Entre cobertores, calçadas e portas fechadas: conheça as histórias de quem vive nas ruas de Goiânia
29 agosto 2026 às 21h00

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Para conseguir fazer uma necessidade fisiológica, Ivonete do Nascimento precisa procurar um lugar vazio, se esconder debaixo de um cobertor e torcer para que ninguém apareça. É assim que uma mulher de 48 anos, que vive nas ruas de Goiânia, encontra um pouco de privacidade para realizar algo tão básico que dificilmente alguém imagina precisar planejar. Nem sempre há um banheiro disponível. Nem sempre algum estabelecimento permite sua entrada e, quando não há alternativa, resta a ela se cobrir com uma coberta e tentar desaparecer por alguns minutos em meio à cidade.
Foi em uma dessas situações que Ivonete do Nascimento conta ter vivido um dos momentos de maior medo desde que passou a morar nas ruas. Enquanto estava coberta, ouviu a voz de um homem e imaginou que fosse um policial. Segundo ela, o homem se aproximou e tentou agredi-la com um pedaço de madeira. “Ele tentou atingir minha cabeça, mas acabou acertando meu braço. Se não fosse isso, eu não estaria aqui para contar essa história. Na rua a gente corre perigo”, diz.
A violência, conta, é uma ameaça constante para quem vive nas ruas, especialmente para as mulheres, que precisam lidar diariamente com o risco de serem violentadas e com a falta de lugares seguros para dormir, tomar banho ou simplesmente estar.
Ivonete do Nascimento está acostumada a explicar uma vida que, para quem observa de fora, talvez pareça impossível de suportar. Ela fala dos problemas de saúde, dos medicamentos que precisa tomar, das dificuldades para conseguir atendimento e da tentativa de acessar benefícios sociais. Mas, quando perguntada sobre o que gostaria de ter neste momento, sua resposta é simples e direta.
“Eu queria ter a minha casinha, sabe? Pra poder tomar meus remedinhos ali tranquilo.”
É esse o sonho que aparece repetidamente em sua história: um lugar pequeno onde possa dormir, guardar os medicamentos, tomar banho, cuidar da saúde e, sobretudo, sentir novamente que existe um espaço no mundo que lhe pertence.
Ivonete não nasceu nas ruas. Natural de Brasília, conta que passou a infância acompanhando os pais, que se deslocavam em busca de trabalho. A mãe é maranhense e o pai, goiano. Hoje, os dois vivem no Pará e, segundo ela, também enfrentam dificuldades financeiras e problemas de saúde. A família ficou espalhada pelo país, e os irmãos seguiram caminhos diferentes.
Ela diz que evita falar muito sobre sua situação com os pais para não preocupá-los. Há vergonha, mas também uma tentativa de protegê-los daquilo que ela própria enfrenta. “Às vezes, eu até me envergonho mesmo de estar falando, sabe? Sobre a minha situação pra eles para não preocupá-los”, conta.
Antes de viver nas ruas, Ivonete trabalhava como camareira. A vida, porém, foi sendo atravessada por problemas de saúde e dificuldades pessoais. Ela relata ter problemas na coluna, artrose, tendinite, escoliose, uma lesão no ombro provocada por um acidente, perda de força e fibromialgia. Também toma medicamentos para depressão e ansiedade e sofre com insônia. Recentemente, descobriu que está pré-diabética.
São muitos medicamentos, e nem todos são obtidos pela rede pública. Alguns chegam por meio de doações. “É muito remédio”, resume.
O Bolsa Família, que ela conseguiu recuperar recentemente, passou a representar uma pequena possibilidade de reorganização. Ela conta que o dinheiro tem ajudado a comprar medicamentos e alimentos, embora não seja suficiente para tudo. Quando recebeu o primeiro pagamento, pensou em alugar um lugar para morar. Mas o celular foi roubado.
Para quem vive em uma casa, perder o telefone pode significar apenas perder um objeto. Para Ivonete, o roubo representou mais um obstáculo para acessar serviços básicos. É pelo celular que chegam mensagens, informações sobre consultas e exames e contatos de serviços públicos. “Você não faz nada se você não tiver um celular hoje em dia”, afirma.
Ela também tenta conseguir o Benefício de Prestação Continuada, o BPC/Loas. Segundo seu relato, já passou por quatro perícias, mas não conseguiu o benefício. O processo agora está na Justiça. A possibilidade de insistir surgiu depois que uma médica que a acompanha no posto de saúde perguntou por que ela não recebia o benefício diante de tantos problemas de saúde. A profissional apresentou Ivonete à irmã, que é advogada, e ela decidiu tentar novamente.
“Ela me deu uma esperança”, conta.

Enquanto espera, continua nas ruas.
Ivonete diz que já procurou o Centro de Referência de Assistência Social (Cras) e outros serviços, mas relata ter sido humilhada durante a tentativa de recuperar o Bolsa Família. Também fala sobre sua experiência em uma Casa de Acolhida, que, segundo ela, não foi boa. Para ela, os períodos de permanência são curtos e existem dificuldades relacionadas à alimentação e à estrutura.
No Centro Pop, diz ter sido melhor recebida, embora ainda veja problemas que precisam ser resolvidos. Ela cita, por exemplo, a necessidade de melhores condições para banho e atendimento. “Eu acho que era isso”, diz, depois de contar parte da rotina que enfrenta.
Quando a noite chega, entretanto, nenhuma dessas estruturas substitui uma casa.
É na rua que ela volta a dormir.
É na rua que precisa tomar cuidado com quem se aproxima.
É na rua que precisa procurar um lugar para fazer suas necessidades.
É na rua que precisa guardar os medicamentos e tentar cuidar de um corpo que já carrega tantas dores.
E é na rua que continua esperando pelo dia em que poderá voltar a ter um endereço.
Fabiano aprendeu a sobreviver e agora quer ensinar outros a recomeçar
A história de Fabiano Sousa Matos começou muito antes de ele chegar a Goiânia. Aos 38 anos, natural de Sergipe, ele conta que foi abandonado pelos pais e pelas tias ainda na infância. Cresceu carregando a ausência da família e, na adolescência, encontrou nas ruas e nas amizades um caminho que o levou às drogas. Aos 16 anos, conheceu a maconha e, depois, o crack e a cocaína.
“Eu me afundei profundamente. Perdi praticamente a minha infância e adolescência. Perdi uma parte da minha vida só nas drogas.”
Durante anos, viveu uma rotina de sofrimento. Mesmo tendo uma casa, não podia entrar nela. Dormia na calçada, com um colchão do lado de fora. A casa que deveria representar abrigo tornou-se uma lembrança de rejeição.
Depois, conheceu o mundo das ruas. Passou por diferentes estados, procurou abrigo, trabalhou e aprendeu a lidar com uma realidade que, segundo ele, exige uma espécie de conhecimento próprio para sobreviver.
Mas a história de Fabiano também é feita de coisas que existiam antes das ruas. Ele lembra do esporte e da dança. Dançou forró e balé, participou de grupos e conheceu pessoas ligadas à dança em diferentes lugares. Ainda guarda a vontade de recuperar um DVD de uma apresentação que fez no passado.
Ele também faz questão de dizer que nunca foi preso e que nunca teve problemas com a Justiça. A própria experiência, porém, não o livrou de situações de violência. Em Goiânia, conta ter sido abordado por um policial que teria ordenado que deixasse determinada região. Fabiano afirma que respondeu que tinha o direito de ir e vir. No dia seguinte, segundo seu relato, teria sido agredido, levado para uma área de mata, ficado sem documentos, dinheiro e bagagem e passado horas machucado.
Fabiano pediu diversas vezes por ajuda, mas ninguém acionou o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) para ele. A situação foi tão difícil que ele conta ter encontrado dois comprimidos de analgésico no chão e tomado um para conseguir suportar a dor e continuar caminhando. “Foi Deus”, relata. Depois, sozinho, conseguiu chegar a uma unidade de saúde.
A experiência poderia ter feito com que Fabiano simplesmente desistisse de procurar ajuda ou de acreditar nas estruturas públicas. Aconteceu o contrário. Ao longo dos anos, ele conheceu diferentes equipamentos de acolhimento e chegou a trabalhar em alguns deles. Atuou na cozinha, ajudou na organização e posteriormente trabalhou como monitor. Foi nesse contato que passou a enxergar a situação de rua também como uma questão de estrutura, organização e oportunidade.
Por isso, quando fala sobre as pessoas que vivem nas ruas, Fabiano não fala apenas em retirar alguém da calçada. Ele fala em oferecer um caminho depois dela.
Para ele, não basta uma cama por uma noite. Não basta um banho. Não basta uma refeição.
É preciso entender quem está ali.
É preciso saber de onde veio.
É preciso saber para onde pode ir.
É preciso descobrir se precisa de tratamento, emprego, documentos ou moradia.
Ele defende que equipes de assistência social estejam nas ruas, façam abordagens e conheçam individualmente as pessoas. Acredita que uma triagem adequada permitiria encaminhar cada pessoa para uma solução diferente.
“Ninguém quer morar na rua”, afirma.
Fabiano também questiona o que acontece depois que alguém consegue um emprego. Se a pessoa continua sem endereço, onde vai dormir? Como vai manter a rotina? Como vai chegar ao trabalho no dia seguinte?
Ele conta que tentou conseguir emprego por meio de um programa da Prefeitura e afirma que deixou de receber retorno depois que informou estar em situação de rua. Na avaliação dele, ainda existe preconceito contra pessoas que enfrentaram problemas com álcool e drogas.
É por isso que Fabiano insiste tanto na palavra oportunidade.
Ele acredita que pessoas que vivem ou viveram nas ruas também podem trabalhar dentro dos próprios serviços de acolhimento. Lembra de experiências anteriores em outras cidades onde as pessoas em situação de rua atuavam na cozinha, na limpeza, na lavanderia, na organização dos quartos e na portaria. Ele próprio chegou a exercer essas funções.
Não fala sobre isso com revolta. Fala com a tranquilidade de quem conhece aquela realidade por dentro e acredita que poderia ajudar a melhorar o sistema.
É nesse ponto que a história de Fabiano ganha outra dimensão. Ele não quer apenas falar sobre o que viveu. Quer participar da construção de uma saída.
Ao falar sobre o prefeito e sobre a Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres, Assistência Social e Direitos Humanos, faz questão de deixar claro que não se coloca como adversário do poder público. “Eu não tô aqui pra criticar a prefeitura”, afirma. O que ele deseja, diz, é diálogo.
“Eu tô aqui simplesmente pra fazer ele entender. Que a obrigação do social é dele. […] Se existe verbas públicas pra fazer isso, vamos fazer. Vamos ajudar, cara. Vamos tentar melhorar a vida dessas pessoas.”

A cobrança, para ele, não precisa ser uma guerra. Pode ser uma conversa.
Fabiano acredita que é possível fazer Goiânia avançar e criar uma política capaz de devolver às pessoas em situação de rua aquilo que a própria rua costuma levar primeiro: a sensação de que ainda existe um futuro possível.
Ele sabe disso porque também já esteve do outro lado.
Hoje, pretende alugar novamente um lugar para morar depois de conseguir o Bolsa Família. Quer ter uma residência, ficar mais seguro e, ao mesmo tempo, continuar ajudando quem permanece nas ruas.
Ivonete espera por uma casa para conseguir cuidar do próprio corpo.
Fabiano procura uma casa para poder cuidar também dos outros.
Ela quer uma porta que possa fechar.
Ele quer abrir portas para quem ainda não encontrou nenhuma.
Entre os dois, existe uma Goiânia que nem sempre aparece para quem passa pelas avenidas, trabalha no centro e volta para casa ao fim do dia. É uma cidade feita de calçadas que viram quartos, cobertores que viram paredes e pessoas que precisam negociar diariamente com a fome, o medo, a doença, a solidão e a falta de um lugar para chamar de seu.
Ainda assim, nenhum dos dois fala como quem desistiu.
Ivonete continua esperando o resultado do processo e imaginando o dia em que poderá tomar seus medicamentos dentro de uma casa.
Fabiano continua acreditando que a experiência que acumulou pode servir para ajudar outras pessoas.
E, quando tenta explicar por que ainda insiste, mesmo depois de tudo, encontra uma resposta que talvez resuma as duas histórias.
“A esperança é a última que morre. Enquanto há vida, ainda há esperança.”
Para Fabiano, enquanto a pessoa estiver viva, ainda existe pelo que lutar. É talvez aí que a história de Ivonete e Fabiano se encontra. Não na rua, nem na pobreza, nem nas dificuldades que os levaram até ali, mas na insistência em imaginar uma vida diferente.
Para Ivonete, essa vida começa com uma casa pequena.
Para Fabiano, começa quando alguém decide olhar para quem está na calçada e enxergar, antes de qualquer coisa, uma pessoa.
E, para os dois, talvez recomeçar seja isso: encontrar alguém disposto a abrir uma porta — ou, no caso de Ivonete, finalmente ter uma que possa chamar de sua.
Tio Cleobaldo enfrenta preconceito por alimentar pessoas em situação de rua
Há mais de cinco décadas, Tio Cleobaldo escolheu fazer uma coisa que parece simples, mas que ainda provoca resistência em parte da sociedade: alimentar quem tem fome. Desde os anos 1970, ele acompanha pessoas em situação de vulnerabilidade em Goiânia e transformou a solidariedade em uma rotina. Hoje, à frente da Associação Tio Cleobaldo, mantém ações de distribuição de refeições e atendimento social, mas também convive com um tipo de violência que não aparece apenas nas calçadas: o preconceito contra quem ajuda e contra aqueles que recebem ajuda.
“Eu sou discriminado”, afirmou Cleobaldo ao falar sobre as dificuldades enfrentadas pela associação. Segundo ele, a entidade já foi alvo de mobilização de moradores que queriam sua saída do local onde funcionava. A mudança para a Rua 220, no Setor Coimbra, não encerrou os conflitos. Ao contrário, Cleobaldo afirma que continuou enfrentando resistência por manter a distribuição de alimentos e atender pessoas em situação de rua.
“Depois que o Tio Cleobaldo foi lá pra rua, apareceu mais bandido”, relata, reproduzindo uma das acusações que diz ouvir. Para ele, o problema está justamente na associação automática entre pobreza, situação de rua e criminalidade.
“Eu mostro que o pessoal de rua não é bandido”, afirma.
Cleobaldo conhece essa realidade há muito tempo. Ele chegou a Goiânia em 1970, quando acompanhou a mãe, que veio à capital para tratamento contra o câncer. No ano seguinte, começou a levar mingau de fubá para pessoas que chegavam à cidade em busca de atendimento médico e para pessoas que viviam em situação de pobreza nas proximidades dos hospitais e da antiga estação ferroviária.
O trabalho cresceu ao longo das décadas. Hoje, a associação atua principalmente com segurança alimentar, assistência social e educação. A entidade também recebeu reconhecimento oficial do município: em 2021, foi declarada de utilidade pública pela Prefeitura de Goiânia. Em 2024, uma lei municipal autorizou a permissão de uso de uma área pública de 1.109,21 metros quadrados para as atividades da associação.
Mas, para Cleobaldo, a dificuldade nunca foi apenas conseguir comida ou recursos. É também convencer parte da sociedade de que ajudar uma pessoa em situação de rua não significa estimular a permanência dela nas ruas.
“Eu faço a comida e distribuo na rua. Não posso dar uma marmita. Eu fico envergonhado de não poder dar”, diz.
A fala resume uma contradição que atravessa o trabalho de quem atua com essa população: enquanto a fome exige uma resposta imediata, a presença das pessoas que recebem alimento muitas vezes é tratada como um problema a ser removido.
O mesmo preconceito aparece nos serviços públicos
A história enfrentada por Cleobaldo encontra paralelo na trajetória recente do Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua, o Centro POP, em Goiânia.

Criado para oferecer atendimento especializado a pessoas que utilizam as ruas como espaço de moradia ou sobrevivência, o serviço oferece alimentação, higiene, lavanderia, guarda de pertences, atendimento psicossocial, documentação e encaminhamentos para outras políticas públicas.
Na prática, porém, a instalação do equipamento em determinados bairros tem provocado resistência de moradores.
Quando o Centro POP funcionava na Alameda Botafogo, no Centro, moradores passaram a reclamar da presença de pessoas em situação de rua nas proximidades e associaram a concentração de usuários do serviço a problemas de segurança, sujeira e consumo de drogas. Em 2025, a Prefeitura decidiu transferir a unidade para o Setor Aeroporto. A mudança também provocou reação de moradores do novo endereço, que temiam que o cenário se repetisse.
Em uma audiência pública realizada em dezembro daquele ano, moradores do Setor Aeroporto manifestaram preocupação com segurança, mobilidade, organização urbana e qualidade de vida. Entre os receios apresentados estava a possibilidade de formação de barracas e aglomerações nas ruas e calçadas próximas ao equipamento.
O movimento mostra uma dificuldade que vai além da localização de um prédio. Existe uma disputa sobre quem pode ocupar determinados espaços da cidade.
De um lado, moradores reivindicam segurança, limpeza e tranquilidade. De outro, pessoas em situação de rua precisam de acesso a serviços públicos justamente nos locais onde estão. E, entre os dois grupos, o poder público precisa encontrar uma maneira de garantir os direitos de ambos sem transformar a presença da população vulnerável em um problema que deve simplesmente ser deslocado para outro bairro.
A própria trajetória do Centro POP mostra como essa equação é difícil. Depois da transferência, o novo espaço passou a receber entre 120 e 140 pessoas por dia e a oferecer cerca de 200 marmitas diariamente, além de café da manhã e atendimentos psicossociais, segundo informações divulgadas pelo Tribunal de Justiça de Goiás em julho de 2026.
Ao mesmo tempo, a unidade foi alvo de questionamentos sobre as condições estruturais. Em abril de 2026, o Tribunal de Contas dos Municípios de Goiás acolheu medida cautelar após representação do Ministério Público de Contas e da Defensoria Pública, que apontaram problemas como falta de estrutura adequada para banho e lavanderia em funcionamento.
O debate, portanto, não é apenas sobre onde colocar o Centro POP. É sobre como a cidade pretende atender uma população que existe, independentemente de onde o serviço esteja instalado.
“São nossos irmãos”
É nesse ponto que o discurso de Cleobaldo ganha força.
Ele não nega que existam problemas. Ao contrário, fala constantemente sobre disciplina, trabalho, informação e responsabilidade. Diz que cobra das pessoas que atende e insiste para que procurem documentos, benefícios, atendimento de saúde e oportunidades de trabalho.
Mas faz uma distinção que considera fundamental: uma pessoa em situação de rua não deixa de ser uma pessoa.
“É nosso irmão. Nós temos que tratar bem os nossos irmãos”, afirma.
Para Cleobaldo, muitos dos que estão nas ruas chegaram até ali depois de histórias marcadas por abandono, desemprego, problemas familiares, falta de documentos, dependência química ou doenças. Ele conta que, desde os anos 1970, acompanha famílias inteiras e viu gerações passarem pela situação de vulnerabilidade.
Segundo ele, muitas das pessoas que conheceu décadas atrás eram trabalhadores que chegaram a Goiás em busca de emprego e enfrentaram dificuldades para conseguir documentos e se estabelecer.

O trabalho também mudou com o tempo. Cleobaldo reconhece que hoje existem instituições públicas que assumiram parte das funções que, no passado, dependiam quase exclusivamente da atuação de pessoas como ele. Cita especialmente a Defensoria Pública e o Ministério Público, que passaram a oferecer orientação e encaminhamento para pessoas que precisam de documentação, benefícios previdenciários e outros direitos.
Para a Defensoria, preconceito ainda é uma barreira
A experiência de Tio Cleobaldo não é isolada. Para a Defensoria Pública, a resistência enfrentada por quem trabalha diretamente com a população em situação de rua faz parte de um problema maior: a chamada aporofobia, termo usado para definir a aversão ou rejeição à pobreza e às pessoas pobres.
Rafael Martins Balduíno, defensor público e segundo subcoordenador do Núcleo de Direitos Humanos, afirma que esse preconceito não está apenas nas relações cotidianas, mas também pode aparecer na forma como as políticas públicas são planejadas e executadas.
“Essa aporofobia é cultural, é estrutural e está instalada também no poder público, de maneira que políticas públicas destinadas a pessoas em situação de pobreza extrema sempre vão encontrar a barreira da priorização, sempre vai ficar em segundo plano”, afirma.
Para ele, um dos principais obstáculos para garantir direitos à população em situação de rua é justamente a falta de recursos e a dificuldade de transformar em realidade aquilo que já está previsto nas normas.
“Um grande problema mesmo que envolve a implementação de direitos a essa população é de alocação de recursos. Sempre falta, sempre há uma dificuldade para que a gente possa fazer a concretização daquilo que a norma já traz como necessário, aquilo que a norma estabelece como direito dessa população.”
Em Goiânia, segundo o defensor, essa dificuldade pode ser percebida em equipamentos considerados fundamentais para a rede de assistência, como as casas de acolhida e o Centro Pop. A avaliação é compartilhada por Felipe Takayassu, também defensor público, que atua temporariamente na substituição de Rafael.
“Nós já temos a base normativa, já temos em nível federal toda a estipulação de quais são os serviços e equipamentos que o município deve fornecer, mas a efetivação desses serviços e equipamentos não encontra guarida na realidade”, afirma Felipe.
Segundo ele, Goiânia enfrenta deficiência de vagas nas casas de acolhida e ainda possui um Centro Pop que não funciona de maneira adequada. A situação, porém, não é exclusiva da capital. Em outros municípios goianos, a Defensoria encontra situações ainda mais graves, com cidades onde sequer existem equipamentos como Centro Pop ou casas de acolhida.
As duas casas de acolhida existentes em Goiânia, de acordo com os defensores, têm capacidade para aproximadamente 50 pessoas cada, mas chegam a receber cerca de 70. A Defensoria também defende há anos a criação de uma terceira unidade, principalmente para atender públicos que enfrentam dificuldades específicas, como mulheres, crianças e pessoas LGBT, especialmente pessoas trans.
A discussão sobre o Centro Pop também exige, segundo Rafael, uma distinção entre o papel de cada equipamento da rede. Pela regulamentação federal, o Centro Pop não tem como função oferecer pernoite. O espaço deve servir como ponto de atendimento, alimentação, higiene, orientação e encaminhamento para outros serviços. A acolhida noturna, por sua vez, é responsabilidade das casas de acolhimento.
Isso não significa, entretanto, que o horário de funcionamento do Centro Pop não possa ser ampliado. Para Rafael, existe espaço para discutir atendimento durante mais períodos do dia, aos fins de semana e feriados. Ele cita como exemplo Belo Horizonte, onde há experiência de funcionamento do serviço de segunda a segunda.
“Eles são tão donos da rua quanto nós”
É na relação entre os equipamentos públicos e a vizinhança que o debate sobre preconceito ganha uma dimensão ainda maior. Em Goiânia, a transferência do Centro Pop foi acompanhada por manifestações e reclamações de moradores que não queriam a presença do serviço próximo às suas casas.
Para Rafael, é preciso separar os problemas urbanos e de segurança do direito de uma pessoa em situação de rua ocupar a cidade.
“O primeiro ponto é recordar que a pessoa em situação de rua não tem menos direitos que outras pessoas. Eles são tão donos da rua quanto nós, quanto quem tem casa, quanto quem mora no bairro”, afirma.
Na avaliação do defensor, cabe principalmente ao poder público enfrentar o preconceito e deixar claro que a população em situação de rua não pode ser tratada como um grupo com menos direitos.
“Nós percebemos uma tendência muito preocupante nos últimos anos, que é de gestões municipais que adotam pautas aporofóbicas.”
Ele cita casos de outros municípios goianos em que houve movimentações para fechar equipamentos destinados à população em situação de rua. Segundo Rafael, em situações como essas, a atuação conjunta da Defensoria Pública, do Ministério Público e do Ministério Público de Contas tem sido necessária para impedir retrocessos.
A saída, segundo ele, não passa apenas pela criação de equipamentos, mas pela inclusão dessa população no planejamento permanente das administrações municipais.
“É necessário que essa pauta esteja dentro dos programas de governo. E que sejam estabelecidos, então, cronogramas e políticas públicas mais efetivas.”
Rafael defende ainda que a área seja tratada com profissionalismo e que pessoas capacitadas sejam responsáveis pela formulação e execução das políticas públicas.

Não basta mudar a pessoa de lugar
Outro problema apontado pelos defensores é a tentativa de resolver a situação de rua simplesmente deslocando as pessoas para outros lugares. A prática ganhou repercussão nacional após reportagem do Fantástico mostrar casos de prefeituras que transportavam pessoas em situação de rua para outros municípios.
Para Felipe, a questão não pode ser tratada com uma solução única. Cada pessoa precisa ser avaliada individualmente pela assistência social, levando em consideração sua história, seus vínculos e seus desejos.
“Cada caso deve ser analisado pela assistência social e elaborado em plano individual”, explica.
Isso significa que programas de retorno voluntário à cidade ou ao Estado de origem podem existir, desde que sejam construídos com a participação da própria pessoa e tenham como objetivo a reconstrução de vínculos e a emancipação.
O que não pode ocorrer, segundo o defensor, é o deslocamento compulsório.
“Ela não pode jamais ter o seu deslocamento forçado para retornar ao seu município de origem, ao seu estado de origem.”
Para Felipe, a diferença está justamente entre oferecer uma possibilidade e impor uma solução.
“O que nunca pode acontecer é o transporte forçado dessa pessoa para outros locais, seja outro bairro, seja outro município, outro estado.”
Prefeitura diz que aposta em moradia e ampliação do acolhimento
Diante das reivindicações apresentadas pela população em situação de rua e dos questionamentos sobre a estrutura da rede de atendimento, a titular da Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres, Assistência Social e Direitos Humanos, Erizania Freitas, afirma que a Prefeitura pretende ampliar as possibilidades de moradia e acolhimento em Goiânia. Entre as medidas citadas estão a reserva de vagas em programas habitacionais, a regulamentação do aluguel social e a criação de novas estruturas de atendimento.
Uma das principais demandas apresentadas pelo movimento é o acesso à moradia. Segundo Erizania, pessoas em situação de rua estão incluídas entre os públicos contemplados pelo programa de apartamentos a custo zero desenvolvido pelo Governo de Goiás em parceria com os municípios.
A secretária afirma que a Prefeitura levou as inscrições para essas moradias para dentro do Centro Pop para facilitar o acesso das pessoas em situação de rua ao programa. “Nós, inclusive, fizemos a inscrição dentro do Centro Pop e destinamos 3%”, explica.
Segundo ela, a intenção é manter essa reserva também em outros programas habitacionais. “E nós vamos continuar, em todos os equipamentos, assegurando esse percentual para as pessoas em situação de rua”, afirma.
Outra possibilidade é o Aluguel Social. Erizania explica que a Prefeitura encaminhou à Câmara Municipal uma lei para regulamentar a concessão de benefícios eventuais em Goiânia. A proposta foi aprovada pelos vereadores na semana anterior à entrevista e, segundo ela, permitirá ao município conceder o benefício.
A expectativa da gestão é utilizar o aluguel social também para pessoas em situação de rua e mulheres vítimas de violência. A secretária, no entanto, ressalta que o benefício não será concedido automaticamente a todas as pessoas que vivem nas ruas. A avaliação deverá considerar a vontade e as condições de cada indivíduo.
“Mas aquelas que já se sentem preparadas e que querem, que manifestam esse desejo, a elas será oportunizada a possibilidade do aluguel social”, afirma.
Para Erizania, a autonomia da pessoa precisa ser considerada. Ela cita como exemplo pessoas idosas que, mesmo diante de situações de vulnerabilidade, recusam o acolhimento oferecido pela rede. “Infelizmente, ele ainda não aceitou, então não posso forçar, embora a gente sofra com a situação dele”, relata.
A Prefeitura também trabalha na criação de um hotel social. De acordo com a secretária, o projeto já foi elaborado e está em tramitação interna, com análise técnica e orçamentária. A proposta é utilizar o equipamento especialmente em períodos de frio intenso e chuvas.
Mais uma casa de acolhida
A falta de vagas nas casas de acolhida é outra demanda apontada pela população em situação de rua e pela Defensoria Pública. Segundo Erizania, existe um projeto para construção de uma terceira unidade em Goiânia, próxima ao local onde deverá funcionar a sede definitiva do Centro Pop.

A Prefeitura também pretende construir uma nova sede para o Centro Pop. A secretária afirma que as duas estruturas estão entre as obras que serão discutidas pela pasta.
A proposta de ampliação da rede ocorre em meio a uma discussão sobre o funcionamento do Centro Pop. A população em situação de rua reivindica que o equipamento funcione 24 horas, mas Erizania afirma que essa não é a finalidade prevista para esse tipo de serviço na política nacional de assistência social.
Segundo ela, o Centro Pop é um equipamento de atendimento diurno, enquanto o acolhimento durante a noite deve ocorrer nas casas de passagem — chamadas de casas de acolhida em Goiânia.
“O Centro Pop foi tipificado para oito horas. O que a gente precisa fazer é ampliar vagas de acolhimento”, afirma.
A secretária reconhece, entretanto, que existe resistência de parte das pessoas em situação de rua em permanecer nas casas de acolhida. Ela relata que, durante um período de temperaturas entre 9°C e 12°C no ano anterior, equipes chegaram a percorrer as ruas oferecendo vagas, mas algumas pessoas preferiram permanecer em um abrigo emergencial, onde poderiam passar apenas a noite.
Para Erizania, a ampliação do acolhimento precisa vir acompanhada da adesão das próprias pessoas atendidas. “Eles precisam, cada vez mais, aceitar estar dentro de um acolhimento para que estejam protegidos de todo tipo de violência, de todo tipo de intempéries”, afirma.

Um novo retrato da população em situação de rua
Outro ponto destacado pela secretária é a tentativa de melhorar o diagnóstico sobre quantas pessoas vivem atualmente nas ruas de Goiânia. Segundo Erizania, a Prefeitura trabalha hoje com aproximadamente 4 mil pessoas identificadas por meio do Sistema Unificado de Proteção Social (SUPS), embora o número varie diariamente em razão da mobilidade dessa população.
Ela explica que o sistema permite cruzar informações dos diferentes equipamentos da rede e identificar pessoas que passam pelo Centro Pop, pelas casas de acolhida ou que são abordadas pelas equipes de educadores sociais.
A secretária ressalta que o número não é fixo porque muitas pessoas chegam à capital em busca de oportunidades e posteriormente deixam Goiânia. Por isso, ela considera importante o levantamento que será realizado pelo IBGE, que poderá oferecer um diagnóstico mais amplo da população em situação de rua.
Segundo Erizania, o mapeamento realizado pela Prefeitura também permite acompanhar individualmente as pessoas, inclusive em relação a benefícios, documentação e atendimento pelos serviços públicos.
Prefeitura contesta dificuldades de acesso à rede
Sobre as reclamações relacionadas ao acesso ao Cras, Erizania afirma que a maior parte das pessoas em situação de rua atendidas pela política municipal tem o Centro Pop como referência e não precisa procurar diretamente os Centros de Referência de Assistência Social.
“90% dos usuários da política para pessoas em situação de rua vão para o Pop, eles não vão para o Cras”, afirma.

Segundo ela, no Centro Pop são realizados encaminhamentos relacionados a benefícios, documentação e outros serviços da rede. Quando há necessidade de atendimento jurídico, a Prefeitura também trabalha em parceria com a Defensoria Pública.
A secretária cita como exemplo o Benefício de Prestação Continuada (BPC), cuja concessão é feita pelo governo federal. Ela reconhece que o processo pode ser demorado e burocrático, mas afirma que a assistência social pode acompanhar os casos e verificar a situação dos pedidos.
Ao longo da entrevista, Erizania também destaca ações de assistência direta realizadas pela Prefeitura, como distribuição de alimentos, kits de higiene, absorventes, agasalhos, cobertores e chinelos, além dos encaminhamentos realizados pela rede.
“Eu gostaria muito que você pautasse a prioridade que a gestão tem dado ao atendimento às pessoas em situação de rua”, afirma.
Para a secretária, a aprovação da lei que regulamenta os benefícios eventuais representa uma possibilidade de ampliar a garantia de direitos. “Eu tenho certeza que com a lei de benefícios que foi agora aprovada na Câmara, a gente ainda vai fazer com que a garantia de direitos seja de fato assegurada a essas pessoas ainda mais.”
As medidas anunciadas pela Prefeitura, porém, convivem com uma realidade que permanece nas ruas: pessoas que ainda não têm onde morar, enfrentam dificuldades para acessar benefícios, recusam ou não conseguem permanecer em acolhimentos e continuam expostas à violência e às condições climáticas.
É nesse espaço entre o que a política pública oferece e aquilo que ainda não consegue alcançar que permanecem histórias como as de Ivonete e Fabiano. Para ela, uma casa é a possibilidade de voltar a cuidar de si. Para ele, uma oportunidade pode significar a chance de ajudar quem ainda está tentando encontrar uma saída.
Enquanto o poder público amplia equipamentos, discute novas formas de acolhimento e busca dimensionar o tamanho da população em situação de rua, a pergunta que atravessa toda a história continua sendo a mesma: como transformar atendimento emergencial em um caminho capaz de tirar essas pessoas definitivamente da rua?
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