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Conheça a história de José Aparecido B. Silva, uma espécie de Leopold Bloom dos tristes trópicos

Anderson Alcântara

21h15

José Aparecido B. Silva respira pela última vez. Ele está cercado por rostos desconhecidos. Todos ali querem que ele continue a respirar, que viva. Nenhum deles conhece a sua história, mas o dever profissional rege cada um a imprimir esforços e estratégias para que José Aparecido B. Silva resista e continue a tocar a sua vida. A eles não importa se José Aparecido B. Silva é advogado, filantropo ou membro da máfia. Importa apenas que não morra na maca, dentro daquele turno. Não chegou a ser um homem. Foi apenas um breve nome no prontuário.

Pintura de Remedios Varo

20h40

José Aparecido B. Silva atravessa a rua pela última vez. Não viu o carro branco que estava em alta velocidade. Foi atingido e apagou na hora. Não viu mais nada do mundo a partir daquele momento. Iria a um encontro em um restaurante no centro da cidade. Havia sido informado que lá serviam a melhor parmegiana de todo o mundo. Era o local perfeito para conhecer Lúcia, a moça que conversava há um mês na internet. Ele resolveu atravessar a rua, para pegar um atalho e ganhar, talvez, cinco minutos no trajeto. Estava muito empolgado com o rumo que sua vida tomava. Tinha um bom emprego e agora, supremo milagre, um encontro.

20h30

José Aparecido B. Silva sai de casa pela última vez. Vestiu uma camisa azul combinando com calça jeans clara. Calçou seu sapatênis. Perfumou-se como sempre fazia e saiu a pé. Seu plano era ir pensando em como se portar durante o encontro. Lúcia parecia ser uma mulher que valoriza diálogos inteligentes e com alguma profundidade. A ideia era treinar mentalmente algumas frases enquanto caminhava. A noite estava quase fria, era ideal para desenvolver seu plano.

Pintura de Rudolf Brink

19h04

José Aparecido B. Silva liga a televisão pela última vez. Não está interessado em algum programa específico. Só quer matar o tempo antes de se preparar para o encontro. Após dois anos sairia com uma mulher novamente. Não sabe dizer se está mais animado ou mais tenso. Talvez esteja um pouco dos dois. E gosta de se sentir assim. É algum tipo de sinal de que sua vida estava em marcha. Que não se tornou um daqueles solitários que mofam em casa aos finais de semana.

17h04

José Aparecido B. Silva bate o ponto no seu trabalho pela última vez. Cansado, mas com a sensação de ter contribuído para o bom funcionamento da fábrica. Tinha um emprego, carteira assinada e estava feliz com essa condição. Não era o emprego dos sonhos, mas era um trabalho e pagava os boletos no fim do mês. O dia transcorre sem qualquer contratempo e amanhã é sábado, o que o torna um dia esperado e bom.

Pintura de Edward Hopper

15h30

José Aparecido B. Silva lancha pela última vez. Pão com margarina e café com leite, como acontecia todos os dias naquele horário. Com a fome de sempre, José Aparecido B. Silva devora sua cota diária de merenda e volta a apertar parafusos na fábrica. Nunca quis saber o que aconteceria se ele parasse de fazer o que fazia. Talvez a fábrica não parasse. Talvez Mário da Oca, seu parceiro de setor, assumisse o posto até que a direção enviasse um novo funcionário para retomar a normalidade do trabalho.

14h11

José Aparecido B. Silva é chamado à sala do chefe pela última vez. Ele havia solicitado há um mês que suas férias fossem antecipadas para maio, dois meses antes do prazo. Precisava cuidar da mãe, que faria uma cirurgia e precisava de companhia e cuidados. O chefe diz que autoriza a alteração do gozo das férias, mas que isso seria um segredo entre eles. Não queria abrir precedentes. Poderia comprometer a planilha que funcionava de modo impecável para a harmonia de todos dentro da fábrica.

Pintura de Tommy Ingberg

12h13

José Aparecido B. Silva come arroz, feijão e bife com ovo pela última vez. É seu prato favorito. Não é afeito a comidas sofisticadas, daquelas que são servidas em três pratos. Gosta do seu ritual na cantina da Dona Branca: chega, acena bom dia à garçonete Sandra, se senta e espera a refeição. Come com a pressa de sempre, sem ritual algum. Gosta de pensar que ali está apenas um homem se alimentando para voltar logo ao trabalho.

10h35

José Aparecido B. Silva conversa sobre futebol pela última vez. Faz questão de zombar de Mário da Oca por causa da eliminação do Corinthians na Libertadores. Mário da Oca leva muito a sério as questões de futebol. Se o time perde ele fica triste de verdade, consternado. Se o time vence a fábrica ganha um funcionário mais motivado e sorridente. José Aparecido B. Silva é um torcedor mais relapso. A cada dez jogos do Fluminense, o time de sua devoção, ele vê uns três. Não fica triste quando o time perde. Não fica mais feliz quando o Fluminense triunfa.

Pintura de Igor Morski

8h01

José Aparecido B. Silva cruza o portão da fábrica para trabalhar pela última vez. Está de macacão cinza e crachá no peito. O aparato anuncia que ele é um dos 2.433 funcionários da fábrica. É uma peça dentro daquela engrenagem toda. De acordo com seu coordenador, uma peça importante para o funcionamento da máquina. Todos são importantes e indispensáveis, foi o que disse na reunião motivacional da equipe. José Aparecido B. Silva não sabe ainda se acredita totalmente naquelas palavras. Talvez acredite, mas ainda não parou para refletir seriamente sobre isso.

6h15

José Aparecido B. Silva se levanta da cama pela última vez. Ele ainda não sabe, mas vai morrer no início da noite. Escova os dentes, toma banho, faz a barba, toma café. O rádio ligado dá conta das primeiras notícias do dia. Não terá chuva, anuncia a previsão do tempo. O trânsito está mais lento próximo à rodovia. José Aparecido B. Silva veste seu uniforme, pega seu crachá, pede proteção ao santo e se dirige até o ponto de ônibus. No início da noite tem um encontro com uma moça que conheceu na internet. Pensando nas possibilidades de como terminará o dia, entra no ônibus, com o esboço de um sorriso.

Anderson Alcântara, jornalista e escritor, é colaborador do Jornal Opção.

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