Raquel Naveira é uma voz do Pantanal para o mundo

As crônicas, além da dicção cotidiana, estão recheadas de impressões históricas e filosóficas, com toques mágicos de poesia

João Carlos Taveira

Especial para o Jornal Opção

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Allegro sostenuto, cantabile

Sob epígrafe do magistral Fernando Pessoa, trazida à libação pela professora Rita Pacheco Limberti, que assina o prefácio da obra, a escritora Raquel Naveira nos apresenta seu novo livro de crônicas/ensaios “Leque Aberto” (Penalux, 2020). E assim abre também um leque de possibilidades artísticas para o deleite de seus interlocutores, ao fazer reunir em letras de forma suas criações publicadas em jornais e revistas de diferentes localidades do País.

A presente coleção oferece um painel rico e abrangente de temas e abordagens. Raquel Naveira, ao mesmo tempo que descobre, vai revelando para o leitor um mundo de surpresas e emoções em cada peça deste livro. Culta e preparada, a escritora sul-mato-grossense conhece bem os caminhos percorridos e cada atalho por onde às vezes se aventura. As crônicas, além da dicção cotidiana, estão sempre recheadas de impressões históricas e filosóficas, com toques mágicos de poesia. E isso leva o leitor a tomar posse prazerosamente de um vasto cabedal de conhecimentos empíricos e científicos.

“Leque Aberto”, por outro lado, traz uma certeza: pode ser lido de várias maneiras. E o leitor, de antemão, sabe que vai querer relê-lo muito em breve, pois algum mistério de suas entrelinhas persiste e ainda não foi revelado, e que uma leitura só não é suficiente. A riqueza semântica, gramatical e filosófica é a sua maior proposição. E a variedade de suas propostas transcende o universo habitual próprio da crônica de costumes, por mais familiar que seja, ou que nos pareça à primeira vista.

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Andante molto allegro e appassionato

Raquel Naveira se define como escritora, professora universitária e crítica de literatura; mas, no fundo, é também socióloga e filósofa de mão cheia. Conhece bem os meandros da alma humana, seus vícios e suas virtudes. E não é à toa que se declara espiritualista, pois professa sua fé e sua religiosidade em muitos desses trabalhos.

Tomem-se como aperitivo dois recortes da crônica “Caminho”, página 61:

“(…)

E avanço, adianto-me com o peito para a frente, navego estendendo velas brancas. Não posso parar. Parar não paro. Esquecer não esqueço. Nem dos meus sonhos, nem da minha fé, nem do desejo que tenho de forjar meu caráter. Pago caro por isso. Às vezes, como um beduíno, penetro desertos, vales da morte cheios de escorpiões. Outras vezes, como um louco Ahasverus, o judeu errante, o coureiro condenado a vagar pelo mundo sem nunca morrer, até a volta de Cristo, até o fim dos tempos, arrasto-me em direção a um oásis onde possa descansar antes de seguir. Se, depois, alguém da caravana me obriga a caminhar mil passos, vou com ele dois mil. Obedeço à voz do mestre nessa estranha passagem pelas dunas.

Raquel Naveira: escritora | Foto: Divulgação

(…)

Quero caminhar por uma estrada real, direta, reta. Vencer a sedução de me afastar, de conhecer campos e me embriagar nas vinhas. Tenho pressa. Urgência. Meus passos são largos. Correrei. Já deixei tantas coisas para trás: pessoas, festas, fogos de artifício, imagens, falsas crenças, ilusões, vaidades. Como aquele coelho branco do conto ‘Alice no país das maravilhas’, seguro um relógio na algibeira e não posso me atrasar. Não vou me desviar, nem procurar atalhos, nem me distrair com chás, risadas entre folhas e cascalhos brilhantes. Só me prendo a essa vereda pela qual me decidi, neste grande sertão. Vou à capital encontrar o rei. Não sentirei fadiga até encontrá-lo. Ele é o caminho.”

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Adagio ma non troppo

“Leque Aberto” está repleto de preciosidades como esta, o que o torna um livro fundamental dentro do universo da moderna crônica brasileira, só comparável, ao que me lembra, à mestria de Ruy Castro — para mim o melhor cronista brasileiro dos últimos 30 anos. Voltando ao livro, digo mais: Raquel Naveira confirma uma aproximação espiritual muito forte com Lygia Fagundes Telles e, sobretudo, com Cecília Meireles, podendo tranquilamente formar com ambas a trilogia da delicadeza, da ternura e do desapego, tanto na poesia quanto na prosa. Porque nenhum gênero lhes é adverso, ou mesmo estranho às suas pretensões.

E aqui deve-se mencionar outra particularidade da coletânea em questão. Entrincheirados entre 36 crônicas, dois ensaios saltam aos nossos olhos pelo inusitado de seus temas e também pelo vigor de suas criações: “Delírio Pessoano: vi Ricardo Reis no Rio de Janeiro certa vez”, que serviu de alicerce a uma palestra que Raquel Naveira proferiu na União Brasileira de Escritores, no Rio de Janeiro, sobre o famoso heterônimo de Fernando Pessoa, e “O Cântico dos Cânticos: um Jardim Fechado”, sobre o maior cântico nupcial escrito até hoje, atribuído ao rei Salomão.

O livro está dividido em seis partes e um epílogo, a saber: “Abre-se o Leque” (caminhos do autoconhecimento); “As Hastes do Leque” (assuntos dramáticos); “A Renda do Leque” (sofrimentos e dores); “Os Adornos do Leque” (leituras, quadros e música); “Fecha-se o Leque” (os labirintos interiores); “O Mofo no Leque” (textos escritos durante a pandemia do novo coronavírus) e “Epílogo” (“O Caçador de Esmeraldas”). Da primeira à última página nos defrontamos com a figura da mãe da autora, falecida recentemente, e que faz deste livro uma valiosa homenagem ao amor materno, referência direta ao leque como objeto de uma lembrança afetiva e como símbolo de vaidade e sedução.

Dados biográficos da autora

Raquel Naveira nasceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no dia 23 de setembro de 1957. É formada em Letras e em Direito pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). Escritora, professora universitária aposentada pela UCDB, crítica literária e palestrante. Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, autora de vários livros de poemas, ensaios, romance e infanto-juvenis. Colaboradora de diversos jornais e revistas como o “Correio do Estado” (MS), a revista “Conhece-te” (Minas Gerais), “Jornal de Letras” (RJ), o jornal “Linguagem Viva” (SP), entre outros. Deu palestras em várias universidades do Rio de Janeiro e de São Paulo e em aparelhos culturais como Casa das Rosas, Casa Mário de Andrade, Casa Guilherme de Almeida e PEN Clube do Brasil. Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, à Academia Cristã de Letras de São Paulo e ao PEN Clube do Brasil. Sócia correspondente da Academia das Ciências de Lisboa, Classe de Letras.

Livros publicados

“VIA SACRA”, poesia. Campo Grande/MS, edição independente, 1989.

“FONTE LUMINOSA”, poesia. São Paulo/SP, Massao Ohno, 1990.

“NUNCA-TE-VI”, poesia. São Paulo/SP, Estação Liberdade, 1991.

“FIANDEIRA”, ensaios. São Paulo/SP, Estação Liberdade, 1992.

“GUERRA ENTRE IRMÃOS: poemas inspirados na Guerra do Paraguai”, poesia. Campo Grande/MS, edição independente, 1993.

“SOB OS CEDROS DO SENHOR: poemas inspirados na imigração árabe e armênia de Mato Grosso do Sul”, poesia. São Paulo/SP, Scortecci Editora, 1994.

“CANÇÃO DOS MISTÉRIOS”, poesia. São Paulo/SP, Paulus, 1994.

“ABADIA”, poesia. Rio de Janeiro/RJ, Imago, 1995.

“MULHER SAMARITANA”, prosa poética. Aparecida/SP, coleção Figuras Humanas, Santuário, 1996.

“MARIA MADALENA”, prosa poética. Aparecida/SP, coleção Figuras Humanas, Santuário, 1996.

“CARAGUATÁ”, poemas inspirados na Guerra do Contestado. Dourados/MS, Fundação Cultural R. Sovierzoski, 1996.

“PELE DE JAMBO”, infanto-juvenil. Belo Horizonte/MG, RHJ, 1996.

“O ARADO E A ESTRELA”, ensaios. Campo Grande/MS, Editora UCDB, 1997.

“RUTE E A SOGRA NOEMI”, prosa poética. Aparecida/SP, coleção Figuras Humanas, Santuário, 1997.

“INTIMIDADES TRANSVISTAS”, poemas ilustrando quadros de Valdir Rocha, participação de vinte poetas entre os quais Renata Pallottini, Jorge Mautner e Ives Gandra. São Paulo/SP, Escrituras, 1997.

“CASA DE TECLA”, poemas. São Paulo/SP, Escrituras, 1998.

“SENHORA”, poemas. São Paulo/SP, Escrituras, 1999.

“STELLA MAIA E OUTROS POEMAS”, poemas. Campo Grande/MS, Editora UCDB, 2001.

“XILOGRAVURAS”, Livro de xilogravuras do artista plástico Valdir Rocha, com conjuntos de poemas de Álvaro Alves de Faria, Celso de Alencar, Eunice Arruda e Raquel Naveira com Nus Frontais, prefácio de Nelly Novaes Coelho (USP). São Paulo, Escrituras, 2001.

“MARIA EGIPCÍACA”, ensaio baseado em sua Dissertação de Mestrado. Campo Grande/MS, Editora UCDB, 2002.

“CASA E CASTELO”, reunião dos poemas de CASA DE TECLA E SENHORA. São Paulo, Escrituras, 2002.

“TECELÃ DE TRAMAS”, ensaios sobre interdisciplinaridade. Campo Grande/MS, Editora UCDB, 2004.

“PORTÃO DE FERRO”, poesias. São Paulo, Escrituras, 2006.

“LITERATURA E DROGAS”, e outros ensaios. Rio de Janeiro, Nova Razão Cultural, 2007.

“CAMINHOS DE BICICLETA”, crônicas. São Paulo, Miró, 2010.

“SENHORA”, poemas. Coimbra/Portugal, Temas Originais, 2010.

“SANGUE PORTUGUÊS: raízes, formação e lusofonia”, poemas. São Paulo, Editora Arte & Ciência, 2012.

“GUTO E OS BICHINHOS 1 e 2”, coleção infantil ilustrada por Guto Naveira. Campo Grande, Alvorada, 2012.

“ÁLBUNS DA LUSITÂNIA”, romance. Campo Grande, Alvorada, 2012.

“QUARTO DE ARTISTA”, ensaios. Rio de Janeiro, Ibis Libris, 2013.

“DORA: A MENINA ESCRITORA”, infantil. Campo Grande/MS, Alvorada, 2014.

“JARDIM FECHADO”, uma Antologia Poética. Porto Alegre/RS, Vidráguas, 2016.

“O AVIÃO INVISÍVEL”, crônicas. Rio de Janeiro, Íbis Libris, 2017.

“MAR DE ROSAS”, crônicas. Guaratinguetá/SP, Penalux, 2018.

“MENINA DOS OLHOS”, poemas. Guaratinguetá/SP, Penalux, 2018.

“POEMAS PORTUGUESES”, poemas. Campo Grande/MS, Life, 2019.

“LEQUE ABERTO”, crônicas/ensaios. Guaratinguetá/SP, Penalux, 2020.

João Carlos Taveira, poeta e crítico, possui diversos livros publicados. É colaborador do Jornal Opção.

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