Ana Kelly Souto

De Portugal para o Jornal Opção

Abecedário de Agostinho de Hipona: S de solilóquio e suicídio

Neste artigo, o tema exige duas letras “S”, solilóquio e suicídio, dois caminhos que cruzam a interioridade humana, um como exercício de escuta e busca e outro como expressão de dor extrema que pede cuidado e esperança.

A palavra solilóquio vem do latim solus (sozinho) + loqui (falar). Significa “falar consigo mesmo” ou “conversar a sós”. Em 386-387, Agostinho de Hipona, ainda no início de sua conversão, escreveu uma obra com esse título, “Solilóquios”. Não se trata de um monólogo fechado em si mesmo, mas de um diálogo interior entre o filósofo e a sua própria Razão. Nesse diálogo, ele investiga as grandes questões da vida, a verdade, o conhecimento de Deus, o caminho para a felicidade e a cura da alma para contemplar a luz divina.

Nos “Solilóquios”, Agostinho não foge do outro nem de si, ele se volta para dentro, questiona seus desejos, dúvidas e feridas. Realiza um exercício de interioridade, falar sozinho, mas com Deus presente no coração. É uma busca humilde do “Tu” que habita o mais íntimo de nós. É precisamente dessa interioridade sincera que surge uma ponte para outro “S” doloroso do nosso tempo, o suicídio.

Em todos os tempos há sofrimento, mas hoje ele se manifesta de forma difusa e persistente. Muitas pessoas carregam uma dor tão pesada — depressão, solidão, desespero, sensação de perda de sentido — que o pensamento de acabar com tudo aparece como uma “saída”. Nesse momento de grande vulnerabilidade, a experiência de Agostinho nos convida a fazer como nos Solilóquios, falar consigo mesmo com verdade, mas não permanecer fechado em si.

Em “De civitate”, afirma-se que a vida não pertence inteiramente ao homem, mas é dom de Deus. Por isso, tirar a própria vida não é um gesto neutro, é um drama que toca o mistério da existência e seus limites. Ainda assim, reduzir o suicídio a um erro moral é não perceber a profundidade da ferida que o precede.

Santo Agostinho conheceu o sofrimento, chorou a morte de amigos, do filho Adeodato e de sua mãe. Ainda assim, lembra que a morte não nos pertence para decidirmos o seu momento. O suicídio não resolve a dor, interrompe um diálogo que ainda poderia ser transformado pela graça.

A tradição cristã nunca tratou a morte com indiferença, nem o corpo com desprezo. Em “O cuidado devido aos mortos”, Agostinho recorda que o cuidado com os mortos tem valor por expressar amor, memória e comunhão. Diante de uma morte por suicídio, essa verdade se torna ainda mais necessária, o funeral é um gesto de misericórdia e a oração é um pedido confiado a Deus.

Se hoje alguém se sente tão sozinho que a ideia de continuar parece insuportável, Agostinho não aponta o dedo, ele estende a mão e insiste, não desista do diálogo. Fale com alguém de confiança, fale com Deus no silêncio do seu quarto, peça ajuda. A mesma graça que iluminou o seu caminho pode iluminar o seu.

A vida, mesmo ferida, conserva um sentido, porque foi amada primeiro por Deus. O coração inquieto não encontra descanso fugindo da vida, mas trilhando o caminho para Deus. E, se alguém que amamos partiu por suicídio, permanece a esperança. O cuidado com os mortos não termina no túmulo, continua na oração, na memória e na misericórdia de Deus, que é maior que qualquer dor humana.

Ana Kelly Souto é doutora em Ciências da Religião e em Filosofia, professora da PUC-Goiás e colaboradora do Jornal Opção.