da encrenca que é resolver a situação de forma perene. Há 40 anos, o Shopping Flamboyant ficava praticamente no meio do nada. O Jardim Goiás, que o abriga, tinha somente duas avenidas nas proximidades: a E e a Jamel Cecílio. E edifícios de apartamentos só tinha na avenida E. Apenas dois prédios. A região era a mais próxima dos setores centrais, mas praticamente inabitada.

Desde então, tudo mudou dramaticamente. O Jardim Goiás, especialmente na região mais próxima do Flamboyant, tornou-se um dos metros quadrados mais valorizados do mercado imobiliário goianiense, e prédios brotaram aos montes fazendo do setor mais um “paliteiro”. E se há mais gente morando, há também mais empresas e pessoas que se deslocam de outros setores para trabalhar, se divertir ou fazer compras. Tudo somado, é impraticável imaginar que as antigas ruas de terra atenderiam as necessidades e exigências de conforto da vida atual. O resultado dessa soma de fatores é um terreno vasto quase completamente impermeabilizado pelos edifícios e por asfalto. Quando chove, sem encontrar terra para se infiltrar, a água corre para o nível mais baixo, e no caso do Jardim Goiás e região, é onde está o córrego Botafogo e sua marginal.

Como solucionar, ou pelo menos minimizar um problema como esse? Derrubar prédios e arrancar o asfalto é ideia de doido, mas há o que se fazer. Primeiro, desenvolvendo projetos de calçadas com áreas de permeabilização. Por fim, seria o caso de se discutir a utilização de um asfalto produzido pela USP, invenção – acredite! – made in Brazil, que absorve parte da água da chuva. Essa tecnologia existe desde o ano 2000, mas é muito pouco usada nas cidades. O material, que é parecido com o asfalto tradicional impermeabilizado, é poroso, e também por essa razão não é tão lisinho. Tem mais ou menos a mesma vida útil, mas custa até 25% mais caro.

O caso da marginal Botafogo é típico da impermeabilização e suas graves consequências, mas as enchentes em Goiânia, que são cada vez mais comuns, também tem um componente que agrava a situação: a incapacidade de drenagem. Os dutos de água de chuva foram projetados há muitas décadas, e não atendem as necessidades atuais. Trocar essa tubulação antiga por uma nova e maior ajudaria a diminuir o problema das enchentes, mas o custo é absurdamente alto. Ainda assim, existe um cuidado básico que vem sendo negligenciado pela Prefeitura ao longo dos anos: a limpeza das chamadas bocas de lobo, por onde a água entra para os dutos subterrâneos. Esse trabalho deveria ser feito durante o período seco. Há dezenas de anos existe maquinário especialmente projetado para facilitar e agilizar a limpeza dos dutos destinados à água de chuva. Goiânia já contou com um equipamento como esse. E o problema nem era tão sério como é agora.

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Osvaldo

Entre 1991 e 1994, na época em que a Marginal Botafogo estava sendo construída, eu era aluno do curso de Técnico em Edificações na Escola Técnica Federal de Goiás (atual IFG). Lembro perfeitamente de um professor falar que a construção da marginal, aproveitando, a canalização do córrego Botafogo, que não havia sido feita para essa finalidade, estava totalmente equivocada e traria grandes problemas no futuro, além de ter apontado outros problemas na construção que agora não me recordo. Ele acertou a previsão!