Nikolai Tikhonov é uma das mais relevantes vozes da poesia soviética

Astier Basílio

Uma das principais vozes da poesia soviética, Nikolai Tikhonov (1896-1979) se notabilizou por seus poemas sobre a guerra civil (na década de 1920), como os que traduzimos abaixo.

Balada dos pregos

Calmo fumou o cachimbo até que saciasse,

Calmo apagou o riso estampado na face.

À frente, oficiais! Companhia, em guarda!

O comandante vai, surda é sua passada.

Uma outra vez se alinham, nenhum deles treme:

“Levantar âncora às oito. A leste o leme.

E quem tiver esposa, crianças, irmãos, pais:

Escrevam-lhes dizendo: ninguém volta mais”.

Em compensação há um ótimo boliche

Um “positivo”, ao capitão, o imediato disse.

E o mais ousado entre eles, o mais jovem,

Olha os raios de sol que na água se movem.

“Que diferença faz”, ele diz, “não seria

Mais tranquilo pra nós deitar na maresia ?”.

No ouvido do almirante o amanhecer já vem:

“Ordem cumprida. Não sobreviveu ninguém”.

Se desse pra forjar uns pregos dessa gente

O mundo não ia ter  prego mais resistente.

(1919-1922)

Nikolai Tikhonov poeta e prosador russo
Nikolai Tikhonov

Perekop¹

Estrelas se espalham, diamante fugaz,

Entre os ciprestes a calma varre o chão.

Rifle, cartucheira, máscara de gás,

Três pessoas têm que dividir um pão.

Feito renda azul, de fino tecido,

A névoa sobre as vinhas caiu num bordado.

Quarto ano e à noite ninguém têm dormido

Fogo e fumaça, a fome abre rugidos,

Mas à ordem dada é fiel o soldado

“Aos regimentos vermelhos,

De arapuca em arapuca…”

… Baioneta engasgou-se, a coronha ao meio,

Um laço assobia na nuca.

Luta pelo mar, pelas serras e céus

Cada passo: o deles e o nosso que se ache,

Caindo das serras alados lebréus

Como pontes vivas a cobrir Sivash².

Entretanto os mortos, antes de cair,

Seguem adiante com sua passada

Nem bala ou granada têm poder aqui

Não é nossa vez de ir em retaguarda.

Atrás de nós crianças sem olhos, sem pés,

Crianças da dor e da mágoa;

Atrás de nós cidades, pistas em revés,

Onde não há pão, nem há fogo, nem água. 

Além do monte, onde há um paraíso em pomar,

Mesmo que seja miragem ou feitiço.

Quando milhares gritam a palavra: “Dá!”

Um furacão não é mais forte que isso.

E quando atrás das nuvens a lua vem turva

Como olho de peixe espalhou veloz,

Sob baionetas rotas, que o sangue as fez ruivas,

O sol foi desabando em cima de nós.

Golfinhos brincavam nos longes vazios,

A vastidão gaivotas pôs afora

E longos e cinzentos navios

Deram uma volta em direção ao Bósforo.

Sob árvores nos deitamos, era tranquila

A grama enquanto aguardávamos o sono

A primeira vez sem sangue e sem vigília,

A primeira vez durante quatro anos…

Foi sonho: mesmo em um século de vida

Ainda assim não era algo pra se olhar

Sobre esse assunto canções não são pedidas

Nem é possível simplesmente narrar!

(1922)

¹ Última grande batalha da Guerra Civil Russa, que resultou na tomada da Crimeia pelo Exército Vermelho e na fuga das tropas do barão Wrangel.

² Também conhecido como Mar Podre é um golfo na parte ocidental do mar de Azov que separa a península da Crimeia do continente. Por ele passa a fronteira entre a República da Crimeia e a região de Kherson.