Réquiem para uma geração

“Loja de Conveniências”, de Guilherme Smee, retrata relações interpessoais nas quais o consumo está a frente de qualquer ímpeto sentimental

Guilherme Smee busca referência na cultura pop para pautar e situar os atores da história em seu tempo | Foto: Divulgação

Guilherme Smee busca referência na cultura pop para pautar e situar os atores da história em seu tempo | Foto: Divulgação

Sérgio Tavares
Especial para o Jornal Opção

Novos escritores brasileiros, ao se aproximarem do peitoril para observar o trânsito da sua geração, parecem captar a frequência de dois tipos de passantes: os preocupados com o cano longo do All Star e o sabor da Fanta Uva, e os que vão além do tatibitate pop. A esses a vida é um estágio tomado por um tipo de transe que os impede de acessar o futuro. Uma incapacidade de romper o ciclo que os mantém no interior do quarto-casulo, autoexilados numa realidade alijada pelo total desinteresse pelo mundo concreto. Um retrato da juventude moderna muito bem capturado pelo jornalista Bolívar Torres, no romance “Não Muito”. E agora reprisado por Guilherme Smee, no instigante “Loja de Conveniências”.

“Eu Sou o Pó”, afirma o narrador-personagem deste breve romance, “o computador é minha ligação com o mundo que deixei para trás”. A virtualidade, de fato, é o que provém seus rasos interesses. Seja para rever várias vezes uma cena da atriz Naomi Watts com motivações onanistas, seja para se comunicar com nicknames desconhecidos. Um desses é de uma hacker que invade seu computador e ordena que desça até o salão de festa do seu prédio, no exato instante em que, nas proximidades, ocorre uma batida envolvendo policiais. Lá depara-se com uma jovem aos prantos. O nome é Heloísa, e esse encontro às cegas é o gatilho para o desencadear da relação que sustenta a trama.

Heloísa chora pelo namorado Davo, um traficante de medicamentos controlados, que foge para não ser preso. Antes de partir, porém, delega a ela a tarefa de fazer do protagonista um “projeto pessoal”, e este aceita “para que algo aconteça e o tire da inércia”. O único desafio que se impõe é não se envolver emocionalmente com a garota, pois ainda dói o fim de um relacionamento recente. Ocorre que, a partir de então, já não controla mais seus atos: a ela cabe decidir o que fará, onde e como. Quando Heloísa pede para beijá-la, ele acata pois não mais detém do poder de resistir. “Como tomar um remédio para uma doença que não temos e ainda acumular os efeitos colaterais”, compara.

Cultural_1885.qxdJá neste ponto, salta aos olhos o domínio técnico de Smee para a elaboração de tipos. As referências à cultura pop, que vão de “Star Wars” ao “Mágico de Oz”, são bem utilizadas para situar os atores da história em seu tempo e, desse microcosmo, extrair elementos que irão pautar suas características físicas e subjetivas, ainda que sob a óptica do narrador. A linguagem ágil e precisa nunca se perde em maneirismos, atuando sobretudo em favor das descrições das cenas, tal qual no instante em que o protagonista ingere pela primeira vez um psicotrópico durante uma sessão de cinema. O autor oferece ao leitor uma experiência de níveis sensoriais, alternando e cruzando o que se passa na plateia ao que se passa na tela, na obtenção de um efeito, no mínimo, estimulante.

O projeto pessoal, que inicialmente seria o de desnaturação do protagonista, torna-se um pacto entre este e Heloísa, regido por tensões sexuais e toxicomania. Decidem abrir a loja de conveniências do título, um modelo de bar que serve de fachada para a reativação do comércio ilegal de medicamentos, cujo lucro visa patrocinar o retorno de Davo. O que não contam, especialmente Heloísa, é a instauração de um sentimento mútuo aparentado com amor, que optam por chamar de simbiose. “Uma relação entre dois seres em que um se beneficia do outro.” E, ao se contaminar da carga de atração que une os personagens, o autor reposiciona o eixo temático, fazendo do seu livro um estudo sobre vampirismo.

“Não que eu esteja amando Heloísa, mas já criei uma grande dependência dela para tudo.” Conforme explicam as narrativas vampirescas, o transformado carrega uma ligação irresistível para com quem o transformou, existindo para venerá-lo e satisfazer seus desejos. O retorno de Davo reforçará esse elo de subordinações começado com Heloísa, depois transferido para o protagonista que, por sua vez, absorve o que resta da vitalidade dos clientes, uma legião que vagueia em busca de alívios artificiais, alucinógenos, na mesma proporção em que eles buscam sensações hiperestésicas no atrito que irrompe do contato entre seus corpos.

“Eu sinto uma vontade, uma energia que nunca senti antes, eu sinto raiva e ao mesmo tempo excitação, eu sinto o amor de Heloísa, e sinto os lábios dela. É tudo culpa dela. É tudo culpa do Davo.” Uma relação clandestina, pois são clandestinos, da qual dependerá para manter sua vida de atividades obscuras, pois, lançado a luz, tal qual um vampiro, volta a ser o pó.

Na orelha do livro, assinada pelo escritor Bruno Azevêdo, é evocado um paralelo com o personagem Tyler Durden, do alegórico “Clube da Luta”, contudo a natureza do enredo se irmana, decerto, a um dos mais subestimados romances de Chuck Palahniuk, “Canção de Ninar”. Uma parábola mordaz sobre a sociedade moderna, frívola e perdida, que oculta sua vacuidade numa enxurrada de informações e possibilidades de contatos. “Algumas pessoas acham que ainda dirigem suas próprias vidas. Nós somos os possuídos. Somos todos assombrações e assombrados. Sempre há algo alienígena vivendo sua vida por nosso intermédio. Toda nossa vida não passa de um veículo para algo vir à Terra. Um espírito maligno. Uma teoria. Uma campanha de marketing. Uma estratégia política. Uma doutrina religiosa.”

No caso dos personagens criados por Smee, um réquiem para uma geração grata por se autoconsumir, não se importando em liquidar a caminhada rumo a algum futuro.

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Queda da Própria Altura” e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc.

via Revista Bula

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.