Quão longe está o Japão?

A aproximação entre o país do Oriente e o Ocidente é feita de narrativas imaginárias. Livro “Fabulações do Corpo Japonês e Seus Microativismos”, de Christine Greiner, é resultado de longo trabalho de investigação da professora

Christine Greiner: estudos sobre a corporeidade entre Oriente e Ocidente abarcam não apenas a arte, mas também a cultura e a política | Foto: Divulgação

Dirce Waltrick do Amarante*
Especial para o Jornal Opção

“Se eu quiser imaginar um povo fictício, posso dar-lhe um nome inventado, tratá-lo declarativamente como um objeto romanesco […], de modo a não comprometer nenhum país real em minha fantasia.” A frase de “O Império dos Signos”, livro de Roland Barthes sobre o Japão, é sem dúvida alguma fundamental para “Fabulações do Corpo Japonês e Seus Microativismos” (N-1 Edições, 160 páginas), de Christine Greiner, professora da PUC-SP, cujo título afirma desde já que a aproximação entre o Japão e o Ocidente é feita de narrativas imaginárias, como aquela sugerida por Barthes.

Segundo Greiner, as primeiras descrições ocidentais do Japão foram feitas por missionários e viajantes, que destacavam o caráter “exótico” da cultura do país. Caráter esse reforçado mais tarde por Hollywood, cujos filmes ajudaram a alimentar estereótipos que perduram até hoje. Quem foi criança na década de 1980 certamente se lembrará do desenho animado “A Cobrinha Azul”; nele, a tal cobrinha tentava a todo custo comer um “Honolável Besouro Japonês”, mas era vencida pela paciência, inteligência e resignação do inseto oriental.

Entre os que tentaram retratar o Japão, Greiner destaca o trabalho do jornalista grego Lafcadio Hearn (1850-1904), que chegou ao país em 1890, contratado pela revista americana “Harper’s” para escrever sobre as curiosidades da cultura japonesa. Durante os 14 anos que viveu no país, dedicou-se a escrever sobre pessoas comuns que o ajudassem a “pensar com os pensamentos japoneses”.

Outra figura imprescindível para a aproximação entre o Ocidente e o Japão foi o fotógrafo Felice Beato (1832-1909), que, além de retratar a vida cotidiana dos japoneses, teve acesso a campos de batalha e lugares proibidos a estrangeiros na época, meados dos anos 1800. Beato fotografou desde mulheres lavando os cabelos em bacias até o ato do seppuku (suicídio ritual). Muitas de suas fotos transformaram-se em cartões postais.

Obviamente, Beato era um olhar estrangeiro sobre o Japão, mas como ressalta Greiner, “com o passar do tempo algumas dessas representações acabaram sendo internalizadas pelos japoneses e, a longo prazo, começaram a representar o que parecia um Japão genuíno, mas distante”.

A autora segue seu percurso ao longo de um par de séculos pela história da representação ocidental do Japão, destacando que foi com a revista “Le Japon Artistique”, publicada no final do século XIX, que Siegfried Bing (1838-1905), natural de Hamburgo, mas residente em Paris, “começou a chamar a atenção do público em geral e dos artistas para a necessidade de entender a arte japonesa não apenas como algo exótico”. Houve, contudo, a necessidade de criar um léxico próprio para a estética japonesa. Além disso, era preciso traduzir termos da estética ocidental, muito diferente da estética do Japão.

Título: Fabulações do Corpo Japonês
Autora: Christine Greiner
Editora: N-1 Edições
Preço: R$ 35,80
Foto: Divulgação/N-1 Edições

No governo Meiji (1867-1912), o norte-americano Ernest Fenollosa (1853-1908) foi convidado para proferir palestras sobre, entre outros temas, arte e literatura, mas, como afirma Greiner, “no Japão, ideias de autoria e criação individual não existiam até então e sequer faziam parte do universo dos artistas e aprendizes da cerimônia do chá e das poesias renga, haiku e tanka”. No caso da poesia, era comum “usar versos inteiros de poetas famosos e inserir composições próprias”. Essas poesias eram chamadas honkadori (variação alusiva).

“Fabulações” reflete ainda sobre a ideia de “fabular sobre a potência de ser japonês fora do Japão”, como aconteceu com a dançarina, atriz e gueixa Sadayakko (nome que adotou depois de deixar o Japão). No seu país, Sadayakko não era considerada artista, mas figura polêmica. No ocidente, foi comparada à Sarah Bernhardt e copiada por várias atrizes ocidentais.

Do século XX em diante, a dança japonesa, o nô e o butô exerceram grande influência sobre a arte ocidental. Muitos beberam nessas fontes como, por exemplo, Isadora Duncan e, no Brasil, Haroldo de Campos, interessados na concepção anti-self japonesa.

Não ficam de fora de “Fabulações do Corpo Japonês” os cosplays (pessoas que se vestem como suas personagens favoritas), prática criada nos Estados Unidos, mas que ganha força de fato no Japão; e o micropop, que observa “uma potência latente em fenômenos banais, sugerindo novos contextos” e novas relações de significados.

*Dirce Waltrick do Amarante é autora de “Cenas do Teatro Moderno e Contemporâneo” (Iluminuras)

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.