Terra Dividida, de Eltânia André, é um romance cinematográfico

Pelo minimalismo, o livro da escritora brasileira radicada em Portugal lembra a trilha sonora de Philip Glass para o documentário “Koyaanisqatsi” 

W. J. Solha

Especial para o Jornal Opção

O romance “Terra Dividida” (Laranja Original, 316 páginas), de Eltânia André, lembra-me a trilha sonora de Philip Glass para o longo documentário “Koyaanisqatsi”, de Godfrey Reggio, pelo minimalismo. Se bem que ele mesmo já disse que “aquela palavra [minimalismo] deveria ser extinta” (That word should be stamped out!).

Como a paraibana Marília Arnaud, a mineira de Cataguases, hoje em Lisboa, não tem pressa. O dia a dia da vidinha feminina interiorana “como era no princípio, agora e sempre (e pelos séculos dos séculos)” segue nesse passo de via sacra até a penúltima página, 310, com “todos os canais noticiando a votação do Impeachment da Dilma”, Bolsonaro dizendo: “Pela família e pela inocência das crianças em salas de aula que o PT nunca teve, contra o comunismo, pela nossa liberdade, pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra — o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, por um Brasil acima de tudo, por Deus acima de todos, meu voto é sim!”

Quando, na pré-produção do primeiro longa da Paraíba, “O Salário da Morte”, em 1969, mandei, de Pombal, alto sertão nordestino, uma relação dos mais recentes investidores do filme pro sócio Zé Bezerra — que não mais vivia lá —, soube que nosso contador Miróscene, em João Pessoa, disse: “Pia, pia que coisa mais linda!” — e leu: “Zé de Tó, Pedão, Nena, Chiquinho Formiga e Chico do Ó”!” Veja como se chamam as oito partes de “Terra Dividida”: “Eneida”, “Socorrinha”, “Naira”, “Nádia”, “Antígonas”, “Basílio”, “Nena” e “Almeidinha”.

Claro que me senti em casa, lendo o romance de Eltânia André. Ante minhas primeiras cartas, em 1963, quando cheguei a Pombal, minha irmã reagiu, lá de outro interior, o paulista: “Que lugar é esse, tão pequeno, em que acontece tanta coisa?”

Eltânia André: escritora | Foto: Divulgação

— Nada mudou e tudo mudou — conta Eneida, a primeira narradora — vivemos no hiato entre o novíssimo e a tradição de séculos. (…) Sei não, está bem chato e careta o mundo, não acha? ( …) O José Carlos prestava serviço para a funerária e saía pela cidade numa bicicleta equipada com uma caixa de som, anunciando as notas de falecimento e os horários dos enterros. (…) Agora é pelo Facebook. (…) Vi uma turma de jovens passarem correndo, num jogo virtual ( …) à procura de uma espécie de monstro, o Pókemon. Não é engraçadinho? (…) No sentido contrário, o Toninho da Pedra Bonita vinha com o semblante preocupado. Estava procurando a Pureza, sua burrinha.

— “Uma idiota, esta que vos fala, amante do lugar comum, das inutilidades e repetições”: isso é o minimalismo (That word should be stamped out!) a que me referi acima.

Mas… “Terra Dividida” — pela lenta e sistemática pressão — poderia ter o título de uma famosa novela de Henry James, “The Turn of the Screw”, que no Brasil se chama “A Volta do Parafuso” e, em Portugal, de onde a romancista nos escreve, “A Outra Volta do Parafuso”. E é aqui que a porca torce o rabo. Leia, na página 33: — Quando me recordo do jeito controlador com que o papai se dirigia à nossa mãe, às mulheres, aos funcionários, fica claro que fui mais uma a corresponder aos seus mandos e caprichos. A boca dele se enchia constantemente de saliva, o ato de cuspir era o seu vício de macho. Isso vai evoluir, ao longo do livro, até ecoar no voto de Bolsonaro pelo impeachment de Dilma.

Os negros estão reagindo: “Morri no ano passado, mas este ano eu não morro” — escreveu Zé Limeira — ou alguém no nome dele — lá de Teixeira, Paraíba, e isso ressoou no Teatro Municipal de São Paulo lotado, agora há pouco. Já o BaianaSystem adotou os versos de cordel com os cinco mandamentos da resistência não-violenta que escrevi pra “Cantata pra Alagamar”, do maestro Kaplan, em 1978. E as mulheres? Idem.

Eneida, página 45: — Jaime me dizia que eu deveria pensar em mim e que papai poderia se casar novamente, uma madrasta para cuidar das obrigações de casa. Cuidar das obrigações da casa, era o lugar da mulher aos olhos dele?

E atenção nas páginas 49 e 50: “— Aquelas mãos (de mamãe) tão parecidas com as minhas, o sorriso espontâneo transmitindo segurança aos filhos” (lembrei-me do provocador quadro de Courbet: “A origem do mundo”).

Aí está. Vá ao Google Imagens e veja a reprodução dessa pintura. E decida se tem de ler “Terra Dividida” ou não.

Waldemar José Solha, escritor, crítico, ensaísta, pintor ator e autor teatral, com vasta e premiada obra, entre as quais se destacam “A História Universal da Angústia”, “Trigal dos Corvos” e “Relato de Prócula”.

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