Flávio Alves Barbosa

Especial para o Jornal Opção

William de Baskerville: — Ubertino, sou William, William Baskerville.
Ubertino de Casale: — William, não, não, William está morto. William, meu filho, perdoe-me. Não temos notícias de você há tanto tempo.
William de Baskerville: — Eu tentei com muito esforço ser esquecido. (Do filme “O Nome da Rosa”)

Antes de mais nada, pergunto-me, se entre os dois frades franciscanos, quem será que não entendeu o que é ser um homem invisível: William Baskerville ou Ubertino de Casale? Ou terá sido os dois?

Acaba ser relançado, agora pela Editora Mondru, a segunda edição do livro “Confraria dos Homens Invisíveis”, de Solemar Oliveira, autor de uma palavra genuinamente provocadora, no melhor sentido da palavra, pois me desafiou a abrir a janela da alma e a espiar pra dentro .

Em tempos de vida espetacular, estruturada em simulacros, em que alguns humanos carecem de atenção, e por isso publicizam número de seguidores ou sofrem horrores pela ausência deles, o Confraria dos homens invisíveis chega em boa hora para nos colocar em conexão com a nossa condição humana.

Solemar Oliveira: escritor e professor de Física da UEG | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Os homens invisíveis são um só e também a sua luta por visibilidade ou invisibilidade. Penso que não há ninguém que não tenha ficado diante dessa teia ou mesmo se embaraçado nela.

A visibilidade é o doce canto das sereias que perturbava Ulisses, na “Odisseia”, de Homero, que soa como um convite para o ser humano abandonar a sua jornada em busca do sentido dos sentidos.

A invisibilidade pode ser pura vaidade cultuada, dificilmente se concretizará. Mas se ela for a estrada de volta para casa, possibilidade de cada homem e mulher ser segundo a sua própria medida e não viver segundo a medida dos outros, certamente, tornar-se-á uma realidade.

A leitura deste livro me confirmou que a solidão é para o ser humano uma espécie de placenta, isto é, um núcleo constitutivo. Tal como a placenta, a solidão nutre, protege, remove resíduos e proporciona descoberta de elementos essenciais para a constituição do ser.

A invisibilidade pode ser pura vaidade cultuada, dificilmente se concretizará. Mas, ela for a estrada de volta para casa, possibilidade de cada homem e mulher ser segundo a sua própria medida e não viver segundo a medida dos outros, certamente, tornar-se-á uma realidade

Preciso deixar claro que não é qualquer solidão, mas aquela que proporciona o autoconhecimento e nos livra da condição de prisioneiros de nós mesmos, de outro ser ou objeto. O não prisioneiro não é o autossuficiente, mas aquele que é desnecessário nestes tempos de utilitarismo.

A mãe da invisibilidade genuína é a desnecessidade, inutilidade e a autonomia. Esta invisibilidade não tem meta. Não abdica de relações. Existe uma diferença incalculável entre ser autônomo e autossuficiente.

O autônomo vive fora do simulacro e por viver assim é mistério, não manipulável, capaz de responder pelo outro.  Os autossuficientes são egoístas e indiferentes aos sentimentos alheios, tal como Narciso, e acabam morrendo afogados na própria imagem como náufragos de si mesmo.

No caminho com a “Confraria dos Homens Invisíveis”, recordei-me de uma das sentenças do poeta e dramaturgo afro-romano Públio Terêncio: “Sou humano, nada do que é humano me é estranho”.

Solemar Oliveira capa de Confraria 500ok2

“Confraria dos Homens Invisíveis” provocou em mim um deslocamento ontológico desde a primeira leitura, ainda não sei qual será o seu alcance. O livro é uma navalha afiada e as sentenças contidas nele são amorosamente impiedosas. Por quê? Porque “não há fio de segurança que Ariadne conceda com ternura” (p. 121).

 Solemar Oliveira nos dá um fio Ariadne para percorrermos a obra. Veja bem, eu disse fio, pois entrar e sair do labirinto da condição humana, matar ou não matar o Minotauro, nestes tempos em que o espectro da obsolescência nos ronda, é uma experiência a ser vivida por cada leitor. E sem spoiler, recomendo vivamente a leitura. Vocês não se arrependerão.

Flávio Alves Barbosa, escritor, é professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG).