A Sarna dos Cínicos: Inventivas políticas

Humor cáustico e poesia dão-se as mãos nestas quadrinhas do poeta curitibano Wagner Schadeck. Leia e perceba a correlação mui pertinente com cada personagem abordada

“Diógenes, o Cínico, procurando um homem honesto, com sua lanterna”. Obra de Jacob Jordaens

Wagner Schadeck
Especial para o Jornal Opção

“NINE”

Sem orgulho, inveja, gula,
Avareza, sexo ou ira,
Furino é santo? Mentira!
Quanta propina pulula?

VANA

Para que o pânico cresça,
Petrificaste toda a horda?
Medusa, górgona gorda,
Tens minhocas na cabeça.

“AU TOMBEAU”

O mais baixo entre os soturnos
Seres, cairás, Nosferatus?
Calçando quantos coturnos,
Subiste com quantos pactos?

AÉREO

Grande carreira ele teve,
Mas à qual ainda aspira?
Com o nariz cheio de neve,
Viajou noutra mentira.

MENDAZ

Para que emendas remendes,
Perdes a peruca, Bozo?
De teu reinado orgulhoso,
Gemes quando um peido prendes?

ITALIANO

Entre inúmeras destrezas,
Em seu Curriculum grifas
O comunicar de cifras
Por meio de línguas presas.

AMANTE

Em que chiqueiro chafurdas?
Que gripe te rompe a grimpa
Nasal? Mas de lodo surda,
Ainda desfilas limpa.

FARIAS

Teu nariz em tudo enfaras.
Choras, esperneias, urras…
Em tuas secretas taras,
Mamaste o leite das burras.

PARDAL

Unha de fome, engoliste
Dente de ouro? Nos poleiros
Mais imundos dos calheiros,
Devoras alheio alpiste.

CARANGUEJO

Em escusas rondas punhas
As tuas patas no espólio.
Ora esbugalhas os olhos,
Enquanto prendem-lhe as cunhas?

MARINA SILVA

Eis a cientista do povo,
Trazendo a ciência das matas.
Recomenda usar das patas
A cloaca em vez do ovo.

CIRO

É um Sísifo dos papéis;
Burocrata da resposta.
Mesmo com doutos anéis,
Não passa de um rola-bosta.

GENRO

O ópio dos intelectuais
É a fina flor das esquerdas.
Seus delírios são ideais,
Suas ideias são lerdas.

SARNEY

Pousas de cão magro para
Quê? Com a sarna te promulgas!
Mas como a sarna não sara,
Coça a mordida das pulgas.


Wagner Schadeck
nasceu em 1983, em Curitiba, onde vive. É tradutor, ensaísta, editor e poeta. Colabora com a Revista Brasileira (ABL), com a Revista Poesia Sempre (BN), entre outros. Em 2015, organizou a reedição de “A peregrinação de Childe Harold”, de Lord Byron, pela Editora Anticítera. Pela mesma editora, em 2017, publicou a tradução de “Odes”, de John Keats.

1
Deixe um comentário

1 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors
ADALBERTO DE QUEIROZ

Só o poeta inventivo pode pensar na manchete em verso:
“Quanta propina pulula?”