A saga de um perdedor

“Inside Llewyn Davis” soa como um retrato desbotado de um importante momento histórico. Porém, os Irmãos Coen quiseram evitar jogar as luzes nos vencedores, preferindo olhar para os azarados, aqueles que ficaram pelo caminho

O ator Oscar Isaac que vive o músico Llewyn Davis em cena de “Inside Llewyn Davis”, o novo filme dos Irmãos Coen | Foto: Paris Filmes

O ator Oscar Isaac que vive o músico Llewyn Davis em cena de “Inside Llewyn Davis”, o novo filme dos Irmãos Coen | Foto: Paris Filmes

Marcelo Costa
Especial para o Jornal Opção

Nova York, fevereiro de 1961. O frio toma as ruas. Enquanto isso, em um bar no então distante e pobre (e junkie) bairro Greenwich Village, um cantor apresenta uma de suas canções. Ele atende pelo nome de Llewyn Davis, e, após tocar, leva uma surra na parte de fora do pub. O começo de “Inside Llewyn Davis”, novo filme dos Irmãos Coen, dá o tom que se seguirá pelos 105 minutos da película. Ou seja, não espere humor gratuito.

A saga que a câmera flagra em “Inside Llewyn Davis” é a de um músico (azarado e amargo) tentando reconstruir sua carreira após um fato trágico, e isso se torna um bocado difícil no inverno norte-americano, seja em Nova York, seja em Chicago, seja em um mundo no qual empresários musicais pareciam ter o dom de saber qual a próxima onda comandaria o imaginário pop.

Não deixa de ser brilhante a maneira como os irmãos Coen criam não só o personagem de Llewyn Davis (uma junção de vários cantores da época, em especial Dave Van Ronk e Ramblin’ Jack Elliott), mas a atmosfera da Nova York do começo dos anos 1960. Não espere alegria (é inverno) nem frases descoladas dos personagens, afinal é complicado ser espirituoso quando não se tem dinheiro muito menos um teto para dormir (nem hoje, nem amanhã) e lá fora, amigo, o frio castiga.

Desta forma, “Inside Llewyn Davis” é um retrato delicado de uma época em que uma geração de músicos passava o chapéu nos bares e, à noite, precisa contar com a boa vontade de algum (des)co­nhecido para ter onde jogar a carcaça e descansar o sono dos justos. Pelo que passou Llewyn Davis passaram Dave Van Ronk, Bob Dylan e diversos artistas daquela cena, todos vivendo a vida como se o próximo dia fosse uma aposta.

Llewyn Davis (em excelente interpretação de Oscar Isaac) tenta sobreviver a si mesmo enquanto precisa lidar com os desvios do destino, por exemplo, engravidar a namorada (Carey Mulligan emburrada e ótima) de um dos seus melhores amigos (Justin Tim­berlake, muito bem em um papel simplório, mas eficiente) ou lidar com o sumiço de um gato pertencente a um dos amigos que o hospeda em dias que ele não tem teto.

Na filmografia dos Coen, “Inside Llewyn Davis” mantém praticamente o mesmo tom do ótimo “Um Homem Sério” (2009), outro grande filme da dupla relegado ao segundo escalão, muito mais devido à expectativa do público do que a qualidade do filme. Com “Inside Llewyn Davis” não deve ser diferente, o que é uma pena já que estamos diante de um excelente drama de época.

E não é que faltem momentos de humor ao filme: a participação de John Goodman, como Roland Turner, um jazzista viciado em heroína, é impagável; e a ponta de Adam Driver (da série “Girls”) como o cantor folk Al Cody também arranca risos da plateia (sem contar o momento hilário dramático que talvez explique uma geração: ao procurar um lugar para colocar os vinis que gravou, Llewyn Davis encontra uma caixa com os de Al Cody, deixando a sensação de que qualquer cantor folk na Nova York dos anos 1960 andava com um vinil seu debaixo do braço).

No entanto, direção e roteiro respeitaram a reconstituição de época e “Inside Llewyn Davis” soa como um retrato desbotado de um importante momento histórico. Porém, os Irmãos Coen quiseram evitar jogar as luzes nos vencedores — seria fácil focar em Dylan, por exemplo — preferindo olhar para os azarados, os losers, aqueles que ficaram pelo caminho — a última cena, quando um certo cantor folk estreia no Gaslight, amplia a sensação de derrota de Llewyn. É um retrato bonito, com trilha sonora caprichada e atuações excelentes, que talvez tome o mesmo rumo dos artistas que retratou. Não merece, mas nem tudo foram (são) flores. Mesmo hoje.

Marcelo Costa é jornalista.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.