G., de John Berger, é um romance complexo e sensual, com ambientação histórica
02 maio 2026 às 21h00

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Mariza Santana
“G.”, romance do escritor britânico John Berger, é um livro complexo e sensual, cujo protagonista, do qual sabemos somente a inicial do nome, é um jovem dom juan europeu que vive no início do século XX. Ele testemunha alguns momentos históricos do Velho Continente, incluindo os dias que antecederam a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e os primórdios da aviação.
O autor mistura a narrativa das aventuras de G., com conversas e questionamentos destinados diretamente ao leitor, e ainda trechos sensuais e picantes. A trajetória de G. é contada antes mesmo de seu nascimento, por meio do relacionamento dos seus pais — um rico comerciante burguês de Livorno, na Itália, e uma norte-americana, que era a amante do italiano. Depois que nasceu, chamado pelo escritor simplesmente de menino, ele é criado na fazenda dos primos da mãe na Inglaterra, onde permanece até a adolescência.

As experiências sensuais e sexuais de G. apresentadas na obra começam pela sua preceptora (uma paixonite de menino), passando pela prima da mãe quando está na adolescência, até ser retratado como um verdadeiro conquistador, que se sente atraído principalmente por mulheres casadas e/ou comprometidas. Esta preferência lhe traz problemas com os maridos a serem traídos, mas não o desvia do objetivo, que é a conquista de mais um exemplar do sexo feminino.
Entretanto, o autor não deixa vislumbrar muito dos sentimentos e das escolhas de G., que, como filho único do rico comerciante de Livorno, se torna herdeiro de uma fortuna que lhe abre as portas dos lugares frequentados pela alta burguesia europeia em diversos países. O autor cita ainda um herói da aviação, que consegue transpor os Alpes em sua aeronave, mas falha no momento final da aterrissagem.
O burguês e as insurreições
No final do romance, G. está em busca de conquistar a mulher de um banqueiro de Trieste, hoje cidade portuária no nordeste italiano, que na época estava sob o domínio do Império Austro-Húngaro.

A época foi de muita agitação política e movimentos nacionalistas, que culminariam com o conflito armado entre nações europeias. O período citado se refere a poucos dias antes do início da Primeira Guerra Mundial, hoje chamada “a guerra de trincheiras” (na época, até 1939, era chamada de a Grande Guerra). Porém, o jovem se vê envolvido com uma mulher simples, de origem eslovena, e com a atuação do libertário irmão dela. O burguês acaba sendo tragado pela força das insurreições com um desfecho imprevisível.
Literatura não linear e digressiva
G. é, ao mesmo tempo, um romance interessante e um pouco cansativo, pois o escritor interrompe um momento atraente da narrativa para dialogar com o leitor, meio ao modo de Machado de Assis. Entretanto, ele quebra a sequência dos acontecimentos, o que causa uma certa agonia em quem está seguindo avidamente a história da vida do jovem burguês europeu rico e sem um grande objetivo em sua trajetória. A literatura moderna, como se sabe, tende a não ser linear e, frequentemente, é digressiva.
John Berger foi um eminente crítico de arte, romancista e escritor inglês. Nasceu em Londres, em 1926, e faleceu na França, aos 90 anos de idade. No ano de 1972, ganhou o Booker Prize com o romance “G.” Outra obra de sua autoria de destaque é o ensaio introdutório em crítica de arte “Ways of Seeing”. Em 1962, o escritor deixou a Grã-Bretanha em definitivo e se mudou para os Alpes Franceses.
Mariza Santana é jornalista e crítica literária.
(Email: [email protected])

