Mariinha de dona Antônia
02 maio 2026 às 21h00

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Fernando Cupertino
Especial para o Jornal Opção
Mariinha era uma menina branquela e magrinha, na faixa de 12 para 13 anos, que tinha vindo para a casa de dona Antônia porque, supostamente, seria sua neta, filha natural do Dr. Tarquínio, seu primogênito, nos tempos em que andou lá por Buriti Alegre, no início da sua carreira de advogado, pouco mais de uma década antes.
A velha, ciosa como era dessas questões de família, quando soube da conversa de que ele teria deixado por lá essa filha, tanto fez que terminou por escarafunchar o assunto até descobrir um jeito de mandar buscá-la. Queria conhecer a suposta neta, embora o filho negasse de pés juntos a pretendida paternidade. Tratava-se, segundo ele, de uma tentativa de golpe de uma fulana com quem ele estivera mesmo enrabichado naqueles tempos, mas coisa passageira e sem maiores consequências.
Mariinha, porém, não era o nome da menina. Na verdade, o nome de batismo era Vilma, mas dona Chiquinha Antunes, tia de dona Antônia, logo meteu sua colher de pau na estória: — Vilma não é um bom nome. Além de vil, má! Carece mudar o nome dessa menina.
Dona Antônia, muito supersticiosa, pôs logo sentido na ponderação da velha tia e decretou: — Vai se chamar Maria, como Nossa Senhora!
Mas como era franzina e miúda, de Maria para Mariinha foi um passo. E assim, a menina passou a fazer parte da família, ainda que submetida a uma espécie de estágio probatório, enquanto o desenrolar da comprovação da imputada paternidade se arrastava, com os meios da época.
A mãe, que permanecera em Buriti Alegre, insistia em sua versão, para cuja robustez buscou o testemunho frágil e dúbio de algumas comadres e pessoas de seu convívio próximo, no sentido de atestar suas relações carnais com o jovem advogado, com quem vivera amigada por uns tempos. Este, por sua vez, fez valer as relações construídas naquela cidade, na tentativa de desacreditar a versão da vigarista — como ele a rotulava. Todavia, naquele tempo, coisas dessa natureza não se resolviam rapidamente.
Assim, Mariinha foi ficando na casa de dona Antônia que, doida por crianças, já não escondia a satisfação de ser chamada de Vó ou de estender a mão, solenemente, quando a menina dizia “bença, Vó” e se inclinava para ali depositar o beijo respeitoso que era devido.
Àquela altura, Dr. Tarquínio, de olho em uma das filhas do Coronel Quintino, amargava a absoluta indiferença da moça e a desaprovação dos pais a suas tentativas de fazer-lhe a corte, pois a fama o precedia: — Deus me livre! Já tem filha na rua com mulher à-toa… não serve para meu genro, dizia dona Zenaide ao Coronel Quintino.
Este, sem ver no rapaz os requisitos econômicos ou sociais que trouxessem vantagem com aquele matrimônio, limitava-se a concordar com a mulher, e encerrava por ali o assunto. Assim, o advogado recorreu ao delegado de polícia de Buriti Alegre e pediu-lhe ajuda para encerrar de vez aquela situação incômoda. Diligências foram feitas; testemunhas, inquiridas; a acusadora apertada a não mais poder, até chegar-se à conclusão de que não havia mesmo possibilidade de se atribuir a paternidade pretendida.
Ela, preocupada em assegurar um futuro mais risonho à filha, havia urdido toda a trama, mas terminara por confessar à autoridade que o pai era mesmo outro, um peão-de-trecho que passara por ali conduzindo uma boiada e com quem se relacionara muito brevemente, tendo a gravidez como consequência.
Quando a boa notícia da retratação do fato chegou a suas mãos, Dr. Tarquínio espalhou-a aos quatro ventos, procurando, com isso, exorcizar de vez a má fama que pesava sobre seu nome, especialmente junto às moças de boa família.
Por outro lado, Dona Antônia foi tomada por grande desassossego e submetida a um dilema atroz: o que fazer agora, quando já havia se apegado tanto a Mariinha?
Não, haveria de existir alguma solução! Perguntou à menina sobre suas preferências: se permanecer ali, onde tinha tudo do bom e do melhor — o que foi bastante ressaltado pela matriarca — ou voltar ao convívio de sua mãe, lá na distante Buriti Alegre.
Não houve meio: Mariinha queria ficar, por todos os meios. O jeito foi dona Antônia meter em marcha toda uma engrenagem de boas relações e influências, graças a um compadre desembargador, que tratou de orientá-la como proceder. O filho, a essa altura, não queria nem saber do assunto. Por ele, era mandar a menina de volta às origens e ponto final.
A mãe, consultada por alguém especialmente encarregado da tarefa, concordou com a adoção de Mariinha por dona Antônia, mediante um pequeno incentivo em dinheiro de modo a facilitar a decisão, naturalmente.
Papéis assinados, depois de tudo sacramentado, dona Antônia agora ostentava diante da sociedade local a filha adotiva que, entretanto, continuava a chamá-la de avó. O filho já havia se conformado com a decisão tomada, e até já fora aceito para namoro com uma moça muito distinta e de grande beleza, a Iracema, filha do Coronel Hilário.
Dona Antônia, que pegara muito gosto com esse negócio de ser avó, mesmo sem ser, emitiu logo uma determinação ao Dr. Tarquínio: — E você, Quininho, trate de arranjar logo esse casamento e de fabricar muitos netos. Gostei muito dessa estória de ser avó e quero mais. Muito mais!
Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.

