Quinze anos sem a “Obscena Senhora” Hilst

Falecida em 4 de fevereiro de 2004, Hilda Hilst é considerada pela crítica uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século 20. A poética hilstiana foi tema de mestrado da escritora goiana Dheyne de Souza

Foto: Reprodução

“Tudo por amor à língua, entendes?”
(Hilda Hilst, em “Fluxo”, 1970)

Intensa, imprevisível, inrotulável. Imponderável e, sim, empoderada, mesmo décadas e décadas antes do predicativo existir e ficar tão em voga. E predicativos não faltam a Hilda Hilst. Em seus 73 anos de vida, Hilda foi inúmeras coisas, mas nunca, jamais, em tempo algum, foi uma mulher trivial. Hilda Hilst (1930-2004) foi ficcionista, cronista, dramaturga e poeta brasileira. Detestava ser chamada de “poetisa”, pois acreditava que atribuía à mulher uma condição ‘menor’. Muito mais intensa que sua carreira, foi sua vida pessoal. Esteve sempre tão à frente de seu tempo, que não à toa, quinze anos após sua morte, tem sido cada vez mais aclamada, lida e difundida no Brasil e no exterior. É considerada pela crítica especializada como uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século 20. Não apenas pelo que produziu, mas pelo que viveu, Hilda foi uma mulher admirável.

Um dos reflexos deste prestígio póstumo foi a inserção do nome de Hilda Hilst no panteão de homenageados pela Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que elegeu a escritora como personalidade laureada da edição de 2018. Hilda foi a terceira mulher homenageada pelo evento, depois de Clarice Lispector (2005) e Ana Cristina Cesar (2016). Em vida, no entanto, Hilda passou ao largo da fama e do reconhecimento. Seus escritos ficaram no obscurantismo e era tida como uma autora temperamental e hermética. Nem mesmo as obras consideradas pornográficas alcançaram retorno comercial. A deferência da Flip sagrou-se como um verdadeiro divisor de águas. Desde então, suas obras vêm sendo reeditadas por editoras como Companhia das Letras e L&PM Pocket.

Até mesmo o cinema se rendeu ao charme de Hilda. As obras “Matamoros” e “O Unicórnio” foram adaptadas para o cinema, tendo esta última sido exibida durante a Mostra Generation, do Festival de Berlim de 2018. A cineasta Gabriela Greeb também levou às telonas “Hilda Hilst pede contato”, documentário que mostra uma viagem de dez anos da diretora pelas tentativas de contato da escritora com o mundo sobrenatural. As imagens foram devidamente registradas por Hilda em fitas cassete ao longo do tempo. No âmbito acadêmico, esse interesse também rende cada vez mais teses e dissertações.

Por quatro anos, a escritora goiana Dheyne de Souza mergulhou de cabeça no universo de Hilda. Em março de 2018, Dheyne defendeu a dissertação “As Paredes Do Indizível: Em Torno De ‘Fluxo’, De Hilda Hilst” para conclusão do curso de Mestrado em Estudos Literários da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás (FL-UFG). A mordacidade da autora foi um dos aspectos que mais seduziu a goiana. “Gosto muito de sua obra porque Hilda é muito crítica, em todos os gêneros (poesia, prosa, teatro e crônica). Ela também faz um trabalho de linguagem muito elaborado, metafórico, irônico. As angústias que o texto dela traz batem bem fundo em mim, porque tocam em questões que eu tenho muita curiosidade, como a verdade, a dignidade de escrita, o papel da arte e do escritor. Ainda mais em tempos como estes”, comenta.

Para esse estudo, Dheyne centrou-se na análise do  texto “Fluxo”, que abre o livro “Fluxo-Floema” (1970), estreia de Hilst na ficção, tendo como subsídio teórico-metodológico o conceito de testemunho. “Nessa análise, o indizível é investigado a partir da chave do trauma, considerando a importância da necessidade de dizer em tensão com a impossibilidade de se expressar, o que se liga ao desejo de comunicação com o outro. Como conclusão, identificamos uma linguagem que sobreviveu às catástrofes, por isso uma linguagem-testemunha, e que diz, nas marcas de suas imagens poéticas, o indizível”, aprofunda.

Esse caráter testemunhal está amparado na escrita de Hilda por características como a releitura da tradição lírica na sua poesia, o seu teatro ligado à necessidade de comunicação com o outro e a produção chamada erótica/pornográfica como uma transgressão literária e política. “O dizer poético hilstiano, mais detidamente no texto ‘Fluxo’, é entrecortado por quebra de pontuações, não demarcação de falas, vozes que se misturam, gêneros que subvertem, temas que se tensionam, fragmentação, oralidade, violência, opressão, silêncios, urros. O caráter dramático e as vozes rompem o perfil consagrado de uma ‘literatura de testemunho’. Todavia, isso não elimina a possibilidade de encontrar tal teor testemunhal na sua literatura”, pontua Dheyne.

Dheyne de Souza: escritora goiana teve a obra de Hilda como objeto de estudo no mestrado e agora fará doutorado na USP | Foto: Helô Sanvoy

Ao levantar a trajetória literária de Hilda Hilst e debater a fortuna crítica, Dheyne verifica ainda o aspecto da violência, que em vários níveis mostra-se como uma ferida na linguagem hilstiana desde os seus primeiros poemas até o teatro (em tempos de ditadura militar no Brasil), a crônica e a prosa. “Sendo ‘Fluxo-Floema’ o primeiro livro de ficção de uma poeta, contíguo à produção teatral e sua força sociopolítica, é notável, nas cinco narrativas líricas, o conflito do escritor com a sua necessidade de dizer ante a impossibilidade de se expressar, o que se dá em constante crítica a um sistema opressivo. É possível considerar, portanto, que a repetição explícita ou implícita de que ‘não há salvação’, vista como ironia, liga a palavra a um ato de liberdade e de dignidade de escrita”, conclui.

As possibilidades de investigação teórico-metodológica da obra de Hilda Hilst não se esgotaram para Dheyne de Souza. A escritora goiana mudou-se no mês de janeiro para São Paulo. Na grande metrópole, Dheyne inicia em março o curso de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo (USP). “Continuarei pesquisando a Hilda Hilst, desta vez fazendo relações com a ditadura. Acho que será muito bom”, anima-se.

Intensa em vida e obra
Amor, morte, loucura, transcendência. E sexo. E desejo. Esse é o escopo temático da obra de Hilda, deusa obscena das palavras. Criadora de textos em que atemporalidade, real e imaginário se fundem, e os personagens mergulham no intenso questionamento dos significados, buscando compreensão e encontro do essencial, Hilda retrata sem cessar a frágil e surpreendente condição humana.

O interesse pela literatura se deu desde a infância. Era leitora de Samuel Beckett, Friedrich Hölderlin, Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke, René Char e Saint-John Perse. Estreou na literatura aos 20 anos com um livro de poesia e foi recebida com entusiasmo por Cecília Meireles e Jorge de Lima, de quem era leitora. Iniciou sua produção literária em São Paulo, com o livro de poemas “Presságio” (1950). Aos 22, formou-se em direito pela Universidade de São Paulo, onde conheceu a escritora Lygia Fagundes Telles, com quem manteve laço duradouro. Após a formatura, viajou pela Grécia, Itália e França.

Paulista de Jaú, Hilda era filha do casal Bedecilda Vaz Cardoso e Apolônio de Almeida Prado Hilst, cafeicultor filho de imigrantes da Alsácia-Lorena. Seu pai foi diagnosticado com esquizofrenia e internado num sanatório quando Hilda tinha cinco anos. Foi casada com o escultor Dante Casarini e não teve filhos. Distante dos grandes centros, recebia para temporadas breves e longas artistas e escritores como Mora Fuentes e Caio Fernando Abreu.

Em 1965, ela se muda para Campinas e inicia a construção da Casa do Sol, para ser um porto seguro de sua criação. É na Casa do Sol que Hilda dedica-se exclusivamente ao trabalho literário, realizando ali mais de 80% de sua obra. Em 1967, ela estreia na dramaturgia e em 1970, na ficção, com “Fluxo-Floema”. Dona de uma linguagem inovadora e abrangente, Hilda produziu mais de 40 títulos, entre poesia, teatro e ficção, e escreveu por quase 50 anos, recebendo importantes prêmios literários do Brasil.

Muitos de seus livros tiveram as edições originais esgotadas. A partir dos anos 2000, a Globo Livros reeditou sua obra completa, e em 2016 os direitos de publicação passaram para a Companhia das Letras. Hilda já ganhou traduções em países como Itália, França, Portugal, Alemanha, Estados Unidos, Canadá, Argentina. O acervo pessoal deixado pela escritora se divide, hoje, entre a Sala de Memória Casa do Sol — onde há, inclusive, produções inéditas — e o Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulálio da Universidade Estadual de Campinas (Cedae-Unicamp).

Recebeu prêmios como o Jabuti, o APCA, o Pen Clube São Paulo, o Cassiano Ricardo e está traduzida para o inglês, francês, espanhol, basco, alemão, italiano, norueguês e japonês. Grande parte de seus livros foi publicada pelo célebre editor independente Massao Ohno em volumes feitos com apuro estético, mas de reduzida circulação. Após sua morte, a Globo Livros relançou toda a sua obra sob os cuidados do crítico Alcir Pécora e, atualmente, tem em catálogo os títulos “Pornô Chic” e “Fico Besta Quando Me Entendem – Entrevistas Com Hilda Hilst” , compilação de entrevistas com a autora.

A reunião de sua obra poética, “Da Poesia”, foi publicada em 2017 pela editora Companhia das Letras. A editora tinha uma série de publicações sobre a autora previstas para 2018, como “Da Prosa”; a adaptação para quadrinhos de “A Obscena Senhora D.”, por Laura Lannes; uma coletânea ilustrada de suas poesias de amor e a edição de “Amavisse” para a Poesia de Bolso. Em 2019, a Companhia lançará uma trilogia erótica e, em 2020, a biografia da autora. Daniel Fuentes, o detentor dos direitos autorais, vem negociando com outras editoras para publicar o que falta de Hilda Hilst, como cartas e inéditos. Sua ideia é ter a obra completa disponível nas livrarias até julho de 2018. (Fonte: Site Hilda Hilst)

Sete vezes Hilda: poemas

Foto: Reprodução

1- Amavisse

Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.

 

2 – Do amor contente e muito descontente – I

Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito.
Tenho me fatigado tanto todos os dias
Vestindo, despindo e arrastando amor
Infância,
Sóis e sombras.
Vou dizer coisas terríveis à gente que passa.
Dizer que não é mais possível comunicar-me.
(Em todos os lugares o mundo se comprime.)
Não há mais espaço para sorrir ou bocejar de tédio.
As casas estão cheias. As mulheres parindo sem cessar,
Os homens amando sem amar, ah, triste amor desperdiçado
Desesperançado amor… Serei eu só
A revelar o escuro das janelas, eu só
Adivinhando a lágrima em pupilas azuis
Morrendo a cada instante, me perdendo?
Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito.
Preparo-me e aceito-me
Carne e pensamento desfeitos. Intentemos,
Meu pai, o poema desigual e torturado.
E abracemo-nos depois em silêncio. Em segredo.

 

3- Prelúdios-intensos para os desmemoriados do amor

I

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.
Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.
Te descobres vivo sob um jugo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.

II

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.
Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.
Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta

III

Contente. Contente do instante
Da ressurreição, das insônias heroicas
Contente da assombrada canção
Que no meu peito agora se entrelaça.
Sabes? O fogo iluminou a casa.
E sobre a claridade do capim
Um expandir-se de asa, um trinado
Uma garganta aguda, vitoriosa
Desde sempre em mim. Desde
Sempre estiveste. Nas arcadas do tempo
Nas ermas biografias, neste adro solar
No meu mudo momento
Desde sempre, amor, redescoberto em mim.

IV

Que boca há de roer o tempo? Que rosto
Há de chegar depois do meu? Quantas vezes
O tule do meu sopro há de pousar
Sobre a brancura fremente do teu dorso?
Atravessaremos juntos as grandes espirais
A artéria estendida do silêncio, o vão
O patamar do tempo?
Quantas vezes direis: és meu. E as distendidas
Tardes, as largas luas, as madrugadas agônicas
Sem poder tocar-te. Quantas vezes, amor
Uma nova vertente há de nascer em ti
E quantas vezes em mim há de morrer

V

Aos amantes é lícito a voz desvanecida
Quando acordares, um só murmúrio sobre o teu ouvido:
Ama-me. Alguém dentro de mim dirá: não é tempo
[senhora,
Recolhe tuas papoulas, teus narcisos. Não vês
Que sobre o muro dos mortos a garganta do mundo
Ronda escurecida?
Não é tempo, senhora. Ave, moinho e vento
Num vórtice de sombra. Podes cantar de amor
Quando tudo anoitece? Antes lamenta
Essa teia de seda que a garganta tece.
Ama-me. Desvaneço e suplico. Aos amantes é lícito
Vertigens e pedidos. E é tão grande a minha fome
Tão intenso o meu canto, tão flamante meu preclaro tecido
Que o mundo inteiro, amor, há de cantar comigo.

 

4- Tenta-me de novo

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me

 

5 – Porque há desejo em mim

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

 

6 – Que este Amor não me Cegue

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.

 

7 – Desejo

Quem és? Perguntei ao desejo.
Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.