Violência nossa de cada dia

Em sua estreia, Alê Motta mimetiza um universo cruel e esquizofrênico, próximo das manchetes popularescas dos jornais impressos e televisivos

Alê Motta: sua escrita exibe a velha e bela faceta da literatura noir e brutalista; utilizando-se do formato mais miúdo do conto – o miniconto –, ela surpreende pelo alto poder de concisão | Foto: Divulgação

Márwio Câmara
Especial para o Jornal Opção

A matéria-prima do conjunto de contos da es­treante Alê Motta é a violência, em suma altivez e iniquidade. Não há tempo para grandes descrições. As narrativas que alicerçam o conjunto de “In­terrompidos” (Editora Reforma­tó­rio) se aproximam do time cinematográfico. Tiradas curtas e objetivas, levando o leitor para o imo da cena.

Suas personagens, em grande maioria, destilam preconceito, ódio, mesquinhez e cinismo. Tudo que gira em torno dessas criaturas de caráteres duvidosos acaba por ser interrompido, seja por um final trágico ou pelo próprio desfecho fortuito do conto que aniquila a continuidade da narrativa.

Em “Prato Principal”, uma mulher prepara o “frango assado com batatas portuguesas” para o companheiro em uma típica cena doméstica. Ela parece dedicada e complacente ao ouvir o que o marido fizera durante o dia. A cena de simplicidade e comunhão amorosa é alterada ao percebermos que o objetivo da personagem é envenenar o seu cônjuge.

Já em “Mala de Rodinhas”, acom­panha-se o trajeto de uma mulher, arrastando a mala de rodinhas para fora do prédio até a rua. Ela segue para uma rua deserta. E retorna para a avenida sem levantar qualquer suspeita: um crime de esquartejamento. A personagem pensa que os “suspeitos seriam os peões. Brutos. Descuidados”. Uma sociopata de carteirinha.

A maioria das personagens deste livro destila preconceito, ódio, mesquinhez e cinismo, e tudo que gira em seu redor acaba por ser interrompido | Divulgação

Embora a escrita de Motta não traga nada de novo em termos estilísticos, exibe a velha e bela faceta da literatura noir e brutalista. E se utilizando do formato mais miúdo do conto – o miniconto –, surpreende pelo alto poder de concisão, que, por sua vez, resulta à leitura um notável vórtice de ritmo e sonoridade.

Boa parte dos textos é narrada em primeira pessoa, criando assim certa sensação de cumplicidade, mesmo à revelia, com o leitor. Estamos o tempo todo inseridos dentro da mente dessas personagens, indivíduos paranoicos, psicóticos e ordinários, que demonstram elevado grau de apatia sobre o mundo que os cerca.

No conto de “Disparate”, a ambição de um sujeito, para conquistar a nova vaga em aberto na firma pela qual trabalha, mostra o grau de frieza e perversão ante seus colegas: “Concorrer com uma mulher? Com um preto? Só faltou colocarem também na disputa o viadinho da contabilidade”.

O sentimento de disputa e posse pelo cargo o leva ao delírio abjeto de destruir a todos. En­quanto que em “O convite”, um homem resolve marcar um en­contro com a sua ex-namorada no cinema: “O filme era Guerra civil. Ela era louca pelo universo Mar­vel. Minha camiseta a fez sorrir. Pegou no meu braço e fez carinho no meu peitoral”. Até o inusitado ocorrer. O homem sai do cinema sozinho, lamentando perder os extras, mas ciente que com a camisa vermelha ninguém notaria na rua “os respingos de sangue”.

Senso de humor
Embora “Interrompidos” se debruce nas mazelas sociais, na premeditação do crime e na tirania de seus algozes, a decadência moral dessas personagens é mediada por um ótimo senso de humor que beira ao deboche. Em “História Perfeita”, uma personagem relata uma falaciosa comoção que a cidade viveu com a morte de seu pai, o único médico do local. No início, a descrição dos fatos beira quase a um realismo fantástico, até a narradora se desdizer: “A realidade foi um enterro ridículo, uma cidade aliviada e uma reunião para convidar com urgência alguém decente para o cargo”.

No conto “Raios”, o narrador relata a degradação psíquica de seu pai, após a casa ser invadida por um raio. Na segunda vez em que o raio cai sobre o aposento, o patriarca morre e no velório é feito um bolo de cenoura. Voltando do enterro, o rapaz bate papo com a tevê dentro de casa, para homenagear ao pai que detinha de hábito semelhante. Mas ele vacila aquela noite, comendo exatamente o que o falecido detestava: tomate.

Bebendo da fonte de Rubem Fonseca e Patrícia Melo, Alê Motta mimetiza um universo cruel e esquizofrênico, próximo das manchetes popularescas dos jornais impressos e televisivos, com ótimo domínio de técnica e desenvoltura narrativa. No conto de “Operação de Morro”, descreve-se em poucas palavras uma troca de tiros que ocorre no início da manhã em uma favela, durante a entrada do comboio da polícia.

Matando dois moleques, um dos policiais não se contém e chora, com o corpo de uma das vítimas destroçado. Já em “Copacabana”, uma tentativa de assalto acaba por deixar dois mortos, neste caso um policial e um padeiro. O último clama por ajuda, mas ninguém o socorre. Por outro lado, tem o vídeo da cena popularizado na internet, antes mesmo do enterro.

A linguagem brutalista utilizada por Motta não é caricata, tanto no ponto de vista da construção das personagens quanto na escolha da forma. Nota-se que tal empreendimento traz esforços para se estabelecer uma voz autoral que não se saia prejudicada por alguns repentinos ecos de autores consagrados.

Um livro que, no final de tudo, mesmo se tratando da violência e da pequenez humana, ganha ponto por fazer o leitor rir mesmo que diante de uma realidade egoísta, neurótica e sociopata. Realida­de esta em que a animalização da ética e a banalização do indivíduo, infelizmente, não são apenas objetos do campo ficcional.

Márwio Câmara é escritor, jornalista e crítico literário; autor de “Solidão e Outras Companhias” (Editora Oito e Meio)

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