A vanguarda na Rua do Odéon

A livraria de Sylvia Beach tornou-se célebre, mas a de Adrienne Monnier, por alguma razão, ainda é pouco conhecida no Brasil. Vale lembrar que as duas tiveram um relacionamento amoroso e nunca foram rivais

Adrienne Monnier, em pintura de Paul-Émile Bécat | Divulgação

Dirce Waltrick do Amarante
Especial para o Jornal Opção

Na primeira metade do século XX, duas grandes livrarias se estabeleceram na Rua do Odéon, em Paris, a Shakespeare & Com­pany, da norte-americana Sylvia Be­ach, responsável pela publicação da primeira edição de “Ulisses”, de Ja­mes Joyce, e La Maison des Amis des Livres, da francesa Adrienne Monnier.

A livraria de Sylvia Beach tornou-se célebre, mas a de Adrienne Mon­ni­er, por alguma razão, ainda é pouco co­nhecida no Brasil. Vale aqui lembrar que as duas tiveram um relacionamento amoroso e nunca foram rivais.

“Rua de Odéon”, uma seleção de textos de Adrienne Monnier, publicada após a sua morte, traz à luz a amante dos livros, das artes e do conhecimento, razão pela qual teria aberto seu estabelecimento: “Eu gostava dos livros, eis tudo, e o ofício de livreiro ia me permitir cobrir as paredes com eles, eu poderia mergulhar no oceano do conhecimento”.

Mais do que o lucro, sua loja visava promover um encontro entre os livros e os leitores. Nesse sentido, revelou Monnier, “[…] a primeira de nossas ideias era, é ainda, que o verdadeiro comércio da livraria comportasse não apenas a venda, mas também o empréstimo, e que essas duas operações devessem ser exercidas simultaneamente”. Monnier argumentava que o leitor tem necessidade de conhecer o livro antes de comprá-lo: “[…] gostaríamos de introduzir, em um círculo de amigos, certas pessoas inoportunas ou pessoas indiferentes? É o risco que se corre ao se comprar livros que não se leu. É verdade que podemos nos desfazer deles, mas, com bastante frequência, guardaremos um volume mal escolhido para não ter a chateação de revendê-lo às vezes pela décima parte do preço que foi pago […]. Só que, depois de algumas decepções desse gênero, deixamos de lado as obras novas e só confiamos nos clássicos”.

Rua do Odéon
Autor: Adrienne Monnier
Ano: 2017
Tradução: Júlio Castañon Guimarães
Editora: Autêntica
Páginas: 240

Como livreira, Monnier investia não só nos clássicos, mas também em escritores contemporâneos, alguns conhecidos como Apollinaire – “homem gordo de uniforme, com a cabeça em forma de pera, bastante pai Ubu, e que usava nela, como uma coroa, uma pequena e curiosa faixa de couro –, Louis Aragon, Philippe Soupault, André Breton etc., e outros nem tão afamados.

Um dos ensaios de Monnier é sobre Raymonde Linossier, autora de um romance intitulado “Bibi-la-bibiste”, dedicado a Francis Poulenc, e criadora do bibismo, uma doutrina que se assemelhava ao dadaísmo antes do surgimento do próprio. Segundo Monnier: “O bibismo procurava instaurar o gosto pelo barroco e pelo primitivo. Nele se honravam as artes selvagens e essas formas de arte popular que se exprimem por bordados em pelúcia, caixinhas de concha, cartões postais com surpresas, quadros de selos, construções de rolhas etc. Ali onde os dadás puseram o trágico, bibi punha a ternura”.

A propósito do dadaísmo, Monnier afirmou que ao receber de Zurique os dois primeiros números de “Dada”, ela foi tomada de horror a ponto de arrumá-los “em uma gaveta, decidida a não mostrá-los (como veem, eu era ‘reacionária’, como diria nosso amigo Saillet)”.

Não só muitos escritores e artistas passaram por La Maison des Amis des Livres como também muitos eventos importantes aconteceram ali. Um deles foi a audição de Socrate, de Erik Satie: “Era mesmo um acontecimento, já que a obra só fora executada anteriormente na residência da princesa Edmond de Polignac, que, imitando os senhores de outrora, a havia encomendado. Nossa audição foi portanto uma verdadeira pequena estreia”, a qual teve Satie ao piano e uma apresentação de Jean Cocteau. Houve outras apresentações de Socrate e a elas compareceram, entre outros, André Gide e Paul Claudel.

Sobre o Manifesto do Surrealis­mo, Monnier afirma que ele a deixou ma­ravilhada. Em seu livro, ela destaca ainda a honra de ter sido editora de Paul Valéry, de ter acompanhado de per­­to a tradução de Ulisses para o fran­­cês e de seu convívio com Léon-Paul Fargue, cujo estilo “endiabrado” te­ria influenciado Louis-Ferdinand Céline.

“Rua do Odéon” é indispensável para quem se interessa pelas vanguardas da primeira metade do século XX.

Dirce Waltrick do Amarante é tradutora e escritora, autora, entre outros, de “James Joyce e seus tradutores” (Iluminuras).

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