Em seu método shakespeariano de conceber este livro, com a ajuda de seu “observador invisível”, o escritor, historiador e engenheiro Salatiel Correia nos brinda com uma semificção, ou melhor com uma ficção que tem fundamento em uma realidade vivida.

Quem conhece, um pouco que seja, a história do setor elétrico brasileiro, vai encontrar nas elaboradas páginas que se seguem, algo da saga de grandes empresas conhecidas, mesmo sem puxar muito pela memória. 

Essas empresas, fundadas em meados do século passado e dirigidas pelos mais renomados técnicos nacionais, sustentaram o crescimento brasileiro em épocas melhores, quando crescíamos, como se dizia, “à la japonaise”, espelhados no admirável desenvolvimento do Japão.

Governadores de então se empenhavam na preservação de suas empresas energéticas, cientes de sua importância como motor do crescimento estadual.

“O Jogo Invisível das Instituições”, de Salatiel Soares Correia. Editora Pontes, 212 páginas. Como o escritor norte-americano Truman Capote, o mestre pela Unicamp escreveu um notável romance de não-ficção

Vivi a época histórica de uma dessas empresas em seus bons tempos, pois fui seu estagiário quando estudante de engenharia, na década de 1950, seu engenheiro calculista na década de 1960 e seu presidente na década de 1970.

Salatiel Correia: engenheiro, crítico literário e escritor | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

A emulação que movia a todos os que trabalhavam na empresa nessas três décadas estará na memória dos que ainda vivem, dos ex-diretores aos mais humildes funcionários.

Era uma satisfação pertencer aos quadros da empresa que iluminava parte do Brasil com competência e dedicação e a quem todos os servidores se dedicavam com correção e elaborado cuidado profissional, e que significava uma complexa obrigação de administrar algumas pequenas hidroelétricas, muitas termoelétricas, linhas de transmissão das mais variadas tensões, subestações e redes de distribuição, em uma área, como tudo em nosso país, enorme. Tudo isso além de gerir a construção de obras enormes de engenharia de geração hidrelétrica.

Foi uma época de muito trabalho, sempre em equipe, com correção, o máximo de competência possível, e muito cuidado com o dinheiro público. E – Algo da mais alta importância – uma enorme compreensão do povo, que financiava com seus impostos pagos com suor, a empresa e sua expansão, um dos motores que era do  desenvolvimento nacional. Nos orgulhávamos de nossa Eletro Royal.

O observador shakespeariano

Vejo que o autor deste livro, que foi testemunha viva de uma época menos feliz, teve como observar o declínio de uma dessas empresas e de certa forma registrá-lo, o que ele faz nessa distopia shakespeareana, onde vários personagens ficcionais — mas que podem ter existido – se comportam como se não estivessem sendo observados e revelam todos os seus atos, por menos nobres que sejam – e como uma empresa é vulnerável ao comportamento dos que a operam.   

Salatiel Soares Correia capa de O Jogo Invisível das Instituições 500 ok1

“Este livro nasceu dessa combinação entre ficção e realidade como também entre fragmentos vividos e imagens reinventadas” – afirma o autor. Lembrei-me da empresa que conheci quando li, à página 183, a menção feita à grandeza de uma instituição: um ambiente onde o valor do indivíduo não estava na pose, porém, no mérito; não no título, mas na entrega; não na aparência, e sim na competência moral e técnica.

Mas, se este livro é uma ficção que se baseia em fatos, se as duas empresas, a Eletro Baturité que desceu da excelência à falência e a Eletro Royal que permaneceu íntegra, são duas ou uma só, a conclusão do autor, após extensa observação dos perfis psicológicos de dirigentes e auxiliares por seu “observador shakespeariano invisível”, e das ações decorrentes, é uma conclusão universal: “Não há instituição maior do que o caráter dos que a administram”.

O leitor que percorrer as páginas que se seguem terá, ao fim delas, somado à sua percepção, mais algumas ferramentas para aprimorar sua visão intelectual do mundo empresarial. E o autor, mais uma vez, contribui para a compreensão da nossa história econômica e social.

Irapuan Costa Junior foi governador de Goiás e senador. O texto acima é o prefácio do livro.