Marina Teixeira da Silva Canedo

Especial para o Jornal Opção

O Brasil teve, ao longo de sua história, um grupo específico de pessoas que muito influenciaram em seu desenvolvimento. São os religiosos católicos, que para cá vieram a mando da Coroa Portuguesa e da Igreja Católica. Dentre eles sobressaem-se os jesuítas, que tiveram atuação eficaz na sociedade ainda em formação. Muito contribuíram na educação, construindo colégios em diversas regiões do país, e dedicando-se ao ensino regular e religioso. Mas não pararam por aí. Dedicaram-se sobremaneira à catequese dos indígenas, no que foram contra os interesses tanto da coroa portuguesa como dos colonos e dos governos locais.

Um dos mais importantes jesuítas foi o padre Antônio Vieira (1608-1697), nascido em Lisboa, mas criado na Bahia, para onde foi com seus pais quando tinha apenas quatro anos de idade. Jovem de temperamento forte, logo optou pelo estudo da teologia e do latim tornando-se jesuíta, famoso pelo seu grande conhecimento desde os dezessete anos.

Ao ler sobre sua vida e obra (“Essencial”, de Padre Antônio Vieira, com organização e introdução de Alfredo Bosi, Companhia das Letras, 755 páginas), três coisas ficam bem evidentes: seu brilhantismo no conhecimento da língua portuguesa, sua retórica impecável e seu trabalho incessante na proteção aos silvícolas; atividades díspares, às quais se dedicou durante toda a sua vida. Em Portugal, brilhava nos mais importantes púlpitos e era admirado em vários países, como na Áustria, Espanha, Roma, França e até no México. Foi assessor e confessor do rei Dom João IV, a quem muito admirava e com quem mantinha estreitos laços. No Brasil, além dos famosos sermões proferidos para o povo, foi perseguido e expatriado, sofrendo constantes humilhações. Foi expulso do Maranhão em 1661 e obrigado a retornar a Lisboa.

Padre Antônio Vieira capa de Essencial

Defensor de indígenas, judeus e cristãos-novos

Padre Vieira escreveu cerca de 700 cartas e 200 sermões, muitas vezes dentro de canoas, em suas visitas às aldeias mais distantes no Grão-Pará e Maranhão. Sua vida foi pautada pela defesa incessante dos indígenas, que eram perseguidos e aprisionados pelos colonos e bandeirantes paulistas. Tornou-se um “inimigo público”, o que não lhe arrefeceu seus ideais cristãos na luta pela defesa dos mais fracos e desprotegidos. Além dos indígenas, defendeu e lutou a favor dos judeus e cristãos-novos, o que lhe valeu a fúria dos inquisidores. Padre Vieira foi acusado, julgado e condenado pela poderosa Inquisição, o que lhe rendeu longos anos no processo de defesa.

As epístolas e sermões de Vieira representam um acervo inestimável do que é considerado a mais valiosa joia, o suprassumo da literatura sacra barroca portuguesa. Não por outro motivo que o padre Antônio Vieira foi considerado o Imperador da Língua Portuguesa pelo poeta português Fernando Pessoa.

Versado em gramática, retórica, filosofia, latim clássico e eclesiástico, sua formação intelectual era a mais pura aspiração da formação jesuítica. Os sermões de Vieira caracterizavam-se por uma retórica impecável, fundada no raciocínio lógico e redigida no mais perfeito e castiço português barroco. O rigor sintático e dialético que caracterizavam sua escrita, deixavam-na, ao mesmo tempo, clara e simples. Partindo de uma ou mais premissas, desenvolvia os temas até chegar às conclusões finais desejadas.

Padre Antônio Vieira capa de Sermão da Sexagésima 1

O sermão da Sexagésima: de 1655

Sua escrita era essencialmente simbólica e comparativa. Assim, ele construiu o que é considerado o seu mais famoso sermão, o Sermão da Sexagésima, que foi pregado na Capela Real, no ano de 1655, em Lisboa. A Sexagésima pertence ao calendário litúrgico da Igreja Católica e significa o sexagésimo dia antes da Páscoa. A plateia que se reuniu para ouvi-lo foi formada pela nobreza, incluindo o rei Dom João IV, pela elite política e intelectual da época e pelos clérigos e religiosos, que para lá acorreram para ouvir as lições do grande pregador. O sermão foi brilhante. Vieira utilizou-se da Parábola do Semeador, relatada por Jesus nos evangelhos sinóticos (Mt 13: 1 a-23, Mc 4:1-20 e Lc 8:4-15). O objetivo de Vieira foi conclamar os pregadores a pregarem, de fato, a palavra de Deus, e não se utilizarem de interpretações subjetivas e antidogmáticas.

Seu objetivo principal foi o de alertar os pregadores para a fidelidade à Palavra: “As palavras de Deus pregadas no sentido em que Deus as disse, são palavras de Deus, mas pregadas no sentido que nós queremos, não são palavras de Deus, antes podem ser palavras do demônio”. Vieira diz que assim procediam muitos pregadores, e podemos dizer que, nos dias atuais, continuam a proceder da mesma forma: é o uso distorcido dos ensinamentos bíblicos, usados para a obtenção de conclusões enganosas e simuladoras para benefícios específicos.

Padre Antônio Vieira, nas trinta e seis páginas da Sexagésima, dá à Parábola do Semeador uma interpretação holística em que todos os elementos do discurso são analisados exaustivamente. Através de estratégias retóricas argumentativas todos os sentidos contidos no texto foram dialeticamente analisados por ele.

Padre Antônio Vieira ok3 Capa do sermão da Sexagésima

As parábolas foram figuras de linguagem utilizadas por Cristo para a melhor compreensão de suas mensagens, e parábola significa metáfora, quando a relação de semelhança facilita a compreensão da mensagem. Vieira estabelece algumas regras a serem observadas pelos padres: O pregador deve observar a forma e o conteúdo da mensagem. Quanto à forma, esta deve ser clara e o estilo de fácil compreensão. Quanto ao conteúdo, este deve conter um só assunto, para que seja bem compreendido pelo público.

Na Parábola do Semeador, as sementes são a palavra de Deus, o semeador é o pregador e os quatro terrenos onde são jogadas as sementes são os ouvintes. Dos quatros terrenos em que caíram as sementes de trigo, jogadas por quem semeava, em apenas um elas prosperaram e produziram grandes quantidades de trigo. Comparando as sementes à mensagem de Deus, conclui que pode ter sido pela falha dos ouvintes, que não sabem ouvir, mas, sobretudo, pelas falhas dos pregadores que não sabem penetrar na mente dos fiéis, tal como as sementes que caíram nos espinhos, nas pedras e nos caminhos e que foram comidas pelos pássaros.

Prossegue, ainda sobre as escrituras mal interpretadas, dizendo que “essa é a tentação de que mais padece hoje a Igreja, e que em muitas partes tem derrubado dela, se não a Cristo, a sua fé.” O pregador, mesmo que “infamado, deve pregar o que convém, ainda que seja com descrédito de sua fama”.

Já no final de seu famoso sermão, Vieira completa seu pensamento dizendo: “Semeadores do Evangelho, eis aqui o que devemos pretender nos nossos sermões, não que os homens saiam contentes de nós, senão que saiam muito descontentes de si”.

Padre Antônio Vieira com indígenas 333
Padre Antônio Vieira escreveu obras-primas tanto como literatura quanto como religião | Foto: Reprodução

Enfim, percebemos que a tarefa do pregador continua tendo que trilhar os ensinamentos do padre Antônio Vieira, já preconizados por Cristo, e que os erros de então continuam a existir de forma mais generalizada e perigosa, não apenas na Igreja Católica, mas em todas as Igrejas chamadas cristãs.

Purismo estético-linguístico-religioso

Seu grande Sermão da Sexagésima fica registrado como modelo de purismo estético-linguístico-religioso da escrita barroca e como uma das mais belas páginas do ensinamento católico. O corpo do discurso é elaborado no formato dialético, lançando teses e antíteses que se afunilam em sínteses. É uma página impecável da literatura católica.

A grande figura humana do padre Antônio Vieira que, para nós, serve como reflexão e exemplo a ser seguido, teve, como humano que foi, também suas falhas. A mais evidente foi sua crendice a respeito do Quinto Império do Mundo, teorias proféticas de um certo sapateiro, chamado Gonsalianes Bandarra, que previam a ressurreição de Dom João IV, querido por Vieira, que instituiria um governo mundial português que salvaria o mundo. Os quatro impérios anteriores foram o Assírio, o Persa, o Grego e o Romano. Por essa heresia ele foi julgado pelo Tribunal da Santa Inquisição, sofrendo duros golpes. O processo correu por cinco anos, ao final dos quais ele já se encontrava muito doente e tendo que responder a interrogatórios.

O uso de transposições de personagens e de fatos da história bíblica para o presente, constituiu-se em argumentos que Vieira usava para “provar” a ação de Deus no seu presente tempo. Transpôs, para o sapateiro Bandarra, o crédito dado ao profeta Isaías sobre o “servo sofredor”, a morte e ressurreição do Salvador da humanidade, Jesus Cristo e baseou-se também no profeta Daniel quando esse interpretou o sonho de Nabucodonosor.

Um equívoco de um sonhador que desejava encontrar nas Escrituras a salvação do mundo real, material e político, através da ressurreição de seu admirado rei Dom João IV, motivo pelo qual o professor Alfredo Bosi se refere a Vieira como “temerário vidente e incurável sonhador”. Essa interpretação inadequada, fantasiosa e sem base bíblica e factual, estava em consoante discordância de seus ensinamentos no Sermão da Sexagésima, no qual ele dizia da impropriedade de interpretações que não correspondessem à palavra de Deus. Também não assumiu a luta contra a escravidão negra, fechando, muitas vezes, os olhos para o assunto. Pregou vários sermões para os negros, sempre conclamando-os à resignação, apesar de reconhecer a vida de grandes sofrimentos que levavam (Sermões do Rosário aos pretos).

A argumentação do grande pregador tinha seus vícios interpretativos, muitas vezes forçando o significado do texto bíblico aos seus objetivos.

A sobriedade e imparcialidade do pensamento racional e crítico nem sempre acompanham as mentes brilhantes, e este foi o caso do padre Vieira. Ele foi produto de uma época, o barroco século XVII, e entregou-se aos seus ideais de corpo e alma. Escreveu as mais belas páginas da literatura sacra portuguesa sendo considerado o maior pregador português de todos os tempos, e dedicou toda a sua vida às causas humanitárias e religiosas e a combater os desmandos das autoridades. Foi um grande e destemido luso-brasileiro, uma das mais importantes personalidades da nossa história. O Sermão da Sexagésima continua sendo uma peça atual, e deve ser lida e relida como orientação aos cristãos de qualquer denominação e como exemplo de perfeito uso da língua portuguesa.

Marina Teixeira da Silva Canedo, escritor e crítico literário, é colaborador do Jornal Opção.