“Temporada” mostra realidade brasileira

De baixo orçamento, filme mostra a precariedade do combate aos mosquitos aedes-egypti, cuja eficácia deve ser bastante duvidosa. Obra foi bem recebida pela crítica

Foto: Divulgação

Por Rui Martins**
Especial para o Jornal Opção

O filme brasileiro Temporada, do mineiro André Novais Oliveira, foi muito bem recebido pela crítica por sua autenticidade, por mostrar a realidade brasileira, após sua exibição na mostra paralela Cineastas de Hoje, onde concorre com outros diretores de primeiros filmes.

Inspirado na ação dos agentes sanitários contra o mosquito aedes-egypti, o realizador brasileiro André Novais Teixeira, criou a agente Juliana encarregada de visitas de porta-a-porta para evitar a proliferação das larvas do mosquito vetor da dengue e zika em água empoçada em potes de plantas, pneus velhos ou poças de água parada nos jardins. Juliana é atriz profissional, a conhecida Grace Passô, há alguns atores de teatro, mas a maioria dos participantes são amadores e mesmo familiares do diretor do filme.

É o caso do seu irmão, na cena de amor mais sexy do Festival com Juliana, que foge aos padrões cinematográficos por serem ambos obesos. Além de transpor para a tela a realidade popular das periferias das cidades brasileira, no caso Contagem, perto de Belo Horizonte, num retrato fiel da população negra vivendo mal em cortiços, alimentando-se mal e ganhando salários mínimos miseráveis, o filme Temporada mostra sem preconceitos como a aparência física dos brasileiros, denunciada já pela OMS, vai sendo a da obesidade, consequente da má alimentação.

André não conta e talvez nem tenha percebido, mas o filme mostra a precariedade do combate aos mosquitos, cuja eficácia deve ser bastante duvidosa.

“O filme vem da minha observação do pessoal que trabalha nas periferias no combate às endemias. Juliana vem do interior de Minas para trabalhar em Contagem na região metropolitana”, conta André. E essa mudança geográfica de Juliana implica também numa mudança de vida e numa abertura, já que passar a conhecer os moradores com suas visitas para alertar contra a proliferação dos mosquitos.

Um filme de pequeno orçamento que é um retrato fiel da realidade brasileira, na qual se misturam a pobreza e aceitação passiva dos pobres trabalhadores nas suas atividades precárias mesmo quando se trata do combate das doenças, num país onde também não se construiu nenhuma infraestrutura social e sanitária nesta tão decantada última década.

**Rui Martins está em Locarno convidado pelo Festival Internacional de Cinema de Locarno

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