Fernando Cupertino

Toda cidade antiga guarda uma pessoa que acaba virando lembrança,  antes mesmo de partir. Numa velha cidade imaginária, bem no interior do Brasil, vivia Dona Zefinha.

Viúva ainda moça, aprendeu cedo que tristeza não enche panela. Chorou o marido o quanto pôde e, depois, acendeu o fogão de lenha. O fogo, esse velho conselheiro das mulheres simples do interior, ensinou-lhe um ofício que sustentou sua vida por muitos anos.

Fazia pirulitos de caramelo, dourados como mel de flor do campo, e puxas de rapadura que esticavam compridas entre as mãos ligeiras, brilhando feito fita de cetim. O tacho de cobre fumegava desde a madrugada, enquanto a rua ainda dormia e os galos nem haviam decidido qual deles cantaria primeiro.

Quando o sol começava a dourar os telhados, lá seguia Dona Zefinha com seu tabuleiro, acomodando-se à sombra dos velhos beirais das casas defronte ao Lyceu.

Era ali que morava seu sustento.

Dona Zefinha fazia pirulitos de caramelo, dourados como mel de flor do campo, e puxas de rapadura que esticavam compridas entre as mãos ligeiras, brilhando feito fita de cetim. O tacho de cobre fumegava desde a madrugada, enquanto a rua ainda dormia e os galos nem haviam decidido qual deles cantaria primeiro

Os estudantes vinham aos bandos, espalhando alegria e barulho. Menino do Lyceu tinha uma ciência curiosa: podia esquecer livro, caderno, chapéu e até o dever de casa, mas nunca esquecia o caminho dos doces de Dona Zefinha.

E ela conhecia cada um deles. Sabia qual tinha vocação para doutor, qual acabaria fazendeiro e qual ainda daria muito trabalho ao delegado. Conhecia também os que viviam de bolsos vazios.

Dona Zefinha e o pirulito de caramelo ok4
Dona

— Dona Zefinha, amanhã eu pago.

Ela sorria de canto.

— Amanhã é um dia muito trabalhador. Vive carregando dívida dos outros.

Anotava o nome numa cadernetinha de capa preta, de páginas já amareladas pelo tempo. Não fazia aquilo por desconfiança. Fazia porque a memória envelhece, mas o papel é moço a vida inteira.

Havia quem pagasse logo. Havia quem demorasse. E havia, ainda, um ou outro que fingia esquecer. Esses ela não apertava. Esperava…

Afinal, o tempo é comprido e sempre encontra as pessoas.

Passavam-se os anos. Os meninos cresciam, botavam gravata, aprendiam palavras difíceis, ganhavam importância. Um virava médico; outro, juiz. Outro, deputado. Voltavam à cidade de automóvel, cheios de solenidade, mas bastava avistarem Dona Zefinha para perderem metade da pose.

Ela continuava a mesma. Os cabelos mais brancos; os passos mais vagarosos, mas o riso igual.

Certo dia, um desses homens importantes parou diante do tabuleiro.

— A senhora ainda se lembra de mim?

Estudantes são outros; crianças andam com mais pressa do que antes e se interessam por outras coisas. Mas certas figuras não desaparecem. Permanecem morando na lembrança das cidades, como permanecem o cheiro da rapadura quente, o estalar da lenha no fogão e o sino da igreja marcando as horas

Ela ergueu os olhos, demorou um instante e respondeu com toda a naturalidade do mundo:

— Lembro, sim. O senhor ainda me deve duas puxas de rapadura.

Os que estavam por perto caíram na risada.

O homem também riu, sem jeito.

— A senhora guardou isso por tanto tempo?

— Guardei, não. Quem guardou foi a caderneta. Ela tem melhor memória que nós dois.

Pagou a dívida como quem resgata um pedaço da infância.

Dona Zefinha contou as moedas devagar, embrulhou duas puxas novinhas e colocou-as em suas mãos.

— Agora está tudo certo. Mas estas são por conta da saudade.

Há pessoas que enriquecem ajuntando terras. Outras, juntando dinheiro. Dona Zefinha amealhou lembranças. Cada estudante que comprava um pirulito deixava um pedacinho de sua mocidade em seu tabuleiro. E ela, sem saber, adoçava muito mais do que a boca daqueles meninos. Adoçava os dias de uma cidade inteira.

Hoje já não existe o velho Lyceu daquele tempo. Os estudantes são outros, os doces mudaram de feitio e as crianças andam com mais pressa do que antes e se interessam por outras coisas.  Mas certas figuras não desaparecem. Permanecem morando na lembrança das cidades, como permanecem o cheiro da rapadura quente, o estalar da lenha no fogão e o sino da igreja marcando as horas.

E, quando a memória resolve passear por aquelas ruas antigas, ainda se pode ver Dona Zefinha ajeitando o tabuleiro, alisando o avental e esperando, com a paciência das mulheres simples, a algazarra dos meninos que sempre chegavam com fome de doce, com alegria e algum vintém — ou com a esperança de poder pagar amanhã.

Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.