O livro contém histórias desentranhadas da mais pura mineiridade, com seu genuíno e inconfundível “modus vivendi”

João Carlos Taveira

Especial para o Jornal Opção

A escritora mineira Nilce Coutinho Guerra, há algum tempo, publicou um livro de contos e crônicas muito interessante, cujo título é simplesmente “Valquíria”. São histórias desentranhadas da mais pura mineiridade, com seu genuíno e inconfundível “modus vivendi”. Todos os textos do livro, de ficção ou não, estão calcados no jeito de ver as coisas e principalmente naquele gostoso modo de falar das pessoas simples de Minas Gerais, tão caro a nós, mineiros, espalhados por esse mundo afora…

Não pense o leitor que a personagem Valquíria, que também dá título ao primeiro conto do livro de Nilce, tenha ares mitológicos ou metafísicos. Não. Nada de compará-la com a filha de Wotan, Brünnhilde, que desafia o temperamento irascível do pai o tempo todo, ao longo da tetralogia musical o “Anel dos Nibelungos” de Richard Wagner (1813-1883). Trata-se de uma empregada doméstica que fala pelos cotovelos, ativa e observadora, mas de carne e osso como qualquer personagem que povoa nosso imaginário e — “et pour cause” — com a qual nos defrontamos cotidianamente. Basta uma olhadela na capa do livro para entender perfeitamente do que se está falando.

O volume reúne histórias as mais diversas, narrativas geralmente curtas e bem sintéticas em seu processo arquitetônico, no tocante à linguagem e ao estilo. Aliás, é de fácil percepção o dedo da professora, da pedagoga, pela postura didática que perpassa cada peça da coletânea. Ou seja, “Valquíria” é um livro para ser lido com prazer e sem pressa.

Nesse livro equilibrado, além do conto já referido, podemos citar aleatoriamente outros títulos não menos sedutores, como “Troca de telhas”, “Boas vizinhas”, “Sinfonia familiar”, “Dona Cilene”, “Irene”, “Dentro da noite”, “O sonho de um caipira”.

Nilce Coutinho: escritora | Foto: Divulgação

Autora de uma obra já madura, que conta com quatro livros publicados e diversas participações em antologias, Nilce Coutinho Guerra, além de artista plástica, estudiosa do nosso folclore e professora de formação, revela-se uma exímia contadora de histórias, mas sem aquele didatismo pedante ou intelectualismo vazio, tão comuns nos dias atuais.  Sua escrita é simples e direta, exibindo-se apenas na destreza do modo de contar. Aquilo em que Graciliano Ramos tanto insistia: “literatura é carne, é sangue” e “um bom escritor é aquele que escreve sobre aquilo que conhece”.

Nilce Coutinho Guerra, mineira de Bom Despacho — terra do grande engenheiro e físico Paulo Gontijo (criador e construtor do Templo da Ciência no município de Ipameri, Goiás) e de outros luminares das artes e da política brasileiras —, sabe que o fazer literário é um sacerdócio, cuja entrega exige conhecimento, pesquisa e abnegação. E sabe também que a literatura tem hoje mil e um concorrentes diretos e indiretos. Mas o mais cruel dos inimigos esconde-se na sombra e se chama silêncio.

Com apoio do FAC da Secretaria de Estado de Cultura do Distrito Federal, a Thesaurus Editora ficou encarregada de realizar o trabalho de edição do livro, que veio a lume com grande entusiasmo por parte do público e traz prefácio do poeta José Santiago Naud (1930-2020), seduzido como eu pelos “causos” e histórias de Nilce Coutinho Guerra. A impressão e o acabamento estão impecáveis, o que torna o volume também muito agradável aos olhos e ao contato de nossas mãos. Certamente uma boa leitura, em momentos de grande e proveitosa descontração.

João Carlos Taveira, poeta, ensaísta e crítico, tem diversas obras publicadas, entre elas “Arquitetura do Homem”. É colaborador do Jornal Opção.