Woody Allen e a ironia histórica

Roberta Ribeiro lança o livro “Woody Allen e a História”, pela Editora Caminhos. Pesquisadora precisou mergulhar na filmografia do cineasta para compreender sua forma peculiar de tratar os temas que envolvem a psicanálise e as demandas que envolvem história e cinema

Woody Allen, Owen Wilson e Marion Cotillard durante as gravações de Meia-Noite em Paris: perspectiva escapista no qual o passado é refúgio. Foto: Divulgação/woodyallen.com

Heloisa Selma Fernandes Capel
Especial para o Jornal Opção

Como acessar questões historiográficas por meio do cinema de Woody Allen? Sob essa indagação, como tratar as demandas que envolvem história e cinema? Paul Ricoeur discute o entrecruzamento entre história e ficção e argumenta que a verdadeira mimese da ação deve ser procurada nas obras de arte menos preocupadas em refletir sua época. Para o autor, é especialmente quando uma obra de arte rompe com a imitação (no sentido vulgar do termo) com um tipo direto de verossimilhança, é que ela desenvolve sua função mimética. O “quase-passado” da narrativa, elemento persuasivo, deve ter uma relação com a verossimilhança, mas essa relação não é direta, o verossímil é o que poderia ter sido que se encontra com o provável, “com os possíveis ocultos de um passado efetivo”. Como defende: “o que teria podido acontecer, o verossímil segundo Aristóteles, recobre ao mesmo tempo, as potencialidades do passado real e os possíveis “irreais” da pura ficção”.

A afinidade entre o verossímil da pura ficção e as potencialidades da história, talvez expliquem, completa o autor, por qual motivo a libertação da ficção das coerções da história (que se efetivam na prova documental), não se constitui na última palavra acerca da liberdade da ficção, pois se externamente a ficção está livre da prova documentária, internamente ela se encontra atada ao serviço do quase-passado que é um outro nome para identificar a “coerção do verossímil”. Nesse sentido, não se trata neste livro, de buscar a correlação direta entre os filmes de Woody Allen e as questões contemporâneas que se colocam no período entreguerras. Todavia, como um modo especial de saber, a coerção do verossímil em obras do cineasta nos permite indagar sobre a identidade judaica no período e por um modo irônico, nos informa sobre o potencial de cineasta-historiador que a produção evoca.

Não foi uma tarefa fácil a realizada por Roberta Ribeiro na produção do livro “Woody Allen e a História”, lançado pela Editora Caminhos, com fomento do Fundo de Cultura do Governo do Estado de Goiás. Roberta Ribeiro precisou mergulhar na filmografia de Woody Allen para compreender sua forma peculiar de tratar os temas que envolvem a psicanálise, a (auto) ironia ou mesmo as opções estético-formais para interpretar sua produção à luz das discussões teóricas sobre cinema e seus traços inequívocos de historicidade. Robert Rosenstone a informou sobre a ousadia dos cineastas que, de maneira voluntária ou não, realizaram verdadeiros discursos sobre a história escrita com o objetivo de contestá-la ou revisá-la. Para o autor, o cinema contém um mundo histórico potencial muito mais complexo que o texto escrito, pois ao envolver imagem, som e linguagem, configura o meio visual que possibilita dar um salto na consciência de como pensamos o passado.Ao partir das reflexões sobre cinema e história e cinema como ficção Roberta Ribeiro concluiu que os filmes tratados em sua pesquisa não apenas nos falam sobre o passado neles encenados, mas sobre as sociedades em que foram produzidos. Como afirma: “Quando Woody Allen usa o período entreguerras como objeto de exposição fílmica, está fazendo, a um só tempo, autobiografia, crítica social e sátira histórica” (p.59).

Crédito: Reprodução/Caminhos

Para realizar seus objetivos, a autora inicia o livro com uma discussão instigante sobre sua biografia. Suas opções de contar a vida do cineasta, entretanto, oscilam em meio ao debate entre sua imagem pública e traços autobiográficos evidenciados em suas obras. Nesse esforço, é possível destacar o papel do intelectual judeu e as intrincadas tramas nas quais constrói e desconstrói sua persona. Com tal opção, identifica elementos da construção biográfica em A Era do Rádio, filme de 1987 e, nesse ato já anuncia que sua análise se fará de maneira não convencional, buscando a coerência da ação fílmica, mesmo quando a produção cinematográfica é convocada para funcionar como imagem-espelho.

Esboçando a caricatura de um si-mesmo que é ao mesmo tempo ficcional, as escolhas iniciais para apresentar o cineasta abrem o caminho para que a autora se aventure à saga de lançar luz sobre o filme Zelig (1983) e discutir, ao mesmo tempo, as questões que envolvem a história e a assimilação cultural na obra do artista. Suas indagações colocam em primeiro plano as perguntas sobre a identidade judaica em que Woody Allen se encaixa de maneira ímpar, muito mais afinado com uma concepção de origem, do que atrelado às práticas religiosas e culturais de uma identidade substancial. Com uma opção quase metalinguística, o cineasta discute a questão em Zelig. Ao lado dessa polêmica, o material ainda serviu à discussão sobre o gênero documentário, no qual a autora identificou elementos que a permitiram repensar o status de verdade no cinema e suas estratégias performáticas.

Dialogando com a bibliografia teórica que envolve os estudos de cinema e, ao mesmo tempo com os estudos culturais, Roberta Ribeiro nos faz pensar sobre os agenciamentos culturais que associam a obra do cineasta e suas vinculações de nascimento. Agenciamentos em estado intervalar como colocados nas provocações teóricas de Homi Bhabha. Ao analisar conteúdo e forma nos filmes de Woody Allen, a autora pensou a linguagem fílmica como algo além da concepção externalista da sociologia da imagem ou mesmo de uma história social da imagem, nem mesmo concebeu tratá-la como objeto independente em um formalismo insensível às influências que compõem sua materialidade, mas a considerou, ontologicamente, como um fenômeno em que a forma é indissociável de suas imbricações culturais.  A forma foi aqui tratada como um objeto fenomenológico, impossível de ser lido sem a consciência dos seus ocultamentos, daquilo que expressa no âmbito do invisível, mas que a materialidade configura, congrega, expõe e comunica em diálogo.

A fenomenologia coloca em pauta algumas perguntas importantes ao historiador da cultura que lida com as linguagens, já que questiona o que as aparências desvelam e, ao mesmo tempo, pergunta se é possível uma correspondência entre o que conhecemos e os outros conhecem. Ao perguntar, pode-se firmar interesse no modo como o conhecimento do mundo se dá. Este desvelamento do processo de construção da materialidade representativa parece-nos fundamental aos estudos culturais em seus embates com as linguagens imagéticas. Daí decorre a afinidade de tais estudos com as concepções que tratam de relações dialogais. A linguagem fílmica como narrativa de uma ideia promove uma rede de diálogos: entre o artista e seu tempo, entre o artista e sua obra, entre a obra e o leitor, entre as diversas obras de um mesmo tempo ou de tempos diversos.

Por ser um artista judeu-americano, em certa medida híbrido, Woody Allen apresenta em sua obra características de uma identidade intervalar que se manifesta de maneira performática, com a visualidade dinâmica que a autora percebe e enfatiza. Segundo Homi Bhabha, as diferenças latentes ou expressas pela diferença nos encontros culturais, colocam em questão identidades que se tocam contingencialmente, expondo a fragilidade de uma definição absoluta, mas em entreato contingencial. Esse portal abre as possibilidades da performance visual de Woody Allen que a autora do livro evidencia em Leonard Zelig para ler e discutir questões identitárias nas imagens em movimento.

Mas, afinal, em que se configura sua performance visual? A autora explica: Leonard Zelig é tratado como um camaleão humano. Uma figura que muda psicológica e fisicamente de acordo com a situação. Seu objetivo é ser aceito (p.66). Zelig é alguém que na tentativa de encontrar sua identidade em um mundo hostil, carrega o fardo de imitar aqueles que estejam em sua companhia, ele não quer se destacar, mas se misturar para encontrar proteção e pertencimento. Na dança entre a intenção documental e a ficção que admite e realiza, Zelig é uma obra que dialoga com o tema da identidade judaica em Woody Allen.

Ao optar pelas chaves interpretativas fornecidas pelas lentes teóricas dos estudos culturais, Roberta Ribeiro se envolverá, ainda, em uma desafiadora empreitada: a de discutir o papel da ironia como linguagem essencial utilizada pelo cineasta. É sob essa ideia que analisa as obras A Rosa Púrpura do Cairo (1985) e Meia-Noite em Paris (2011) e lança a premissa: a junção do humor judaico e a teoria da narrativa histórica são imprescindíveis para se discutir a produção fílmica de Woody Allen. Na articulação entre texto e imagem, a autora vai explorar os topos narrativos dos filmes de Allen e encontrar em Hayden White os fundamentos da urdidura das narrativas articuladas que possuem a ironia como forma de expressão.

Não há como não discutir, a partir dessa opção, as modalidades do humor considerado como judaico e suas tentativas de valorizar o espírito de contestação da lógica filosófica convencional e as próprias verdades pré-concebidas no humor talmúdico. É um humor que não se estrutura como uma crítica revolucionária, mas não se furta de fustigar a sociedade contemporânea em opções muitas vezes ambíguas e melancólicas ou mesmo filosóficas e indutoras de um posicionamento reflexivo. O humor autodepreciativo e (auto) reflexivo é algo que a autora encontra na obra de Woody Allen. Dentre as diversas características que identifica, coloca em relevo a figura do desastrado, o filho da mãe judaica super protetora que Woody Allen explora em diversos filmes como Desconstruindo Harry (1997), Anne Hall (1977) e Hannah e suas Irmãs (1986).

Articulada como crítica, a ironia é associada à distorção da linguagem em ato de figuração verbal, ação considerada por Hayden White como relacionada à ascensão do pensamento em que o nível de autoconsciência torna possível uma conceptualização do mundo e seus processos de autocrítica. Forma que se revela em Woody Allen quando ficciona, tendo como pano de fundo o período entreguerras, segundo a autora. É o que ocorre em A Rosa Púrpura do Cairo (1985), filme em que a protagonista se refugia na tela do cinema para se proteger da dura realidade ambientada durante o período da Grande Depressão Americana. No filme, tudo parece falso, exagerado e clichê, os cenários são fora de moda, extravagantes e muitos atores lembram imitadores de astros da época. As referências à Nova Iorque são irônicas e o filme está marcado pelo riso trágico e melancólico em que o mundo real é vencedor, mas há sempre a imaginação como marca de resistência às frustrações mundanas.

É a mesma perspectiva escapista encontrada em Meia-Noite em Paris, filme de 2011, no qual o passado é o mundo do refúgio, da Idade de Ouro perdida que se quer viver de maneira saudosista e marcada pela ironia. A década de 20 e os personagens históricos desse enredo compõem um filme que se traduz como ícone do exílio idílico em termos culturais. Em relação à sociedade americana há o contraponto e o descompasso entre o desenvolvimento industrial e a cultura baseada na ideia do entretenimento com finalidades econômicas. Paris, ao contrário, será o local de fertilidade e inspiração e a ironia na interpretação da autora se dará entre o passado parisiense e o presente americano da narrativa. No esforço em analisar os filmes, a autora ainda nos brinda com diversos fotogramas a partir dos quais estabelece o diálogo com as ideias teóricas e testa suas hipóteses a respeito da obra do cineasta. Aqui, ficam marcadas as discussões empreendidas a partir de sua formação em intepretação e discussão de imagens realizadas por sua intensa participação nos debates promovidos pelo GEHIM – Grupo de Estudos de História e Imagem, nos quais Roberta Ribeiro foi sedimentando sua compreensão da obra fílmica.

O entrelaçamento entre as imagens que elege para análise, as teorias que nos ajudam a pensá-las, bem como a articulação com a abertura dos pontos de vista que nos apresentam as questões histórico-culturais avaliadas na pesquisa fazem do texto da autora um convite a pensar com a imagem. Temas relacionados à identidade e o humor judaicos, a ironia como forma de expressão artística, se colocam como chaves na tentativa de refletir sobre o cinema de Woody Allen. Que além de instruir, o texto possa inspirar o aprofundamento das questões que reconhecem o cinema e as linguagens artísticas como elementos privilegiados de saber, meios especiais que lidam com um tipo de verdade e coerência no entrecruzamento entre a história e a ficção.

Serviço:

Livro: Woody Allen e a História

Autora: Roberta Ribeiro

Editora: Caminhos

**Heloisa Selma Fernandes Capel é doutora em História, professora da Universidade Federal de Goiás. Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em História/UFG. GEHIM – Grupo de Estudos de História e Imagem CNPq/UFG

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