Vozes femininas — Marietta Telles Machado: tecedora de mundos
15 agosto 2026 às 21h00

COMPARTILHAR
Elizabeth Abreu Caldeira
Marietta Telles Machado é filha de Olavo Telles e Auristella Machado Telles. Nasceu em Hidrolândia (GO), em 25 de setembro de 1934. Faleceu na Fazenda Barreirão, propriedade de sua família, em 28 de fevereiro de 1987.
A escritora formou-se em Direito e Letras pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Realizou cursos de especialização e pós-graduação em instituições da América Latina e da Europa: Medellín, Madri, Paris e Rio de Janeiro.

Essa travessia formativa permitiu-lhe unir o erudito e o popular, o universal e o regional, configurando uma escrita que, como observou Oswaldino Marques, representou “uma perda irreparável para a literatura goiana” após sua morte precoce.
Marietta Telles integrou, nos anos 1960, o Grupo dos Escritores Novos (Gen). Trata-se de um movimento que buscou renovar a literatura brasileira produzida em Goiás. Desafiou a retórica regionalista e aproximou a escrita das inquietações contemporâneas
Sua obra antecipa discussões contemporâneas sobre a literatura como formação sensível na busca do conhecimento.
Como bibliotecária, Marietta, mais que organizar livros, organizou mundos. Foi fundadora e colaboradora em diversas bibliotecas de Goiás, entre elas a Biblioteca Central da UFG, e lutou pela criação do curso de Biblioteconomia e de associações de classe no Estado.

Secretária Municipal de Cultura de Goiânia, onde transformou a gestão pública em extensão de sua sensibilidade literária. Promoveu o incentivo à leitura, à cultura popular e à literatura infantojuvenil.
Marietta Telles integrou, nos anos 1960, o Grupo dos Escritores Novos (Gen). Um movimento que buscou renovar a literatura brasileira produzida em Goiás. Desafiou a retórica regionalista e aproximou a escrita das inquietações contemporâneas.
Sua estreia literária deu-se com “Girassóis em Transe” (1968). Em sua narrativa, o cotidiano é transfigurado em experiência poética. A escritora dá voz aos pequenos dramas e alegrias das gentes do interior.
A literatura de Marietta Telles revela o diálogo entre mito e modernidade. Em “Os Frutos Dourados do Pequizeiro”, revisita lendas indígenas e histórias da mineração, transformando-as em alegorias do pertencimento regional. A natureza torna-se metáfora da identidade
Marietta Telles constrói narrativas de feição realista, porém, permeadas de lirismo e fina ironia.
O livro de contos “Narrativas do Quotidiano” (1978) sagrou-se vencedor do concurso Hugo de Carvalho Ramos, em 1977. Nesse mesmo ano, recebeu o troféu Tiokô, como destaque na Literatura.

Sua literatura, profundamente enraizada no solo goiano, revela o diálogo entre mito e modernidade.
Em “Os Frutos Dourados do Pequizeiro”, por exemplo, a autora revisita lendas indígenas e histórias da mineração, transformando-as em alegorias do pertencimento regional. A natureza torna-se metáfora da identidade, e o pequizeiro, árvore símbolo de Goiás, uma forma de integração entre homem e paisagem na cultura brasileira.
Marietta Telles foi, também, reconhecida como conferencista e intelectual engajada. Sua escrita transita entre o humor, a crítica social e o lirismo da infância.
Nars Fayad Chaul, em homenagem póstuma, afirmou: “Seu sorriso fácil e seu rosto em forma de lua cheia continuam revelando para nós o diálogo entre a pureza da criança e a difícil tarefa de atingir os jovens”.

Essa imagem sintetiza a essência de sua obra: uma literatura que busca a “visibilidade do invisível”, ou seja, a revelação da ternura e da crítica, no mesmo gesto estético.
Uma pedagogia da imaginação
Em seus textos infantis, a imaginação cumpre função ética e pedagógica: ensinar a ver o mundo com delicadeza, mas também com discernimento. Assim, sua obra antecipa discussões contemporâneas sobre a literatura como formação sensível na busca do conhecimento.
Ao falecer, aos 54 anos, Marietta deixou um legado de profissionalismo, ternura e invenção.
Sua obra reúne um conjunto expressivo de títulos: de “Girassóis em Transe” a “Teatro para Crianças” (1992, póstumo), que demonstram amplitude temática e compromisso com o diálogo entre tradição e renovação.

A publicação “Seleta” (2001) e outras antologias póstumas reafirmam a vitalidade de sua escrita, ainda hoje referência para estudos da literatura brasileira produzida em Goiás e da formação da leitura infantil no Centro-Oeste.
Marietta Telles Machado ocupa lugar de destaque entre os escritores que deram forma à modernidade literária de Goiás, abriu caminhos para que vozes femininas, populares e juvenis encontrassem legitimidade na cena literária. Sua escrita é uma pedagogia da imaginação. Um lugar onde o real se transforma em encantamento, e o livro se converte em lugar de memória.

Publicações de Marietta Telles
1
“Girassóis em Transe” (crônicas e minicontos. Goiânia, Editora UFG, 1968).
2
“As doze voltas da noite” (contos. Goiânia: Editora Oriente, 1971);
3
“Encontro com Romãozinho” (contos infantis, Goiânia: Oriente. 1976);
4
“Narrativas do Quotidiano” (contos, Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos. Goiânia: Oriente, 1978);
5
“O congresso das Bruxas” (contos infantis, Goiânia: CEC/Líder, 1978), dentre outros. Participou, ainda, de várias antologias de prosa e poemas.
Elizabeth Abreu Caldeira Brito, psicóloga e escritora, é mestra em Letras e Críticas Literárias. Vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) e ex-presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag). É colaboradora do Jornal Opção.


