Sete poemas de Hölderlin

Poeta alemão que viveu entre a segunda metade do século XVIII e a primeira do XIX, Hölderlin é um dos grandes de todos os tempos; e, ao lado de John Keats, é um dos mais influentes na modernidade

Johann Christian Friedrich Hölderlin (1770 – 1843): Poeta sublime, praticou, como poucos, a ode pindárica e os hinos órficos

WAGNER SCHADECK
Especial para o Jornal Opção

Johann Christian Friedrich Hölderlin nasceu em 20 de março de 1770, em Lauffen, Alemanha. Com dois anos, órfão de pai, o menino passa a estudar em escolas protestantes, concluindo sua formação em Teologia na Universidade de Tübingen, onde se torna amigo de Hegel e Schelling. Na Universidade de Jena, em 1794, conhece Schiller e Goethe.

Segundo Vicenzo Errante, o poeta confessa nessa época: “A proximidade desses grandes corações, autônomos e corajosos, me provoca um misto de exaltação e depressão.”

Formado, torna-se preceptor de crianças para famílias abastadas, entre as quais a de Jakob Friedrich Gontard, banqueiro de Frankfurt, de cuja consorte, Susette Borkenstein Gontard, o poeta se enamora, e a qual lhe serve ainda como musa — a Diotima do romance Hipérion.

Animado por sua poesia, Schiller publica, nessa época, alguns de seus poemas. Com a morte de Suzette em 1805, o poeta retorna ao lar materno, dedicando-se a traduzir Píndaro e Sófocles. Diagnosticado como “hipocondríaco”, é acometido por crises de mania deambulatória, chegando a caminhar de Bordeaux a Estrasburgo. Em 1807, por isso, passa a ser tutelado por Ernst Zimmers.

Oscilando entre a loucura e a lucidez, isolado num quarto no alto de uma torre, começa a assinar alguns versos, de corte formal arrojado, como “Scardanelli”. Morre em 7 de junho de 1843, em Tübingen.

Hölderlin é um dos grandes poetas de todos os tempos, e, ao lado de John Keats, um dos mais influentes na modernidade. Com ele, a cristandade encontra a Hélade arcaica. Poeta sublime, praticou, como poucos, a ode pindárica e os hinos órficos.

Teve publicados “A Morte de Empédocles” (fragmentos, 1797 – 1800), “Hipérion” ou “O Eremita na Grécia” (1797 – 1799), “Tragédias de Sófocles” (1804) e “Poemas” (1826).

***

AN DIE PARZEN 

Nur einen Sommer gönnt, ihr Gewaltigen!
  Und einen Herbst zu reifem Gesange mir,
    Daß williger mein Herz, vom süßen
Spiele gesättiget, dann mir sterbe!

 Die Seele, der im Leben ihr göttlich Recht
  Nicht ward, sie ruht auch drunten im Orkus nicht;
    Doch ist mir einst das Heilge, das am
      Herzen mir liegt, das Gedicht gelungen:

Willkommen dann, o Stille der Schattenwelt!
  Zufrieden bin ich, wenn auch mein Saitenspiel
    Mich nicht hinabgeleitet; einmal
      Lebt ich, wie Götter, und mehr bedarfs nicht.


PARA AS PARCAS

Pra mim, um só estio, Potestades,
E um só outono de canções maduras,
E, satisfeito desse doce jogo,
Meu coração apronta-se a morrer.

A alma que em vida não servira às leis
Divinas no Orco não repousará;
Mas surgindo o sagrado, que me habita
O coração, sucede-me a Poesia:

Bem-vindo sejas, ó sombrio reino!
Irei alegre, embora a minha lira
Não me acompanhe. Mas por uma vez
Vivera eu como os deuses. E isto basta.

 

“Sócrates com um jovem aprendiz”, quadro de José Aparicio Inglada (1811): ‘Por que és benévolo, divino Sócrates,/ com esse jovem? Maior nada concebes?/ Por que o contemplas, como/ quem adora a um dos deuses?’ (Hölderlin)


SOKRATES UND ALCIBIADES

 »Warum huldigest du, heiliger Sokrates,
Diesem Jünglinge stets? kennest du Größers nicht?
Warum siehet mit Liebe,
        Wie auf Götter, dein Aug auf ihn?« 

Wer das Tiefste gedacht, liebt das Lebendigste,
Hohe Jugend versteht, wer in die Welt geblickt,
     Und es neigen die Weisen
         Oft am Ende zu Schönem sich.

 

 SÓCRATES E ALCIBÍADES

— Por que és benévolo, divino Sócrates,
Com esse jovem? Maior nada concebes?
Por que o contemplas, como
Quem adora a um dos deuses?

— Quem mais fundo pensou, ama o vigor.
Quem viu o mundo, entende a juventude.
E muita vez os sábios
Prosternam-se à Beleza.

 

DIE KÜRZE

 »Warum bist du so kurz? liebst du, wie vormals, denn
  Nun nicht mehr den Gesang? fandst du, als Jüngling, doch,
    In den Tagen der Hoffnung,
      Wenn du sangest, das Ende nie!«

 Wie mein Glük, ist mein Lied. – Willst du im Abendrot
Froh dich baden? hinweg ists! und die Erd’ ist kalt,
    Und der Vogel der Nacht schwirrt
      Unbequem vor das Auge dir.


O LACÔNICO

“Por que estás tão lacônico? Não amas
O canto como outrora? Quando jovem,
Nos dias de esperança,
Soava teu canto intérmino!”

Ao destino – o meu cântico. Ao crepúsculo
Queres banhar-te? É findo! E fria é a terra,
E a ave noturna esbate-se
A teus olhos incômoda.

 

 GUTER RAT

 Hast du Verstand und ein Herz, so zeige nur eines von beiden,
Beides verdammen sie dir, zeigest du beides zugleich.

 

  BOM ALVITRE

Tens engenho e arte? Mostra apenas um.
Condenam ambos, se aparecem juntos.

 

FALSCHE POPULARITÄT

 O der Menschenkenner! er stellt sich kindisch mit Kindern
   Aber der Baum und das Kind suchet, was über ihm ist.

 

  FALSA POPULARIDADE

Humanista, és pueril entre crianças!
A criança e a árvore alçam-se ao mais alto.

 

ADVOCATUS DIABOLI

 Tief im Herzen haß ich den Troß der Despoten und Pfaffen,
   Aber noch mehr das Genie, macht es gemein sich damit.

 ADVOCATUS DIABOLI

 Odeio déspotas e sacerdotes,
Mas mais o gênio com os quais comunga.

 

DIE BESCHREIBENDE POESIE

 Wißt! Apoll ist der Gott der Zeitungsschreiber geworden
   Und sein Mann ist, wer ihm treulich das Faktum erzählt.

 

A POESIA DESCRITIVA

Te informa! Apolo é deus dos jornalistas.
É seu fiel quem for fiel aos fatos.

  

DIE LILIEN DES LEBENS

 Die Linien des Lebens sind verschieden,
   Wie Wege sind, und wie der Berge Grenzen.
      Was hier wir sind, kann dort ein Gott ergänzen
        Mit Harmonien und ewigem Lohn und Frieden.

 

OS FIOS DA VIDA

Os fios de nossa vida são variados,
Como é íngreme o outeiro, e estreita a via.
Podemos por um deus ser agraciados,
Com dádivas de Paz e de Harmonia.

 


Wagner Schadeck selecionou e traduziu os poemas de Hölderlin. É poeta, tradutor e editor, com especialização em Desenvolvimento Editorial pela PUC-PR.

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