Um romance sem fronteiras

“As Visitas que Hoje Estamos” foge ao romance tradicional, burguês e contemporâneo, sem contudo negá-lo. É pelo recorte de várias situações que o todo se impõe, sem perder o liame, ainda que não seja uma prosa costumeira e linear

Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, autor de “As Visitas que Hoje Estamos”

Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, autor de “As Visitas que Hoje Estamos”

Ronaldo Cagiano
Especial para o Jornal Opção

Poeta, ficcionista e professor, Antonio Geraldo Fi­guei­redo Ferreira é uma das gratas revelações da literatura contemporânea brasileira, num cenário nem sempre profícuo a dar vez e voz a bons escritores publicados por pequenas editoras ou vivendo longe do eixo hegemônico e monopolista da grande imprensa.

O autor foi revelado nacionalmente a partir de uma crítica homologatória que, em boa hora, foi entalhada por ninguém menos que o abalizado crítico e ensaísta Luiz Costa Lima, no suplemento cultural do jornal “Valor Econômico”, quando lançou luzes sob a potência de seu trabalho, tendo o romance despertado a atenção de todo o País, saudado ainda por manifestações favoráveis de Raimundo Carrero, Ariano Suassuna e Alfredo Monte.

Figueiredo foi finalista dos prêmios “Portugal Telecom” e “SP de Literatura” do ano passado com uma obra monumental — “As Vi­sitas que Hoje Estamos” —empreitada de fôlego e meticulosa construção, emergindo da pequena Ar­ceburgo, no sul de Minas, onde vive há mais de 20 anos esse paulista de 48 anos, nascido em Mococa, formado em Letras pela USP, proprietário de dois armarinhos e professor de literatura e língua portuguesa em escolas e cursinhos, detentor da maior e mais sofisticada biblioteca da cidade, um paraíso em meio ao deserto estético que paira sobre a maioria das comunas do interior.

cul5A obra é uma reafirmação do romance justamente a partir de sua negação como estrutura formal como o conhecemos tradicionalmente, pois o autor confeccionou uma verdadeira babel ficcional, em que vozes distintas e multifárias se encadeiam para erguer uma história caudalosa e fragmentária da vida de um pequeno espaço geográfico, o do interior, no qual a cartografia psicológica de cada personagem impulsiona tanto a linguagem como a temática tão caleidoscópica como desafiadora para o autor e instigante para o leitor.

Em diversas entrevistas e incursões na imprensa após a eclosão tsunâmica de seu romance, Geraldo deslindou as bases de sua arquitetura romanesca, a partir de um olhar multifacético e transcendental sobre o microcosmo de uma cidade de apenas 10 mil habitantes, matéria e circunstância para o livro, fruto de um olhar aguçado e reflexivo sobre as mazelas de uma vida sempre a mesma, onde o tempo passa devagar e as pessoas são coadjuvantes ou testemunhas dessa inércia.

O autor — que já teve o livro de poemas “Peixe e Míngua” (Editora Nankim) custeado com empresarial, só conseguiu retirar “As Visitas que Hoje Estamos” do anonimato após aprovado em lei de incentivo, tendo sido publicado pela editora Iluminuras, vencendo assim o natural, injusto e criminoso obstáculo imposto à maioria dos autores brasileiros, algo tão comum nesse cenário cada dia mais excludente e sem critérios do mundo editorial, no qual cavar espaço e publicação é uma penosa via crúcis.

O pontapé de Costa Lima, que atestou a indiscutível qualidade e originalidade da obra, a reboque da impactante chacoalhada que o autor deu no gênero (“Comecei a lê-lo há poucos dias. E minha surpresa positiva se instalou de imediato e não me abandonou, até agora, quando já estou além de sua metade. A surpresa, boa, extremamente boa, e inspirada tem sido tamanha que me dispus a escrever uma resenha sobre ele”) foi fundamental para que o livro alcançasse a merecida ressonância, pelo indiscutível padrão da linguagem, pela inequívoca carga semântica das narrativas, pelo olhar crítico e metafórico sobre as vidas miúdas do interior.

“As Visitas que Hoje Estamos” foge ao romance tradicional, burguês e contemporâneo, sem contudo negá-lo. É pelo recorte de várias situações que o todo se impõe, sem perder o liame, ainda que não seja uma prosa costumeira e linear. A partir dessa opção formal, o autor amplia sua dicção narrativa e alarga as fronteiras do gênero, cujos recursos flertam com a crônica social e incorporam elementos de outras linguagens, como a poesia, o teatro, a crítica literária e o ensaio, delineando um estilo em que linguagem, tensão e densidade formam uma relação simbiótica. Ao imergir no aluvião da memória individual e coletiva, Ferreira auscultou o pulmão e radiografou as vísceras de uma cidade e seus protagonistas, para erguer, numa obra polifônica, que consumiu cerca de 10 anos de carpintaria e coleta histórica e sensorial, uma profunda análise dessas vida anônimas e imutáveis, para demonstrar, com requintes metalinguísticos e outras sutilezas narrativas, que “A vida deve ser, e é, maior do que qualquer arte. Entretanto, esse é justamente o motivo pelo qual a grande obra permanece”.
Sem dúvida, “As Visitas que Hoje Estamos” fará parte do verdadeiro cânone nacional, obra que sobreviverá aos modismos, às idiossincrasias de uma crítica acadêmica nem sempre honesta e aos bafejos oportunistas dos viciados cadernos de cultura dos grandes centros, pela inventividade, pela liberdade com que esculpiu no gênero romance uma expressão mais dinâmica e inconformada, mais crítica e mais proeminente, porque falou com paixão e qualidade, sobre o que é essencial e profundamente humano sobre nossa precariedade existencial.

Ronaldo Cagiano é escritor e crítico literário.

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