Relatos de 23 mulheres expõem esquema de abusos em consultas ginecológicas
24 abril 2026 às 12h25

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A Polícia Civil de Goiás (PCGO) prendeu nesta quinta-feira, 23, o ginecologista Marcelo Arandes, acusado de estupro e abuso sexual contra, pelo menos, 23 mulheres. As investigações, conduzidas pela Delegacia da Mulher (DEAM), apontam que o médico atuava como um “predador em série”, utilizando-se da confiança do jaleco e de exames invasivos para praticar atos libidinosos em clínicas de Goiânia e Senador Canedo. O caso, que ganhou força após uma vítima romper um silêncio de um ano e fazer denúncia à polícia.
Em coletiva de imprensa feita nesta sexta-feira, 24, a delegada titular da DEAM, Ana Elisa Gomes Martins, disse que o médico criava um cenário de vulnerabilidade para as pacientes. O modus operandi incluía toques desnecessários, masturbação durante exames de ultrassom endovaginal e perguntas invasivas sobre a vida sexual e o prazer das vítimas.
“Ele fazia do ambiente clínico um local seguro para a prática criminosa, acreditando que estava acima da justiça por já ter sido investigado anteriormente sem que houvesse punição”, afirmou a delegada. Entre as vítimas, estão uma jovem de 18 anos e uma mulher grávida, que chegou a filmar consultas para se proteger após o primeiro abuso.
Investigado por crimes de estupro e violação sexual, Arandes fazia do consultório particular um ambiente de vulnerabilidade. A investigação aponta que ele não apenas realizava atos libidinosos durante exames invasivos, mas também monitorava as vítimas após as consultas para garantir sua impunidade.
Táticas de Controle e Intimidação
Um dos pontos mais alarmantes revelados pela delegada foi o comportamento do médico após as sessões. O ginecologista tinha o hábito de pegar o celular das pacientes para ele mesmo salvar seu número de contato.
Em um dos casos, após tocar a paciente de forma libidinosa, o médico enviou uma mensagem perguntando se ela estava bem e se “não havia ficado nenhum mal-entendido”. Para a polícia, essa é uma evidência clara de que ele tinha consciência do crime e tentava criar um rastro de justificativa caso fosse denunciado. Ainda de acordo com as investigações, o médico escolhia vítimas que demonstravam maior passividade. Quando uma paciente impunha barreiras ou questionava os movimentos, ele não repetia o abuso com ela nas consultas seguintes, buscando “vítimas novas”.
Próximos Passos
A delegada Ana Elisa ressaltou que muitas mulheres demoram a denunciar por confundirem a natureza invasiva do exame ginecológico com o abuso. “O toque ginecológico não envolve movimentos circulares no clitóris ou comentários pejorativos. Se ficou a dúvida, é porque algo estranho aconteceu”, alertou.
A Polícia Civil agora trabalha com perícia documental. Como esses crimes muitas vezes não deixam vestígios físicos, os relatos das 23 mulheres foram submetidos a peritos oficiais que confrontaram as ações de Arandes com a praxe da ginecologia. O objetivo é transformar os depoimentos em prova técnica irrefutável.
A polícia acredita que existam vítimas anteriores a 2018 e reforça que a denúncia é fundamental, mesmo para casos que possam estar próximos da prescrição, para reforçar o perfil criminoso do autor perante a Justiça.
As mulheres que se identificarem com os relatos podem procurar a DEAM de Goiânia, que mantém atendimento 24 horas, ou a delegacia de Senador Canedo. A denúncia pode ser feita de forma sigilosa.
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