Confraria dos Homens Invisíveis, romance de Solemar Oliveira, é navalha afiada com sentenças impiedosas
08 agosto 2026 às 21h00

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Flávio Alves Barbosa
Especial para o Jornal Opção
William de Baskerville: — Ubertino, sou William, William Baskerville.
Ubertino de Casale: — William, não, não, William está morto. William, meu filho, perdoe-me. Não temos notícias de você há tanto tempo.
William de Baskerville: — Eu tentei com muito esforço ser esquecido. (Do filme “O Nome da Rosa”)
Antes de mais nada, pergunto-me, se entre os dois frades franciscanos, quem será que não entendeu o que é ser um homem invisível: William Baskerville ou Ubertino de Casale? Ou terá sido os dois?
Acaba ser relançado, agora pela Editora Mondru, a segunda edição do livro “Confraria dos Homens Invisíveis”, de Solemar Oliveira, autor de uma palavra genuinamente provocadora, no melhor sentido da palavra, pois me desafiou a abrir a janela da alma e a espiar pra dentro .
Em tempos de vida espetacular, estruturada em simulacros, em que alguns humanos carecem de atenção, e por isso publicizam número de seguidores ou sofrem horrores pela ausência deles, o Confraria dos homens invisíveis chega em boa hora para nos colocar em conexão com a nossa condição humana.

Os homens invisíveis são um só e também a sua luta por visibilidade ou invisibilidade. Penso que não há ninguém que não tenha ficado diante dessa teia ou mesmo se embaraçado nela.
A visibilidade é o doce canto das sereias que perturbava Ulisses, na “Odisseia”, de Homero, que soa como um convite para o ser humano abandonar a sua jornada em busca do sentido dos sentidos.
A invisibilidade pode ser pura vaidade cultuada, dificilmente se concretizará. Mas se ela for a estrada de volta para casa, possibilidade de cada homem e mulher ser segundo a sua própria medida e não viver segundo a medida dos outros, certamente, tornar-se-á uma realidade.
A leitura deste livro me confirmou que a solidão é para o ser humano uma espécie de placenta, isto é, um núcleo constitutivo. Tal como a placenta, a solidão nutre, protege, remove resíduos e proporciona descoberta de elementos essenciais para a constituição do ser.
A invisibilidade pode ser pura vaidade cultuada, dificilmente se concretizará. Mas, ela for a estrada de volta para casa, possibilidade de cada homem e mulher ser segundo a sua própria medida e não viver segundo a medida dos outros, certamente, tornar-se-á uma realidade
Preciso deixar claro que não é qualquer solidão, mas aquela que proporciona o autoconhecimento e nos livra da condição de prisioneiros de nós mesmos, de outro ser ou objeto. O não prisioneiro não é o autossuficiente, mas aquele que é desnecessário nestes tempos de utilitarismo.
A mãe da invisibilidade genuína é a desnecessidade, inutilidade e a autonomia. Esta invisibilidade não tem meta. Não abdica de relações. Existe uma diferença incalculável entre ser autônomo e autossuficiente.
O autônomo vive fora do simulacro e por viver assim é mistério, não manipulável, capaz de responder pelo outro. Os autossuficientes são egoístas e indiferentes aos sentimentos alheios, tal como Narciso, e acabam morrendo afogados na própria imagem como náufragos de si mesmo.
No caminho com a “Confraria dos Homens Invisíveis”, recordei-me de uma das sentenças do poeta e dramaturgo afro-romano Públio Terêncio: “Sou humano, nada do que é humano me é estranho”.

“Confraria dos Homens Invisíveis” provocou em mim um deslocamento ontológico desde a primeira leitura, ainda não sei qual será o seu alcance. O livro é uma navalha afiada e as sentenças contidas nele são amorosamente impiedosas. Por quê? Porque “não há fio de segurança que Ariadne conceda com ternura” (p. 121).
Solemar Oliveira nos dá um fio Ariadne para percorrermos a obra. Veja bem, eu disse fio, pois entrar e sair do labirinto da condição humana, matar ou não matar o Minotauro, nestes tempos em que o espectro da obsolescência nos ronda, é uma experiência a ser vivida por cada leitor. E sem spoiler, recomendo vivamente a leitura. Vocês não se arrependerão.
Flávio Alves Barbosa, escritor, é professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG).


