No artigo anterior desta série, perguntei o que acontece a um cosmopolita quando o mundo em que o cosmopolitismo fazia sentido deixa de existir. Para Stefan Zweig, a resposta foi o desespero, a nostalgia sem saída, o suicídio em Petrópolis, em 1942, aos 60 anos. Os imigrantes o sentem: viver sem raiz é a condição comum a todos que atravessam esse tipo de fronteira.

Paulo Rónai e Aurélio Buarque de Holanda: companheiros de tradução | Foto: Reprodução

Paulo Rónai (1907-1992) enfrentou a mesma pergunta, imposta pela mesma catástrofe histórica, e respondeu de um jeito radicalmente diferente: não apagou o passado húngaro, como fez Otto Maria Carpeaux (em relação à Áustria), nem foi engolido por ele, como Zweig. Apegou-se ao trabalho “como um narcótico” contra o desenraizamento, transformando-o em matéria de uma vida inteira de escrita. Para Rónai, o trabalho, esse abençoado narcótico, foi o que o impediu de chegar ao desvario, apesar das depressões que um exilado sofre.

Paulo Rónai enfrentou o mesmo desenraizamento, imposto pela mesma catástrofe histórica (o nazismo), e respondeu de um jeito radicalmente diferente: não apagou o passado húngaro, como fez Otto Maria Carpeaux em relação ao seu passado, nem foi engolido por ele, como Stefan Zweig

Os imigrantes o sentem: viver sem raiz é a condição comum a todos que atravessam esse tipo de fronteira. Paulo Rónai enfrentou o mesmo desenraizamento, imposto pela mesma catástrofe histórica, e respondeu de um jeito radicalmente diferente: não apagou o passado húngaro, como fez Carpeaux em relação ao seu passado, nem foi engolido por ele, como Zweig.

Clássicos gregos, recitados de cor

Fui atrás de respostas sobre o Rónai, Pál primevo em Budapeste. Levava comigo o excelente livro de Ana Cecília Impellizieri  (“O Homem Que Aprendeu o Brasil — A Vida de Paulo Rónai”), ao qual me apeguei durante todo o percurso e a cada página me apaixonava mais andar em busca dos rastros do húngaro brasileiro presente em minha juventude de estudante de francês na Aliança Francesa, primeiro em Porto Alegre, depois em Goiânia.

No endereço de infância de Rónai, Rua da Constituição, 12, quarta escadaria, primeiro andar, apartamento 10, não encontrei placa, nem memória visível. Em seu lugar, hoje funciona um jardim de infância. A cidade parecia ter apagado exatamente aquilo que os livros preservam.

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Biografia extraordinária de Paulo Rónai | Foto: Jornal Opção

O crítico Wilson Martins registra no jornal “O Estado de S. Paulo”, no qual teve Rónai como colega de publicação durante muitos anos: “Eu, de minha parte, se me fosse dado escolher um compatriota, teria escolhido o sr. Paulo Rónai”. Eis-me diante de dois ilustres compatriotas.

Portanto, se Budapeste não guardou seu nome registrado em mármore ou bronze, o mundo guardou suas páginas. E foi atrás delas, entre uma biografia, algumas teses de mestrado, e-mails de uma pesquisadora húngaro-brasileira e o testemunho de quem o conheceu, que encontrei a cena que, uma vez conhecida, não sai mais da cabeça.

Um apartamento no Rio de Janeiro, décadas do século passado. Uma criança chora no berço, madrugada adentro, e o pai, encarregado de acalmá-la enquanto a mãe descansa, não recorre a cantiga de ninar nenhuma. Recorre ao que tem mais à mão, porque o traz gravado na memória desde os bancos do ginásio, do outro lado do oceano: os clássicos gregos, recitados de cor, na língua original. E funciona. A filha, que não entende uma sílaba do que ouve, mas esquece o choro, é hipnotizada não pelo sentido, mas pelo ritmo, pela cadência antiga que embala como apenas um verso bem cadenciado sabe embalar.

Paulo Rónai não é um mero tradutor

Balzac capa de A Comédia Humana volume 1 500

E se você já ouviu falar de Paulo Rónai, provavelmente foi como “o tradutor húngaro que verteu Balzac para o português”. A descrição é tecnicamente correta e, no entanto, profundamente injusta. Injusta, primeiro, porque reduz a um único autor uma vida de leitura que começou muito antes, ainda nos bancos daquele ginásio distante, entre versos gregos decorados de cor. Injusta, também, porque a própria tarefa com Balzac nunca foi solitária: apesar do profundo conhecimento sobre o autor, como demonstra “Balzac e A Comédia Humana”, livro que publica em 1947, reunindo artigos escritos sobre o romancista francês.

A resposta da intelectual húngara Zsuzsanna Spiry (escapou da ditadura de seu país), direta e certeira veio por e-mail: “É um grande desserviço à obra desse literato chamá-lo apenas de tradutor (…) Um mero tradutor não seria capaz de criar a obra literária que ele criou”

No entanto, a tradução da “Comédia Humana” foi compartilhada com grandes nomes das letras brasileiras, e coube a Rónai, na função de organizador, dar unidade às mais de dez mil e seiscentas páginas da obra, redigindo a introdução geral e uma introdução para cada um dos 89 romances e contos que a compõem, ao longo dos dezessete volumes publicados pela Editora do Globo.

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Zsuzsanna Spiry: estudiosa de literatura e tradutora | Foto: Facebook

Foi pensando no grande tradutor, a quem o Brasil até hoje presta devidas homenagens, que escrevi à professora Zsuzsanna Spiry, pesquisadora húngaro-brasileira que dedicou sua dissertação de mestrado, “Paulo Rónai — Um Brasileiro Made in Hungary” (https://tinyurl.com/26rc53w4), a mapear em mais de 200 páginas a obra de Rónai. A pergunta que lhe fiz era simples, quase ingênua: por que insistimos em chamá-lo apenas de tradutor?

A resposta de Zsuzsanna Spiry, direta e certeira veio por e-mail: “É um grande desserviço à obra desse literato chamá-lo apenas de tradutor (…) Um mero tradutor não seria capaz de criar a obra literária que ele criou”.

Esta opinião não é gratuita. A professora tem números para sustentar a afirmação: mais de 600 artigos de crítica literária publicados ao longo da vida, nos principais jornais do país — um volume de trabalho que nenhum “mero tradutor” teria fôlego, nem motivo, para produzir.

Paulo Rónai capa de a tradução vivida 500

Pensando no literato em que se tornou, me vem à mente o início da formação de Rónai na Hungria. Ele estudou latim em seis aulas semanais durante oito anos, e confessa em “A Tradução Vivida” ter primeiro se assustado com a gramática latina, para, depois, superando essa ojeriza inicial, comum à maioria dos colegas de ginásio, encontrar “o deslumbramento com Virgilio no dia em que logrei escandir sozinho um hexâmetro. Comecei a encontrar prazer quase sensual naqueles versos que, aparentemente iguais, na verdade eram de extrema variedade musical; decorava-os, saboreava-os, recitava-os para mim mesmo. Transplantar poesia latina era, aliás, costume de longa tradição no país” [Hungria].

1ª tradução de um poema do português

Embora diga que o tradutor é “um modesto intermediário de mensagens alheias”, Rónai se especializou nessa arte e a expandiu para outra: a arte de comparatista, fundamentada numa formação e conhecimento profundo da arte poética.

A formação é decisiva e de alto nível, se comparada à do nosso país, para onde emigrou em 1941.

O método comparatista em ação, palavra por palavra: pegar o que parece mais hiperlocal e intraduzível: o dialeto do sertão mineiro, quase uma língua própria dentro do português, mostrando as pontes que ligam aquilo a questões universais da literatura mundial”

Conhecer todos os meandros da arte poética, porém, não garante uma carreira a Rónai no campo da poesia, mas o conhecimento o transforma em tradutor e crítico gabaritado. A sua bibliografia deixa esse fato evidente, pois a evolução que ocorre no transcurso de sua carreira é a primeira coisa que salta aos olhos. Suas primeiras publicações, aos 19 anos, são de traduções de poesias, de clássicos como Horácio, Catulo e outros, para o húngaro. Aos poucos, além do latim, outras línguas entram na lista, como o italiano, e em 1931 aparece a sua primeira versão de poesia do húngaro para o francês. Em 1937, já se tem tradução de poemas a partir de várias outras línguas: espanhol, grego, e em fevereiro de 1938, a primeira tradução de um poema do português, que, a partir daí começaria a ser frequente.

Paulo Rónai: o intelectual húngaro que descobriu o e se descobriu no Brasil | Foto: Reprodução

Qual é o significado desse percurso? A resposta, em parte, está contida na entrevista de István Mészáros citada anteriormente pela pesquisadora, quando ele menciona que os grandes poetas nacionais são também os “mais profundos e abrangentes pensadores” que não somente produzem poesia ou incendiam paixões com suas reflexões teóricas, mas tomam para si a nobre tarefa de traduzir a literatura universal, e consideram esse ato um serviço à nação, porque assim a disponibilizam para a população húngara que de outra forma se veria presa no isolacionismo da língua pátria, e também porque consideram o ato tradutório como prática literária. O próprio Rónai, em seus ensaios, explica esse efeito colateral indireto que o exercício da tradução proporciona. “Levei muitos anos para perceber as complicações de seu mecanismo. À medida que aprendia outras línguas é que me espantava com a minha.”

Ato tradutório como prática literária

Mészáros, vale notar, fala aqui não como teórico do capital, mas como húngaro criado em Budapeste; e é essa mesma diferença de status entre a tradução no Brasil e na Hungria que a própria professora Zsuzsanna me explicou por e-mail, ao tratar o ato tradutório como prática literária, e não como isolamento na língua pátria.

O termo citado pela pesquisadora para o ofício de Rónai é “comparatista”, que capta algo que nem “tradutor” nem “crítico” sozinhos dão conta. Descreve a vocação específica de colocar duas ou mais literaturas em conversa, permanentemente, como método de trabalho. É, talvez, o rótulo mais apropriado para descrever o que Rónai realmente fez ao longo de sua profícua carreira literária. Teria sido isso o que fez com a obra de Guimarães Rosa?

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Paulo Rónai e Guimarães Rosa: o intelectual húngaro foi um dos primeiros e mais brilhantes intérpretes da obra do autor de “Sagarana”, “Corpo de Baile” e “Grande Sertão: Veredas” | Fotos: Reproduções

O exemplo mais completo de comparatismo em toda a obra dele seja, talvez, falar sobre a linguagem sertaneja de Guimarães Rosa revelando “reflexões de questões existenciais amplas e profundas, capazes de compreensão em qualquer cultura“. Isso é o método comparatista em ação, palavra por palavra: pegar o que parece mais hiperlocal e intraduzível: o dialeto do sertão mineiro, quase uma língua própria dentro do português, mostrando as pontes que ligam aquilo a questões universais da literatura mundial.

E não era leitura de gabinete, distante do autor. Rónai e Rosa foram amigos próximos desde 1946, décadas de leitura mútua, e é por isso que o livro organizado por Ana Cecilia Impellizieri e Zsuzsanna Spiry se chama justamente “Rosa & Rónai — O Universo de Guimarães Rosa por Paulo Rónai, seu maior decifrador”. “Decifrador” sendo quase sinônimo de comparatista aqui: alguém que traduz não de um idioma para outro, mas de um universo semântico fechadíssimo (o sertão de Rosa) para a compreensão de qualquer leitor, brasileiro ou não.

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É o mesmo gesto que ele fez a vida inteira, só que na direção oposta à da Hungria: lá, ele explicava a Hungria ao Brasil (as conferências, os artigos sobre Ady); com Rosa, ele fez o Brasil profundo (o sertão) dialogar com o resto da literatura do mundo. Duas pontas do mesmo ofício comparatista.

Paulo Rónai como crítico literário

Na sua alentada tese, Zsuzsanna Spiry constata que, “se no início das pesquisas a imagem delineada a seguir serviu de norte, no final ela significou a própria confirmação. De maneira condensada, mas completa, o crítico literário Paulo Rónai está descrito neste parágrafo [de autoria de Nelson Ascher] e, como se vê ao longo deste texto, também a sua história de vida:

“Junto com sua certeza fundamentada a respeito da centralidade da tradução, Rónai trouxe-nos também a visão humanista e cosmopolita implícita em sua atividade e compartilhada com o restante massacrado de sua geração. A essa visão pertence um gênero literário específico, que ele ajudou a desenvolver no país. Trata-se do ensaio.

Na qualidade de ensaísta, Rónai esteve entre os primeiros, no Brasil, a chamar a atenção para um prosador e um poeta: João Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade. Não há algo de surpreendente em ser um húngaro um dos primeiros a demonstrar a indiscutibilidade do valor de autores que frequentemente nos parecem tão locais, tão — diríamos — intraduzíveis? Não há, na possibilidade mesma desse juízo por parte de quem o fez, uma tradução intelectual prévia, anterior a qualquer outra feita no papel?  (grifo da pesquisadora).

Paulo Rónal capa de Antologia do Conto mundial 500

O propósito de Zsuzsanna nesse trecho do “Capítulo III — Crítico literário” é demonstrar que ao falar de tradução intelectual prévia, de fato, Nelson Ascher está falando da atividade crítica de Paulo Rónai, à consecução da qual, o trabalho do tradutor viria corroborar, tal como quando lança sua primeira antologia de poetas brasileiros na Hungria; ou ainda em empreitadas como o “Mar de histórias — Antologia do Conto Mundial”, que não existiria não fosse essa mesma “tradução intelectual prévia”; ou ainda como corresponsável pela coluna “Contos da Semana” (em parceria com Aurélio Buarque de Holanda), em que a atividade crítica mais do que a tradutológica, é a responsável pela aparição ininterrupta da coluna no jornal “Diário de Notícias”, ao longo de 14 anos, em que publicaram 700 contos. E que outra pessoa que não um crítico usaria do expediente do ensaio para ser um dos primeiros a chamar a atenção para um prosador e um poeta? Ainda mais do porte de um Guimarães Rosa ou de um Carlos Drummond de Andrade?

Drummond não telefonou. Foi. E levou nas mãos não um de seus grandes poemas, e sim uma quadra simples, quase ingênua, como se só a forma mais nua fosse capaz de atravessar a distância entre dois homens e alcançar quem já beirava o abismo

Resistência e Carlos Drummond de Andrade

Na história de Stefan Zweig aconteceu um suicídio. Ele não resistiu (seu suicídio pode ter sido um ato de resistência à tentativa de controle do nazismo?). Rónai, resistiu. E parte dessa resistência tem nome e sobrenome: Carlos Drummond de Andrade. Depois do suicídio em Petrópolis, algo na amizade dos dois pareceu se adensar, como se a notícia tivesse ensinado a ambos o peso exato do que estava em jogo quando um exilado chega ao limite. Drummond tornou-se, para Rónai, o porto certo nas noites de maior desespero: telefonemas a qualquer hora, encontros sem hora marcada, o poeta sempre disposto a atravessar a cidade só para sentar-se ao lado do amigo húngaro e esperar a tempestade passar.

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Paulo Rónai (à esquerda) com Carlos Drummond de Andrade | Foto: Reprodução

No fim de março [de 1944], a tempestade veio cheia. Rónai atravessava uma crise que corroía por dentro: não via saída para Magda, sua primeira esposa, nem para o resto da família, presas na Hungria sob o cerco nazista aos judeus: a mesma angústia que, dias depois, transbordaria na carta de 23 de abril daquele ano. Drummond não telefonou. Foi. E levou nas mãos não um de seus grandes poemas, não um daqueles que o consagrariam para sempre, mas uma quadra simples, quase ingênua, como se só a forma mais nua fosse capaz de atravessar a distância entre dois homens e alcançar quem já beirava o abismo. O poeta-maior, por um instante, deixando de lado toda a sofisticação para falar a língua mais elementar que existe: a do consolo (os versos, na íntegra, estão em “O Homem Que Aprendeu o Brasil”, de Ana Cecília Impellizieri).

É talvez a cena mais humana de toda essa história: não o crítico e o poeta, não o húngaro e o mineiro, mas dois homens escolhendo, diante da pior notícia vinda da Europa, o gesto na visita, no poema, na presença, em vez do silêncio que engoliu Zweig.

Mas há ainda um episódio, dos mais bonitos de toda a história de vida de Paulo Rónai, que ilustra bem o que ficava por trás dessa produção toda.

O mestre e o poeta-tradutor Nelson Ascher

Em 1990, já com 83 anos, Rónai escreveu o prefácio de um livrinho fino de poesia húngara traduzida por um jovem então quase desconhecido: Nelson Ascher. Batizou o texto de “A Hungria chegou mais perto” — e a escolha das palavras não foi por acaso. Meio século antes, ao lançar na Hungria seu próprio livro sobre o Brasil, um crítico de Budapeste o saudara com a frase espelhada: “O Brasil chegou mais perto!”. Rónai devolvia agora o mesmo gesto, cinquenta anos depois, do lado oposto do oceano.

No prefácio, ele não se limita a elogiar o jovem poeta, crítico e tradutor. Explica, com autoridade de quem domina o idioma por dentro, por que verter poesia húngara para outra língua é “pouco menos que impossível”: a riqueza da métrica, a fartura de sinônimos, a capacidade quase ilimitada de criar palavras novas sem perder a compreensão. E termina reconhecendo em Ascher, entre “dezenas de milhares de brasileiros de estirpe húngara”, o único tradutor nato de poesia magiar, desejando-lhe sorte na carreira de tradutor de poesia, que descreve, com uma ponta de ironia carinhosa, como “ingrata, mas excitante”.

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Dois anos depois, Rónai morreria. Havia, sem alarde, passado a tocha adiante.

Não é preciso ficar só na palavra de quem o admirava. Há evidência de sobra, vinda de fontes que nunca se falaram entre si.

Uma dissertação de mestrado (https://tinyurl.com/44m78rf8) apresentada em 2007 pela pesquisadora Andréia Aredes, na Unesp de Assis, dedicou-se a mapear, isoladamente, a colaboração de Rónai num único caderno de um único jornal: o Suplemento Literário de “O Estado de S. Paulo”. O resultado: 112 textos, publicados entre 1959 e 1974, quinze anos de presença ininterrupta, só ali. E esse jornal era apenas um entre vários onde ele escrevia ao mesmo tempo.

A pesquisadora Zsuzsanna Spiry lista no Anexo II a profícua obra de Rónai, e a simples extensão desse levantamento já é eloquente: só as seções (a) Hungria e Brasil e (b) Artigos e Resenhas do Anexo II somam cerca de cinquenta páginas, isto é, mais do que o Capítulo III inteiro, dedicado à análise crítica de sua obra. O catálogo transborda a análise. Que o leitor interessado procure a tese completa para se instruir mais.

A nobreza da crítica literária

A atividade nobre do trabalho de Rónai é a crítica literária. Sua formação como comparatista — a Hungria foi o berço da primeira publicação de Literatura Comparada no mundo a partir de 1887 — tanto na Hungria como na Sorbonne, lhe permitiu ser o crítico literário que até hoje quem conhece o quilate do trabalho dele lamenta a falta.

Paulo Rónai capa de Não perca o seu latim500

Em suma, e voltando ao tema, um mero tradutor não tem estofo para produzir uma obra como a antologia Mar de Histórias, com todas as peças de crítica literária que ele insere antes de cada conto, com as referências cruzadas, etc. que tornam a obra uma master piece, na minha opinião. Um mero tradutor não poderia orientar o lançamento brasileiro da “Comédia Humana”, de Balzac (veja capítulo a respeito em “A Tradução Vivida”) como ele fez, tanto assim que foi premiado pelo governo francês por conta da excelência literária de seu trabalho. E não só isso, o Prêmio internacional Nathhorst que Rónai ganhou em 1981 foi pelo conjunto da obra [uma espécie de Nobel da Tradução mundial]; a campanha pela sua nomeação partiu do Brasil, da Hungria e da França. Não foi pouca coisa. Um simples tradutor não teria estofo para tanto. (Quanto a Rónai, aliás, não se pode sequer falar em “um simples tradutor”. Porque era, como tradutor, um exército de um homem só, digamos.)

Wilson Martins lembrava a observação do húngaro exilado Arthur Koestler: o destino comum dos escritores magiares emigrados era abandonar a própria língua e virar jornalista cosmopolita ou biscateiro literário, nunca escritores de verdade. Rónai escapou da sina

Coincidência ou não, foi exatamente nesse mesmo período, e na mesma redação, que o crítico literário Wilson Martins, titular da coluna de crítica do “Estadão” entre 1954 e 1974 e uma das figuras mais respeitadas da crítica brasileira do século 20, escreveu sobre o colega húngaro uma frase que vale por um livro inteiro, ou seja, a mesma escolha por um compatriota (imigrante), agora explicada: “Pela estoica coragem que teve de recomeçar a vida num país estranho, sem decair de sua condição espiritual”.

Paulo Rónai: tradutor de “Meninos da Rua Paulo”, o clássico de Ferenc Molnár | Foto: Reprodução

Wilson Martins lembrava, a propósito, a observação de outro húngaro exilado, o escritor Arthur Koestler: que o destino comum dos escritores magiares emigrados era abandonar a própria língua e virar jornalista cosmopolita ou “biscateiro literário”, nunca mais escritores de verdade.

Rónai escapou dessa sina. Não apenas sobreviveu ao exílio: transcendeu-o, continuando escritor pleno onde a maioria dos húngaros exilados, segundo o próprio Koestler, se tornava mera mão de obra cosmopolita.

Por isso insisto, dileto leitor, da próxima vez que alguém disser “Paulo Rónai, o tradutor”, vale lembrar-se do pai cantando Homero para a filha no berço, do prefácio que passou a tocha a Nelson Ascher, dos 112 textos que ninguém pediu e ele escreveu assim mesmo. Tradutor, sim, ele foi, e dos melhores. Mas foi, acima de tudo, um escritor inteiro, que a vida tentou calar mais de uma vez e, todas às vezes, ele respondeu, nas duas margens do oceano, com mais pesquisa comparada e com mais frases bem escritas.

A herança de Rónai e Nelson Ascher

Nelson Ascher tinha 15 anos (hoje tem 68 anos) quando topou, num velho almanaque húngaro de família, com os versos de Sándor Petőfi.

Sem preparo teórico algum, se atreveu a traduzi-los para o português e mandou o resultado, por um endereço emprestado, a um homem que nunca tinha visto: Paulo Rónai.

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Nelson Ascher: poeta, tradutor e crítico literário | Foto: Facebook

Rónai respondeu com generosidade. Talvez sem saber, repetia, do outro lado do oceano e décadas mais tarde, o mesmo gesto que Carlos Drummond de Andrade um dia lhe fizera: a presença, em vez do silêncio.

Hoje herdeiro da tocha, escolho o poeta Nelson Ascher para me despedir de você, leitor amigo, com os versos que o próprio Endre Ady (1877-1919), quase um século antes, já parecia ter escrito para essa cena, isto é, o poeta profetizando o moço que cantaria depois dele, para um mundo que talvez já não tivesse mais quem ouvisse.

Endre Ady: uma das grandes paixões literárias de Paulo Rónai

Um poeta futuro

Endre Ady

Quando acabar nos jardins húngaros

a raça humana: a rosa — um santo

moço tristonho há de ficar

e ele terá razões de pranto.

Invejo-te, moço futuro,

que cantarás tua cantiga

quando não mais houver quem ouça

ou sofra a nossa praga antiga.

O livro que veio bater à porta

Quando escreveu “A Hungria chegou mais perto”, em 1990, Rónai não estava conhecendo Nelson Ascher e sim reencontrando um leitor que já admirava.

Sete anos antes, em 1983, um livro pequeno veio bater à sua porta: “Ponta da Língua”, estreia poética de quem ele já conhecia como o frequentador mais notável da Livraria Landy, o santuário do livro húngaro escondido num quinto andar da Rua 7 de abril, em São Paulo.

Nelson Ascher capa de Ponta da Língua500

Aqueles versos de estreia, poucos, eram (são) carregados de epigramas, sátiras, pastiches.

Nisso tudo, Rónai já reconhecia uma poesia de protesto e denúncia, aliada à recusa de toda ilusão sentimental, com influências que iam de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro e a Khlébnikov.

O que mais lhe chamou atenção foi a mão do poeta sobre a própria forma: “Seus transbordamentos afoitos, rimas rebuscadas, ritmos ásperos, neologismos chocantes, trocadilhos impertinentes sabiam significar” (Paulo Rónai, prefácio ao livro de Ascher).