Um canteiro de saudades…
09 maio 2026 às 21h00

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Fernando Cupertino
Especial para o Jornal Opção
Só quem foi criança na velha Goyaz entenderá o que vou dizer. Somente os que, como eu, tiveram dias de despreocupada meninice no seio de famílias que viviam modestamente.
Por certo, muitos vão se lembrar do bolo-de-arroz apregoado pelas ruas, cedo, bem cedo; dos confeitos de Dona Otávia; dos pastéis do Sr. João Isac; da garapa com ou sem limão, vendida nas ruas por Zé Isac, irmão do afamado pasteleiro do mercado. Do Restaurante do Papai, contíguo à loja do Sr. Nagib Pelles, que por sua vez, era pegada¹ a uma outra, do seu irmão Jorge, mais conhecido por Dojão; do Hotel Municipal; do armazém de Sebastião de Óculos; das lojas do “Coronel” Petrônio, de Dona Maria Rosinha e de Dona Maria do Joe; das Casas Dorival, da Casa Camelo, da Casa Veiga, da Casa Sureia, das Lojas Riachuelo, das Casas Pernambucanas e da Casa Xavante. Do Banco Hipotecário e Agrícola do Estado de Minas Gerais, que tinha por gerente o Sr. João Vicente. Das bolachas-palito da Padaria Estrela; da Casa São João, do Sr. Nelson Costa Campos, onde muitas vezes fui comprar sal amoníaco para minha avó fazer bolachinhas. Do armazém de Siô Ricarte, na avenida, e o de Tão de Oliveira, defronte ao hospital, na ponte do Carmo. Do açougue do Sr. João de Cândido, onde aprendi que “madrugada” era o mesmo que alcatra. Do sorvete e do picolé do coreto no Largo da Matriz (só havia sorvete de coco, creme e ameixa e a gente sempre perguntava “sorvete de que é que tem?”, talvez esperando por alguma novidade que nunca vinha…).
Havia, ainda o bar do Manon (Waldemar Rizzo), local de encontro de políticos e fazendeiros, famoso por sua cerveja nunca gelada e pelo fato de que, se o freguês começasse a exagerar na bebida, o proprietário simplesmente dizia que não havia mais. Ele ficava logo acima da casa do Dr. Hélios Amorim que, por sua vez, era parede-de-meia com casa de Dr. Astúlio Caiado, de um lado, e com meu tio-avô, Dr. Tasso de Camargo, que por mais de 60 anos exerceu a Medicina como sacerdócio. Ainda mais acima, a casa de Dr. Lincoln Caiado de Castro; a de Zé Berquó; a loja do Sr. Apulchro de Alencastro, de que tenho uma vaga lembrança. Do outro lado da praça, a casa e o consultório dentário de Chico Veiga; a Farmácia Bom Jesus, do saudoso amigo Paulo Saddi; o Bar Continental, de Wadjou Rocha Lima, o sobrado de Consuelo Caiado e, ali pertinho, a casa de Dona Irene, que vendia passagens do Rápido Guarany.
Na esquina com a antiga Rua Direita, chamada de Moretti Foggia — em homenagem ao anarquista italiano que abandonara o curso de Medicina para escapar da morte e veio da Itália se refugiar em Goiás –, a farmácia de minha prima Enilza, que antes havia sido de Anita Perillo e ainda, antes dela, do Dr. Chiquinho Perillo. Vizinha, a barbearia de Tiãozinho Barbeiro, onde o engraxate tinha o engraçado apelido de Tião Cataprisma, e a Tabacaria do Professor Arthur, onde comprávamos jornais, gibis e revistas. Indo em direção à Rua do Lyceu, a barbearia de Henriquinho e a farmácia São José, ao lado da casa do Sr. Maximiano Mendes, português trabalhador e muito estimado. Um pouco mais adiante, na esquina, o Bar do Ney, antes de chegar à casa de Dona Matilde, professora de piano, parede-de-meia com o velho Lyceu.
Do outro lado do rio, onde morávamos na casa da ponte da Lapa, em frente àquela que ficou famosa após o retorno de Dona Cora com seus versos e doces (ou seriam doces versos?)…
Quanta gente querida! A família do maestro João Ribeiro; Siô Jarbas e Dona Maria; Dr. Limírio de Oliveira (Mirim), nosso dentista; Siô Alaor Curado e Dona Waldeia; Tia Chiquinha Nunes de Camargo – tia-avó de minha mãe; dona Nenzica, de quem comprávamos bananas; meus avós paternos Antenor e Chiquita; Dr. João Nicolau; Dr. Joaquim Taveira e Dona Eridan; Dona Nely, de um lado, e a família do Sr. Batista, do outro, fechavam a rua que desemboca no Largo do Rosário.
Nos bancos de pedra que ladeiam a ponte, as famílias sentavam-se no começo da noite “para tomar a fresca”. Os mesmos que, de alguns anos para cá, tornaram-se a sede social do Departamento de Investigação da Vida Alheia (Diva), bastante concorrido, por razões óbvias.
Hoje, quando passo por esses lugares, revejo-os todos, mentalmente. E nasce no fundo do peito aquela pontada de dor, ao perceber a dimensão da ausência terrena de tantos familiares e amigos que aqui já não mais estão. Entretanto, ao mesmo tempo, vêm à memória fatos pitorescos; situações vividas que, como uma lufada de ar fresco, entram pela janela e afastam as sombras de tristeza. De qualquer forma, dou-me conta de que a vida, com o passar dos anos, torna-se, imperiosamente, um canteiro de saudades que regamos todos os dias.
Nota
¹ “Pegada”: no sentido de colada; geminada; grudada uma à outra.
Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaboração do Jornal Opção.

