Saiba o que o livro Odisseia de Homero tem a ver com o filme Odisseia de Christopher Nolan
08 agosto 2026 às 21h00

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Marina Teixeira da Silva Canedo
Especial para o Jornal Opção
Nesse turbilhão analítico a respeito da Odisseia de Homero, ocasionado pelo recente filme, tudo já foi dito e discutido até às últimas consequências, e nada do que for dito por mim será novidade. Fugir do senso comum torna-se quase impossível.
Sigo então, na poeira dos ossos, em um breve cotejamento entre o que Homero disse e Nolan não disse, e vice-versa.
Quem leu com atenção a obra de Homero, ou no original grego ou em uma de suas traduções (no meu caso, a de Frederico Lourenço, publicada em Portugal), verá que o roteiro do filme foge, em muitas partes, à sequência do livro. Perceberá, também, novas interpretações à história.

Mas literatura e cinema são duas formas de arte que lidam com matérias diferentes, como a palavra e a imagem, e, portanto, devem ter tratamentos distintos. Cada uma delas deve priorizar o que melhor lhes favoreça e ao leitor/espectador.
O filme perde a fidelidade ao poema ao conferir a Calypso o fato de dar de comer a Odisseu a flor de lótus para aliviá-lo da saudade dos seus. Esse fato aconteceu entre os Lotófagos, que dão a comer aos marinheiros o fruto de lótus, e não a flor
Em sua volta à Ítaca, que durou dez anos, Odisseu (Ulisses) se deterá em várias estações ou etapas, ao longo do tempo, e a primeira delas será na terra dos Cícones, que o filme retrata com exatidão: a destruição da cidade e a matança de seus habitantes.
A próxima etapa, que é a terra dos Lotófagos, comedores do fruto do lótus, é omitida no filme.
Saindo de lá, chegam à terra dos Ciclopes, e o roteiro corresponde, basicamente, à história, com algumas omissões.

A seguir, chegam à ilha de Eólia, também omitida, e depois à terra dos Lestrígones gigantes, comedores de gente, que obteve espaço na trilha, com muito impacto visual, e de onde só saíram vivos os marinheiros do barco de Odisseu (eram doze, ao todo).
Circe vira outra personagem no filme
Daí, passaram à ilha de Eeia, onde vivia a feiticeira Circe, e onde permaneceram por um ano.
Circe, no poema, descrita como uma belíssima mulher, vestida com finas vestes, e sendo uma feiticeira que vivia em um castelo, no filme é uma bruxa que vivia em uma tapera, em meio aos homens que lhe caíam nas mãos, transformados em animais.
A versão cinematográfica corresponde mais à ideia que temos de feiticeira dos contos de fadas e não a do poema.
De lá a jangada de Odisseu é levada pelas ondas até a terra dos Feaces, os quais providenciam sua volta à Ítaca, fato esse importante, mas não mencionado no filme com Matt Damon. Mais uma vez, Nolan não é fiel à história de Homero
Circe sugere a Odisseu pedir orientação ao adivinho Tirésias, no Hades, sobre como chegar à Ítaca. Odisseu parte com seus homens e conversa, além de Tirésias, com as almas de sua mãe, que ele não sabia ter morrido, e de seus amigos, incluindo Agamenon e Aquiles. Não há a perseguição a eles dos espíritos dos mortos, como mostra o filme.

Na sequência da viagem, passam pela ilha das sereias, por Cila e Caribdes e pela ilha do Sol, onde não poderiam matar os bois do deus Hélio, sob pena de morrerem. O filme mostra-se fiel à narrativa.
Instruído por Tirésias a tampar os ouvidos com cera para não ouvirem o canto das sereias, o que os levaria à morte, Odisseu pede que o amarrem ao mastro da embarcação, pois uma curiosidade intensa o fazia querer ouvir o canto, e passam então pelo perigo.
Após a morte de todos os seus companheiros no mar, como vingança de Posseidon por terem matado e comido bois da ilha do Sol, Odisseu aporta à terra da ninfa Calypso, agarrado ao mastro do barco, que foi destruído pela tempestade causada por Posseidon.
Nesta parte o filme perde a fidelidade ao poema ao conferir a Calypso o fato de dar de comer a Odisseu a flor de lótus para aliviá-lo da saudade dos seus. Esse fato aconteceu entre os Lotófagos, que dão a comer aos marinheiros o fruto de lótus, e não a flor.

Após sete anos, constatando a grande tristeza de Odisseu, Calypso consente, orientada que foi pelo deus Hermes, que ele parta em uma jangada.
O filme apenas sugere a infelicidade de Odisseu por não poder sair de lá, o que, no poema homérico, é dito como grande sofrimento e choro do herói.
De lá sua jangada é levada pelas ondas até a terra dos Feaces, os quais providenciam generosamente sua volta à Ítaca, fato esse importante, mas não mencionado no filme.
A chegada de Odisseu à Itaca
A vingança de Odisseu ao chegar à Ítaca é tratada de maneira parecida ao poema, porém com algumas variações que não constam da narrativa homérica e exclusão de fatos, como a afirmação de Odisseu sobre como a cama do casal foi feita, o que prova a Penélope que ele é mesmo seu marido.
O ambiente do palácio, invadido pelos pretendentes, sempre se banqueteando, captura o clima pretendido por Homero e imaginado pelos leitores, de forma perfeita.

Apesar de o filme de Nolan ter suas próprias características, não sendo uma cópia fiel do livro, ele o é ao descrever o sentido maior e o espírito dessa epopeia: a história de um guerreiro obstinado que tenta, de todas as maneiras, voltar para casa; que ama sua mulher Penélope, seu filho Telêmaco e sua terra, Ítaca.
O mar ocupa lugar importante e é o elemento aglutinador e o fio condutor das alegrias e infelicidades de Odisseu. É nele que reside a esperança da volta e é nele que ela se encerra para os companheiros de Odisseu.
As imagens cinematográficas dão a dimensão da grandeza do oceano e da insignificância do homem.
Não importa a cor da pele de Helena. O grande trunfo do filme tem sido despertar o interesse pela cultura clássica antiga, o que não é um anacronismo, mas uma afirmação da importância de um dos maiores pilares da civilização
Na leitura que se faz da Odisseia fica bem evidente o poder dos deuses e sua ajuda ou atrapalho. O ódio de Posseidon e a proteção de Palas Athena são duas forças opostas que interferiram no sucesso e insucesso de Odisseu. Este só consegue seus objetivos graças à interferência e ajuda de Athena.

A imponência da maior das deusas do Olimpo, “a de olhos garços”, é substituída, no filme, pela singeleza e simplicidade de uma figura inexpressiva que a representa, sem qualquer característica engrandecedora. Sua ação, na película, não adquire a importância que Homero lhe confere e que a mitologia confirma.
Helena negra e a licença poética
Outro pomo de discórdia entre espectadores e leitores é a Helena negra que o filme apresenta, cuja cor nunca foi mencionada na mitologia, apenas sua grande beleza e origem divina, pois era filha de Zeus.
Ao que tudo indica, não havia deuses negros no Olimpo, é o que a mitologia e as representações artísticas mostram. Há três mil anos os contatos entre os povos da Europa e da África central teriam sido muito difíceis.

A cultura queer, de fortalecimento das minorias, que incluem também as questões étnicas tão em evidência em nosso tempo, talvez seja o motivo dessa interferência ou preferência temática no filme.
Um dos desejos do dr. Fausto, de Goethe, era possuir Helena de Troia, e a ele foi concedido esse desejo. Sendo “Fausto” um dos maiores testemunhos do espírito burguês progressista, seria impossível, naquele contexto da Idade Moderna, que Helena, ressuscitada por Mefistófeles, não fosse branca.
Teorias à parte, e que se referem a construções literárias e ao contexto geopolítico, a Helena do filme de Nolan pode ser negra, sim. Para isso existe a liberdade criativa. De qualquer forma, existe também a licença poética.

O filme é produto da fusão bem feita entre a palavra de Homero e a imagem do cineasta. Não importa a cor da pele de Helena nem se o Cavalo de Troia entrou na cidade deitado e não em pé. Seu grande trunfo tem sido despertar o interesse pela cultura clássica antiga, o que não é um anacronismo, mas uma afirmação da importância de um dos maiores pilares da civilização, e estabelecer esse instigante debate entre os leitores/espectadores.
Marina Teixeira da Silva Canedo, poeta e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.


