Romance sobre Machado de Assis sugere que nada como o passado para não entender o presente

Romance histórico “O Homem que Odiava Machado de Assis” evidencia que paradoxos e preconceitos tão intricados na brasilidade ainda vivem plenamente nos dias de hoje

Antonio Munró Filho

Especial para o Jornal Opção

Pense, por favor, nos três maiores nomes da Literatura Brasileira que vêm à sua mente neste instante?  Pode-se deduzir que Machado de Assis será um dos escritores evocados. Até mesmo quem nunca leu uma obra do Bruxo do Cosme Velho (em que mundo esse ser vive?) é capaz de colocá-lo na lista dos maiores de todos os tempos. Praticamente uma unanimidade, fica fácil imaginar que o nome do autor do conto “O Alienista” teve uma vida tranquila e serena entre seus contemporâneos… Bom, não é o que sugere o escritor José Almeida Júnior em seu segundo livro, “O Homem que Odiava Machado de Assis” (Faro Editorial, 240 páginas).

Tal heresia literária não é nem foi raridade em um país que, em diferentes momentos da história (inclusive hoje em dia), tem certo fetiche em demonizar aqueles conterrâneos que obtêm destaque nas atividades que desenvolvem. Imagina: um negro, gago, filho da pobreza brasileira do século 19 que tinha tudo para ser mais um miserável a perambular pelas ruas do Rio de Janeiro, ser alçado à proeminente figura de fundador da Academia Brasileira de Letras? Intolerável para uma boa parcela dos brasileiros, quase um insulto. Muitos narizes empinados devem ter virado a cara, classificando Machado de Assis como um modismo…

As razões para que Pedro Junqueira, protagonista da trama, nutra um ódio mortal pelo autor de “Esaú e Jacó” começam na infância. Órfão de mãe, ele é levado a morar com a tia, dona Maria José (de Mendonça Barroso Pereira), no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro. A tia, primeira personagem real a figurar pela obra, era a dona das terras onde o jovem Joaquim (Machado de Assis) passou os primeiros anos de vida, como uma espécie de protegido da benfeitora. O ciúme de dividir a atenção da tia com aquele menino gago, filho da criadagem, era demais para o rico garoto que tinha pai cafeicultor e escravocrata. No convívio entre os dois, o engomadinho sofria maus bocados nas mãos do moleque carioca.

Machado de Assis: de autor a personagem literário | Foto: Reprodução

Os anos passam e, mesmo a contragosto e sob ordens expressas do pai, Pedro embarca para Portugal com o objetivo de graduar-se em Direito e retornar como autoridade para o Brasil, enquanto o humilde Machado arruma emprego numa tipografia no Rio. Foi em terras portuguesas que Pedro se apaixonou por Carolina Novais (sim, sim… aquela que, tempos depois, viria a ser a senhora Machado de Assis).  Já dá para imaginar que tal acontecimento em nada melhorou a percepção de Pedro em relação ao autor de “Quincas Borba”.

À medida em que leitor avança no enredo vai entendendo como se davam (e ainda se dão) boa parte das relações de trabalho em altos escalões do poder brasileiro. Assim que volta ao país, graças à influência poderosa do pai (o sempre questionável QI — quem indica), Pedro é alçado a uma espécie de secretário-executivo do Visconde do Rio Branco, homem incumbido pelo imperador Dom Pedro II a encontrar uma saída para o processo inicial de libertação dos escravos. De quebra, o protagonista passa a conviver com grandes nomes da história brasileira, dentre eles Joaquim Nabuco, e outras figuras míticas do Rio de Janeiro, como o livreiro Baptiste Louis Garnier, dono da famosa Livraria Garnier da Rua do Ouvidor.

Sob esse contexto político é impossível não se deixar contaminar com mais uma das contradições brasileiras: a esmagadora maioria dos líderes abolicionistas era de membros de famílias com largo histórico escravocrata. Com exceção de José do Patrocínio, único negro com voz ativa na intelectualidade da época, os demais tinham o DNA da barbárie até o pescoço. Empunhar a bandeira da abolição era, para Pedro, uma forma de dar continuidade às suas ambições políticas, nada além disso. A causa é sempre outra, nunca aquela que é realmente pregada. Ah, as contradições brasileiras.

José Almeida Júnior: autor de um romance convincente em que Machado de Assis é personagem | Foto: Reprodução

Com pretensões a escritor e ainda apaixonado por Carolina, Pedro procura Machado de Assis para mostrar um manuscrito de um romance que ele acreditava que iria mudar o cenário da literatura nacional. Um esboço mal escrito de um narrador-defunto ou seria um defunto-narrador? Machado que já tinha certo destaque no cenário cultural brasileiro desencoraja Pedro, sugerindo que ele desista da ideia por se tratar de uma narrativa pouco convincente e com falhas grosseiras de composição. Desiludido, o protagonista queima os originais. Bem, não é preciso se esforçar para imaginar a ira de Pedro ao ver o sucesso estrondoso que “Memórias Póstumas de Brás Cubas” fez logo após o lançamento. Mais uma vez Pedro via o antigo desafeto triunfar, agora, com uma ideia dele…

A trama desenvolvida por Almeida Júnior consegue criar uma série de situações plausíveis que vão dando verossimilhança ao texto e, em alguns momentos, induz aquela sensação que só boas obras literárias conseguem proporcionar: o “e se” isso realmente tivesse acontecido? O desenrolo do improvável triângulo amoroso faz com que um Machado de Assis, dominado por um ciúme febril, comece a imaginar coisas “estranhas” entre Carolina e Pedro. A ironia final da obra, como você já deve ter percebido, é justamente o de criar uma dúvida semelhante à do clássico adultério (ou será que não houve traição?) de “Dom Casmurro”. Jogada de mestre.

É por essas e por outras que José Almeida Júnior se apresenta como um autor em plena forma e que o Prêmio Sesc de Literatura que recebeu em 2017 com o instigante romance histórico “Última Hora” é apenas uma prova da qualidade do trabalho do potiguar que reside em Brasília. Em “O Homem que Odiava Machado de Assis”, ele vai desnudando com sutileza (o que não deixa de ampliar o choque) uma série de preconceitos que ainda permeiam a vida brasileira. O menino rico que se sente perseguido e, por isso, tenta reduzir ainda mais as chances do garoto pobre vencer na vida. O jovem adulto que com o dinheiro ganho com o suor e as lágrimas do trabalho escravo volta “doutor” para justamente lutar pelo fim da abolição por motivações exclusivamente políticas. O pretenso escritor que, não tendo talento suficiente para garimpar os louros da fama, fez “aliança” com o mais importante crítico literário da época, Silvio Romero, que tentava inutilmente diminuir, com textos azedos, a pungência da obra machadiana. São muitas as contradições bem exploradas na trama e que não deixa de surpreender o leitor.

O segundo romance histórico de Almeida Júnior merece ser lido por várias razões, eis algumas delas: revisitar o glamour do Rio de Janeiro, sede do império e numa época repleta de transformações; mergulhar na efervescência cultural de um Brasil que ainda contava com a presença de escritores do quilate de Machado de Assis, José de Alencar entre outros; e, talvez, principalmente por evidenciar, não sem uma ponta de tristeza, que o Brasil de 2019 ainda dialoga fortemente com os preconceitos e contradições da época de Machado de Assis. Nada como o passado para (não) entender o presente.

Antonio Munró Filho é jornalista e mestrando em Literatura, Cultura e Contemporaneidade na PUC-Rio.

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