Romance de Hans Keilson mostra a angústia de uma pessoa perseguida por um governo totalitário

“A Morte do Inimigo” aponta para o clima pesado do período nazista, embora sem citar o período histórico, a Alemanha da época ou o nome de Hitler

Mariza Santana

Muitas vezes o escritor prefere não ser direto em sua mensagem, mas escondê-la por meio de subterfúgios, de forma a torná-la ainda mais impactante para o leitor, que se sente desafiado a desvendar seus mistérios. Esse expediente é utilizado no romance “A Morte do Inimigo” (Companhia das Letras, 264 páginas, tradução de Luiz A. de Araújo), do escritor alemão/holandês Hans Keilson, que morreu centenário em 2011.

O autor inicia a narrativa dizendo que “o texto publicado lhe foi confiado por um advogado holandês, algum tempo depois da guerra”. Então não se sabe o nome de quem o escreveu, tampouco é citado o país ou o período histórico (afinal são tantas as guerras na história da humanidade). O ditador em questão é identificado apenas como “B”. Mas logo fica subentendido (pelo menos para mim) que o protagonista é judeu, e vive a angústia cotidiana de ver o crescimento da influência de um governante autoritário e seus efeitos na sua vida e de sua família.

O personagem principal relata sua infância e o trauma de ser impedido de jogar bola com os colegas sem um motivo real aparente, apenas por ser quem era. Apresenta seus pais — um fotógrafo e uma dona de casa — e o clima de apreensão que toma conta dos familiares diante dos últimos acontecimentos de seu país, e como eles preveem futuros momentos mais sombrios. Relata ainda o episódio em que falsificou selos para ludibriar colegas e colecionadores mais tarimbados.

Ao longo do romance, o protagonista vai descrevendo seus sentimentos de opressão e infelicidade, medo e covardia, diante de fatos inexoráveis e os quais não consegue evitar. Relata o crescimento popular do ditador B, e como em uma oportunidade, em que esteve bem perto dele, no meio da multidão, sentiu que o matou de coração. “Matei-o no meu pensamento, matei-o a tiros. Ninguém soube”, diz.  Daí o título da obra: “A Morte do Inimigo”.

Um dos capítulos mais marcantes é quando ele se encontra com uma garota, Lisa, no pequeno apartamento dela, e ouve relatos de um grupo de amigos do irmão da jovem sobre como um deles participou do ato de vandalismo de um cemitério (certamente israelita) em uma cidade vizinha. Descrição muito macabra e lamentável. Impossível não pensar nesses momentos de polarização política que enfrentamos no mundo e, especialmente no Brasil, com indivíduos defendendo atos antidemocráticos condenáveis nas redes sociais.

Hans Keilson: escritor | Foto: Reprodução

Hans Keilson é conhecido por seus romances ambientados na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), durante a qual foi um membro ativo da Resistência holandesa. Se destacou também como poeta, psicanalista e psicólogo infantil. Trabalhou com órfãos traumatizados pelos efeitos nefastos da guerra. Em 2010, foi descrito pelo “New York Times”, principal jornal dos Estados Unidos, como “um dos maiores escritores do mundo”, no ano em que recebeu homenagens por chegar aos 101 anos de idade.

No livro “A Morte do Inimigo”, o protagonista sobrevive para receber a notícia da morte do ditador B, mas ela não é comemorada com o ânimo esperado, já que os anos de perseguição ao regime sanguinário e de exílio tinham marcado indelevelmente sua alma e seus sentimentos. O final é surpreendente, vale a pena conferir.

Cito ainda outro ponto importante do romance, que é a citação de uma história popular a respeito de um grupo de alces que foi levado para viver em um local totalmente protegido:

“O tsar enviou um de seus guardas florestais, que vivia no território dos alces há muitos anos e sabia tudo de seu modo de vida. Esse homem chegou e se instalou numa casinha de madeira no bosque, entre o mar e a lagoa, onde passou o ano inteiro. Investigou tudo o que havia a respeito dos alces na nova pátria e, no fim desse ano, foi ter com o cáiser e com os outros guardas florestais e cientistas e disse: ‘Eu examinei tudo e constatei que o feno é excelente e viçosas são as folhas, o clima é bom, e boas são a terra, a floresta e a estepe. Todo o humanamente possível se fez para preservar a vida dos animais, nada lhes falta’.

‘Então, por que eles morrem?’, impacientou-se o cáiser. ‘Se não lhes falta nada, por quê?’

‘Não lhes falta nada, insistiu o velho, ‘e ninguém cometeu erros, a não ser um…’

‘De uma coisa eles sentem falta’, prosseguiu o guarda florestal, ‘por isso morrem’.

‘De que?’, perguntou o cáiser, tamborilando na mesa.

‘Dos lobos.”

Mariza Santana é crítica literária. E-mail: [email protected]

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