Sergio Biscaldi e Cláudia Marczak homenageiam o Dia das Crianças com narrativas curtas e divertidas

Os contos “Crostinhas de leite” e “Meu quintal” apresentam os elementos típicos do universo infantil, com atmosferas específicas de experiências pelas quais as crianças passam, seja o simples ato de beber leite ou de brincar no quintal de casa

Sergio Biscaldi e Cláudia Marczak
Especial para o Jornal Opção

Crostinhas de leite

Ilustração de Ciro Gonçalves

As casquinhas estavam por toda a parte. E era gostoso, com a unha do dedo mindinho, ficar desmanchando uma por uma. Eu passava horas cutucando, lembrava a cobertura de um bolo feita de açúcar, espalhada por toda a minha cabeça. Minha mãe falou que o Dr. Joel falou que aquilo eram crostinhas de leite.

Nessa época, meu sonho era ter uma vaca só para mim. Ficaria ali, morando no meu quarto ou na área de serviço do nosso apartamento para todas as vezes que eu quisesse beber meu leite com toddy, café ou groselha.

Mas essa coisa de querer ter a pró­pria vaca não teve um final feliz. Voltando de uma viagem de férias, eu estava apertado para fazer xixi e meu pai ficava escolhendo o lugar perfeito para parar o carro no acostamento e nunca encontrava. Quando finalmente parou, eu desci correndo, baixei meu calçote até as canelas e assim que senti aquele arrepio da hora que o xixi vai começar a sair, apareceu a cabeçorra de um boi. Bem pertinho do meu pipi, como se fosse comê-lo, ele fez MUUUUUU.

Nunca mais consegui fazer xixi na frente dos outros e as crostinhas sumiram todas. Acho que foi porque fiquei um tempão sem tomar leite.

Sergio Biscaldi escreveu os livros “Festa no Salão” e “As Cores do Esquisito”.

Meu quintal

Ilustração de Ciro Gonçalves

Pra gente grande, um quintal é sempre um quintal. Mas, pra criança um quintal pode ser um monte de coisa. O meu quintal era assim, um quintal mágico. Não dá para acreditar? Pois acredite se quiser, lá aconteciam coisas incríveis. Eu era uma garota magrela e cabeluda, que gostava de brincar até ficar com os joelhos cinza de sujeira. E o quintal era o meu reino.

No meu quintal tinha bicho: coelho, cachorro, passarinho e um monte daqueles insetos que a gente nem gosta muito, mas que viviam por lá. Tinha também grama bem verdinha e um espaço pra plantar. A gente sempre plantava milho, cheiro verde e umas outras plantinhas que nem me lembro mais. Também não me lembro se nasciam, mas lembro como era muito gostoso regar e cuidar delas.

Das coisas malucas que aconteciam por lá, algumas faziam a gente gargalhar. Meus bichos eram muito sapecas e os coelhos só faziam aprontar. Meu pai tinha construído um viveiro para eles, mas não é que os danados volta e meia cavavam, cavavam até conseguirem fugir. Um dia, no meio da madrugada, um dos coelhinhos resolveu fugir, aproveitando o lusco fusco da manhã. Só que ele não contava que nosso cachorro, que era pequenino, mas bem espevitado, estaria solto. Foi o coelho fugir para a bagunça se formar! Acordei com uma gritaria daquelas: o cachorro correndo atrás do coelho e meu pai, de robe de chambre, correndo atrás do cachorro tentando salvar o coelho! É lógico que todo mundo acordou, na torcida pro coelho se salvar! O sapeca se salvou, mas não aprendeu a lição, porque era só ter uma oportunidade e esse escapulia de novo.

Eu sei que nesse quintal eu brincava a tarde inteira, até o sol sumir. Montava cabaninha, subia em árvore, andava de bicicleta, descansava na rede quando a preguiça batia. O quintal era das crianças e de tudo que a gente podia imaginar. Hoje o tempo passou. Muita criança nem tem quintal. E o que eu guardei daq­uele quintal mágico foram as lembranças boas dos joelhos ralados, das brincadeiras com os amigos e das aventuras que vivi por lá e que hoje ainda me fazem sonhar.

Cláudia Marczak escreveu os livros “A Flor da Pele” e “O Mundo Perfeito”, para gente grande. Para os pequenos é autora da coleção “Nas asas da Imaginação”, com 5 livros sobre o imaginário infantil.

NOTA:

O projeto de publicação desses contos foi resultado da curadoria de Anderson Fonseca.

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