O Lugar Sem Limites, romance de José Donoso, é complexo e contém pontos de vista narrativos diferentes
02 maio 2026 às 21h00

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Roberson Guimarães
“O Lugar Sem Limites” (Mundaréu, 136 páginas, Lucas Lazzaretti, de 1966), romance do escritor chileno, José Donoso, desvenda as lutas internas de um povoado decadente El Olivo dominado pelo oligarca Alejandro Cruz. A história é centrada nas situações que surgem como resultado das ações de Manuela, um “maricas travesti”, enquanto ele/ela navega pelas fronteiras tradicionais de sexo e gênero.
Cronologicamente, os limites são apertados, menos de 24 horas: de cerca de dez horas da manhã de um domingo até cerca de cinco horas da manhã do dia seguinte. A narração é quase linear e cronológica, com exceção de um flashback, nos capítulos 6 e 7, de um momento 20 anos antes que explica as origens de certos relacionamentos-chave; dado o foco frequente nas memórias dos personagens, no entanto, todos os capítulos, exceto os dois últimos, contêm considerável material retrospectivo.

O cenário é estreitamente circunscrito; tudo se passa em uma aldeia sórdida e miserável perto da cidade de Talca, na região vinícola do Chile, em grande parte em um bordel, mais brevemente na igreja e na fazenda (a natureza emblemática desses locais é autoevidente).
O ponto de vista narrativo é bastante complexo, começando com um estilo livre e indireto usado por um narrador aparentemente tradicional em terceira pessoa, que logo é substituído pela consciência narrativa em primeira pessoa de “la Manuela”, meia proprietária do bordel e narradora principal.

Outras perspectivas narrativas pertencem à filha de 18 anos de Manuela, Japonesita, e ao caminhoneiro Pancho, um machão-rebelde que se recusou a trabalhar para o fazendeiro e chefe político local, Don Alejo.
Basicamente, três subdivisões naturais podem ser distinguidas, com os cinco capítulos iniciais dedicados à antecipação e ao medo, o interlúdio consistindo no flashback de duas décadas antes e uma terceira seção de encontros em que eventos antecipados ou temidos inicialmente são encenados.
O mal-estar original de Manuela resulta da notícia do retorno de Pancho. Valentão e machão estereotipado, ele espancou e ameaçou Manuela em ocasiões anteriores — geralmente após bebedeiras no bordel (o único lugar na cidade).

Apesar do autoengano de Manuela, o leitor percebe que seu medo é ambivalente e misturado ao desejo, já que a força, a virilidade, a enorme estatura e a atratividade bruta de Pancho são repetidamente notadas.
Manuela perde a própria identidade para assumir o controle de sua história. Manuela é Manuel González Astica. Manuela, dessa forma, torna-se a bicha, a homossexual e a prostituta do lugar.
Apesar de sua pobreza, apesar de toda a miséria ao redor, ela não hesita em ser a vida e a alma de cada festa realizada no bordel; apesar de sua idade, não hesita em ser a artista do lugar. A tensão vital entre o que se é e o que não se é gira em torno de Manuela, assim como talvez gire em torno de todos os habitantes de El Olivo e da própria cidade.
A desorientação radical não é o tom da peça como narrativa, mas sim na medida em que cada personagem precisa se conformar com sua própria história.
É o que acontece com Manuela, que, depois da dança e das seduções, quer escapar, ir para outro lugar para continuar a celebração e, por que não, redimir a vida de alguns dos presentes. Mas tal ação era pretensiosa, já que a própria homossexualidade de Manuela trai qualquer possibilidade de partir.
O livro foi adaptado para o cinema pelo mexicano Arturo Ripstein em 1978 e foi um dos indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro.
Roberson Guimarães, médico e crítico literário, é colaborador do Jornal Opção.

