No SUS

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Paulo Lima

Enzo ainda tava machucado. Dois anos de relação e a noiva o largou por causa de um empregado do pai, bom de lábia, mau caráter e interesseiro. Precisava tirá-la da cabeça. Enquanto pensamentos melhores não vinham, entrava num pos­tinho do SUS para pedir uma guia de consulta médica. Pegou uma senha e se sentou em meio a dezenas de pessoas impacientes, numa espera à qual não estava acostumado.

Não demorou reparar numa atendente um tanto diferente. Ruiva, olhos azuis, corpo de modelo que só se vê em programa de auditório, beleza estonteante sob qualquer ângulo. Não mais que uns 22 anos. Olhou com mais atenção pra moça, sentiu atração. Homens são atraídos por mulheres bonitas, é fato. Outro fato é que no atendimento ao público, é normal o sistema sair do ar. Foi o que aconteceu.

Gente esperando de um lado, funcionários jogando conver­sa fora do outro.

― Que cara é essa, menina?

― Ai, Larissa! É o Roberto… Terminou comigo na semana passada e já engatou com outra.

― Colega, é normal. A fila anda e homem é tudo igual.

― Eu sei. Mas fiquei sabendo que ele me trocou pela filha do chefe. Mulherzinha comum, daquelas que usam um quilo de maquiagem e toma um banho de loja para ficar no máximo bo­nitinha.

― É ruim!

― Num é? E só porque ela tem dinheiro…

― Esquece… Ou melhor, dá o troco. Arranja um carinha abonado e esnoba o Beto também.

― A ideia é ótima. E onde que eu vou arrumar um desses? Aqui no SUS?

― De repente… Ah, sei lá. Muda de emprego, ué!

― Eu nessa onda de azar e você quer que eu tenha sorte duas vezes? Só você mesma!

Suspiro…

O tempo passa, o calor aumenta com a respiração de to­dos no mesmo ambiente, e nada de o sistema voltar. Enzo toma coragem e vai até os guichês. Se aproxima, olha pro crachá, faz a abordagem. Novidade para ele, que sempre levava cantadas sem precisar tomar a iniciativa.

― Suelena, certo?

― Pois, não?

― Então… ― continuou a conversa, sentando-se em segui­da. ― O sistema está fora do ar e pode voltar a qualquer momen­to. Não sou o próximo da fila, então serei bem direto. Gostei do jeito simpático e atencioso como você recebe as pessoas. Preciso muito de uma companhia agradável, alguém para conversar. O que você acha de a gente sair hoje à noite? Se você não tiver na­morado, é claro. Pode ser um jantar, um happy hour talvez, o que for melhor pra você.
Nem ele estava acreditando que fora tão direto. Mas ela também foi, e bem seca.

― Não sei… Eu não tenho carro e…

― Sem problemas. Eu tenha uma Ferrari amarela, presente do meu pai, está estacionada lá fora. Mas se você não quiser cha­mar a atenção, coisa que eu também não gosto, podemos ir de Civic. Tenho três carros, um para cada situação.

― Sei…

A moça deu o segundo suspiro longo do dia e pôs fim à conversa.

― Olha moço, é que eu tenho namorado, sabe?

Definitivamente ele não esperava por aquele banho de água fria.

― Ah… Claro! Poxa, me desculpe. Entendo perfeitamente. Não quero causar confusão. Normal, uma garota tão bonita, im­possível não ter um namorado… De qualquer forma, obrigado pela atenção. Vou voltar e aguardar minha vez. Obrigado mesmo!

― Sem problemas.

O rapaz se afastou e foi a vez da colega ao lado cair matan­do.

― Suuuu! Que tooocoooo! Rapaz super simpático, educado, bem vestido, parece até gente boa…

― Também achei tudo isso. Mas já começou errando, dan­do pinta de riquinho.

― Ué… E você não mentiu não? Quem terminou namoro na semana passada?

― Elas por elas!

― Aff…

De volta às cadeiras, Enzo pega seu Ipad e responde cha­mada no What’s up.

“Enzo na linha?”

“Eu!”

“Seguinte… Preciso de uma modelo para evento hoje à noi­te. Tem que ser pra lá de linda. Contratação direta, sem agência, não dá tempo. Pago adiantado, o dobro do mercado. Lançamento imobiliário, classe A. Conhece alguma?”

“Estou de frente para uma. Mas ela não vai topar. Fico de­vendo.”

“Insiste aí! Uma noite só. Pago o triplo!”

“Já sei que ela vai dizer não. Se souber de outra, te aviso.”

“Valeu, mano. Deixa eu correr. Te +!”

“Té”

Enquanto ele manuseava o laptop, a ruiva o mirou nova­mente. “Rapaz metido! Deve ser profissional da cantada.”, pen­sou. Mas sentiu que tinha sido fria. Pediria desculpas um dia, se tivesse oportunidade. E teve. Dez minutos depois o sistema vol­tou ao ar e minutos depois a senha dele o levou ao guichê dela. Sem graça, ele lhe deu o pedido.

― Você não é Maria de Lurdes, né? ― comentou ela com sorriso meio forçado, tentando amenizar o clima ruim que gerou.

― Não. É a minha diarista. Moro sozinho. Cobertura no Se­tor Bueno. Eu estava saindo, ela pediu um favorzinho. Eu tava com tempo, podia ajudar. Ele é muito boa pra mim, não podia dizer não. Mas ela me passou a identidade dela, caso precise.

Está aqui, ó.

Estava mesmo. Sacou e entregou. A moça ficou meio con­fusa.

― Sua guia. ― falou ela, entregando um impresso. ― Olha, deixa eu te falar…

Nisso um funcionário de pé aparece do nada e fala mais alto, convicto de que não vai encontrar o que procura naquele lugar:
― Alguém aqui é dono de um carro importado amarelo, placa FER-0001? Está atrapalhando a saída da ambulância.

― É o meu. Já vou tirar!

Pegou a guia de consulta, sorriu sem graça pra moça e fe­chou o assunto:
― Não precisa, moça. Eu entendi. Obrigado e me desculpe novamente minha indelicadeza.

Baixou o olhar e saiu antes que a ruiva, com a boca aberta e os olhos arregalados, dissesse qual­quer coisa. Naquele mesmo dia a garota mandou o emprego pro ralo e desapareceu do mapa. Alguém disse que foi morar no in­terior, mas suas amigas do SUS não tinham certeza do paradeiro dela. Um ano depois ainda estava em terapia. Por muitos anos não conseguiu arrumar um namorado decente. Mal sabe ela que na semana posterior seria nomeada chefe de toda a equipe. E que o dono da Ferrari amarela no dia seguinte voltaria ao seu guichê para pegar o documento da diarista que, na pressa, havia deixado pra trás.

Paulo Lima é escritor e publicitário.

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