Elizabeth Abreu Caldeira Brito

Maria Carmelita Fleury Curado nasceu na Cidade de Goiás, no dia 2 de outubro de 1932. Em Goiânia, graduou-se em Artes Visuais e licenciou-se em Artes Plásticas, ambos pela Universidade Federal de Goiás. Concluiu, ainda, os cursos de Filosofia e de História. Foi casada com o escritor Bernardo Élis, o único goiano a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL).

Antes desse enlace, exerceu a docência e foi freira dominicana durante muitos anos. Após o casamento passou a dedicar-se integralmente à preservação da obra do renomado escritor.

Elizabeth Abreu Caldeira Brito foto da capa de Dicionário Crítico das Vozes Femininas da Literatura em Goiás ok2

Viúva do ilustre imortal, Maria Carmelita idealizou a fundação do Instituto Cultural Bernardo Élis para os Povos do Cerrado (Icebe). A instituição a homenageia com o título de presidente ad perpetuam rei memoriam do Icebe.

Para que a existência dessa instituição não tivesse solução de continuidade, na missão de manter viva a obra e a memória do escritor, Maria Carmelita, preocupada com a idade avançada, convidou o primo, escritor e historiador Bento Fleury, professor-doutor, para que, a partir do ano de 2019, assumisse os destinos daquela casa de cultura. Assim o fez com galhardia.

Em “Patife e Seus Amores”, Maria Carmelita Fleury Curado encontra na aparente simplicidade da narrativa um espaço de reflexão sobre a vida em sua dimensão mais natural e afetiva. A prosadora dedicou-a com “carinho à família do notável escritor Bernardo Élis, protagonista desta estória”

Após deixar a presidência, em 2022, Bento Fleury foi homenageado com o título de presidente de honra da entidade. A partir de 2022, assume a presidência, com exitosa gestão, o escritor e pesquisador Nilson Jaime, ex-professor da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Delicada história de amores

Enquanto artista visual, Maria Carmelita realizou inúmeras exposições em Goiás, Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Recebeu várias premiações e distinções pela excelência de sua produção.

Maria Carmelita Fleury Curado capa de O Pároco 2

De acordo com Bernardo Élis, citado por Amaury Menezes (2002), “sua arte se distingue pela vigorosa decisão das linhas e do colorido exuberante, peculiaridades que a artista obtém com a extraordinária rapidez e precisão que esboça desde logo a obra”.

Escritora, Maria Carmelita produziu três obras. Duas foram publicadas: “Patife e Seus Amores” (2003) e o romance “O Pároco — Da Sublimação ao Suicídio” (2006).

Deixou inédito outro romance: “Amor, Soma e Subtração”.

Em “Patife e Seus Amores”, a autora encontra na aparente simplicidade da narrativa um espaço de reflexão sobre a vida em sua dimensão mais natural e afetiva. Maria Carmelita dedicou-a com “carinho à família de Bernardo Élis, protagonista desta estória”.

Trata-se de uma narrativa verídica do afeto da irmã de Bernardo Élis por “Patife”, o gato de estimação da família.

Maria Carmelita Fleury Curado capa de Patife e seus amores 500

Sobre o livro, cuja capa é composta por uma fotografia da tutora do felino, Elza, irmã de Bernardo Élis, segurando Patife nos braços, a professora de Teoria Literária IEL/Unicamp Enid Yatsuda Frederico, na quarta capa, manifestou-se:

“Uma delicada história de amor, ou melhor, de amores.

“Mas não se trata de amor romantizado pela narradora, que opta por seguir as leis da natureza: a um gato não caberia ficar chorando eternamente a amada morta. Outra surge e com o renascer da vida.

“Assim de modo natural, Patife (que nenhuma característica carrega do nome) cresce, ama, cuida da família, torna-se viúvo e casa-se novamente. Paralelamente, mostra-se o cuidado de uma fêmea com suas crias, e os problemas que uma grande ninhada causa aos homens.

Bernardo Élis: companheiro de jornada afetiva e literária de Maria Carmelita | Foto: Reprodução

“Ao longe, ecos de vozes conhecidas — Erico (Curado, pai de Bernardo Élis), Piano (personagem de “A Enxada”, conto de Bernardo Élis), “Veranico de Janeiro” (título do livro de contos de Bernardo Élis) — fazem convergir as lembranças para o inesquecível Bernardo Élis, marido da escritora, falecido em 1997.

“De leitura fluente, o bem escrito texto deixa um agradável rastro de saudade.”

O romance “O Pároco”

Em “O pároco — Da Sublimação ao Suicídio” (2006), a autora aprofunda o olhar sobre os conflitos morais e espirituais que atravessam o universo religioso e comunitário, revelando uma consciência narrativa capaz de explorar os dilemas entre fé, desejo e disciplina institucional. A capa é criação da própria autora utilizando um de seus trabalhos artísticos.

A obra tem a apresentação do historiador, pesquisador e jornalista Jarbas Silva Marques — membro do Instituto Histórico e Geográfico de Brasília —, que ressaltou o universo que compõe o cenário do romance a partir do espaço religioso da Igreja Católica, incluindo os dogmas por vezes afrontados no enredo.

No horizonte do Cerrado — território de resistências — sua trajetória há de permanecer como um testemunho de que a cultura se preserva além dos livros e das telas, mas também na fidelidade daqueles e àqueles que dedicaram e se dedicam a manter viva a luz da memória e da reverência aos merecedores

O jornalista afiança que à autora “nada lhe escapa nos ordenamentos sociais que tem a Igreja Católica como centro psicossocial, através do confessionário, e a revitalização social, por meio da banda musical a sensibilizar os jovens e romper o imobilismo cultural nas comunidades interioranas”.

O pesquisador pontua a tensão do Padre Silvério, um dos protagonistas da trama, que “luta entre a sua castidade sacerdotal e a sua natureza humana”.

Instituto Cultural Bernardo Élis Para os Povos do Cerrado (Icebe)
Instituto Cultural Bernardo Élis Para os Povos do Cerrado (Icebe) | Foto: Reprodução/Google Maps

O prefácio da mencionada obra tem a assinatura do escritor da Academia Goiana de Letras José Luiz Bittencourt, sob o título de “Uma peregrinação existencial”.

José Luiz Bittencourt revela tratar-se “de um livro bastante polêmico, que retrata a peregrinação existencial de homens e mulheres submetidos à disciplina religiosa e política de uma comunidade interiorana muito apegada aos ritos domésticos, ditados por consuetudinárias ações de vários extratos sociais”.

O analista acrescenta que a obra “versa assuntos de natureza filosófica, penetra na abordagem de temas relativos à doutrina de São Tomás de Aquino e Santo Ambrósio, vai de Velázquez a Boticelli, fala do celibato sacerdotal, discute o sistema de ordens monásticas e até faz voos pela poesia mística de Thereza D’Ávila de La Cruz, lúcidos espíritos reformadores que ainda iluminam os caminhos da Igreja.”

Vida narrada em suas várias versões

Por sua trajetória de vida, Maria Carmelita demonstra pertencimentos com suas raízes fincadas no espaço cultural goiano. Contudo, suas abordagens artísticas dialogam questões universais da condição humana, tanto na palavra escrita quanto na linguagem pictórica oriundas de sua verve artística. Assim, a literatura, a pintura e a dimensão preservacional da obra e da memória do marido imortal, tornam-se modos complementares de expressão de uma mesma inquietação estética e existencial – a vida narrada em suas inúmeras versões, tensões, afetos e contradições.

Imersa em vários universos, desde a introspecção no espaço silente e causticante de um mosteiro, a introspecção pictórica do ateliê, a densidade reflexiva do romance e a dedicação à memória literária de seu amado, sua vida traceja um percurso único: o de alguém que compreendeu a arte mais que criação… A compreendeu como permanência e constância. No horizonte do Cerrado — território simbólico e real de resistências e renascimentos — sua trajetória há de permanecer como um testemunho de que a cultura se preserva além dos livros e das telas, mas também na fidelidade daqueles e àqueles que dedicaram e se dedicam a manter viva a luz da memória e da reverência aos merecedores.

Maria Carmelita faleceu no dia 4 de setembro de 2025 em Goiânia, aos 93 anos.

Publicações de Maria Carmelita

1

“Patife e seus amores” (Goiânia, 2003);

2

“O Pároco — Da Sublimação ao Suicídio” (Goiânia: Ediçãoda UCG, R&F, 2006).

3

Deixou inédito: “Amor, Soma e Subtração”.

Elizabeth Abreu Caldeira Brito, psicóloga e escritora, é mestra em Letras e Críticas Literárias. Vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) e ex-presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag). É colaboradora do Jornal Opção.