Quando setembro acabar

Conto escrito em curso de Imersão em Jornalismo Literário: Escrita Criativa e Narrativas Transformadoras; inspirado na música “Contato Imediato”, de Arnaldo Antunes

A brisa rara de setembro batia em seu rosto. Um momento único, considerando o calor que fazia neste mês. Sentado na grama de seu quintal, Júlio observava as estrelas e pensava em como chegou ali. Cansado e tão novo. Como poderia a tristeza bater em sua porta tão cedo?

O tímido som da cigarra que cantava, ao lado do garoto solitário, o fazia pensar nas tardes ensolaradas que viveu. Nunca em sua vida tinha se sentido tão sozinho. “Peço por favor, se alguém de longe me escutar, venha aqui me buscar…”, desejou baixinho. Porém, não baixo o suficiente ao ponto de não ser ouvido. 

“Por que deseja com tanta angústia?”, Júlio ouviu uma voz perguntar.

Olhando ao redor, o garoto não via ninguém. “De onde poderia ter vindo essa voz?”, ficou imaginando. Teria ele ficado louco?

“A angústia vem de dentro, só peço o que eu sinto”, resolveu responder, já que deveria estar imaginando coisas.

Mais um vento bateu. Claro que tinha imaginado. Estava sozinho. Ninguém poderia responder, já que morava apenas com sua mãe desde que tinha 4 anos e ela estava no trabalho desde às 8 horas da manhã. Morava só com ela, já que seu pai não tinha ficado nem para ver o filho sair da pré-escola. Pai. “Onde andaria meu pai?”, o pensamento ressoou de forma súbita na mente do jovem.

“Mas de dentro de onde?”, veio a resposta da voz minutos depois.

Júlio não entendia. “De onde vem essa maldita voz?”, se questionou mentalmente.

“Há! Além de triste, estou ficando louco!”, falou em voz alta e em meio aos risos.

“Louco? Como pode ser louco e angustiado?”, mais uma vez disse a voz.

Levantando em um pulo, o garoto resolveu revirar o quintal à procura da misteriosa criatura que tanto o provocava. Olhou para os lados, atrás da casinha do falecido cachorro, que morreu de cinomose, sem a oportunidade de ir ao veterinário, já que sua mãe não tinha nem o dinheiro para o gás daquele mês. Olhou para cima, onde o esqueleto de sua antiga pipa jazia no fio de energia. Olhou em seus bolsos, acreditando que poderia estar em ligação com alguém, mas nem um celular possuía.

“O que tanto procuras? Ande! Me explique o porquê da angústia!”, clamou a voz.

Sem sinal de onde vinha o som, Júlio se cansou e apenas respondeu: “Posso te explicar o que é essa angústia, mas antes você deve se revelar para mim”, tentou o jovem.

“Me revelar?! Oras, apenas olhe para mim”, respondeu de imediato a voz misteriosa.

“Não te encontro”, disse Júlio entristecido. 

“Não? Como não? Você não encontrou a angústia? Pode me encontrar também. Vamos! Tente”, disse a voz sem entender.

“Não encontrei a angústia, eu apenas vivo com ela desde sempre”, se lembrou.

“Não. Isso não existe. Nunca existiu”, riu a voz.

“Como pode debochar de mim? Nem te vejo e você já ri de mim”, enraiveceu o garoto.

“Ah, me desculpe… Posso me revelar a você, mas antes você deve aceitar fazer um passeio comigo”, disse a voz.

“Passeio? Onde vamos? Como posso andar com algo que nem vejo?”, não entendeu o garoto.

“Ora, vamos! Seja um pouquinho mais esperançoso, quem sabe você não esquece essa tal angústia”, respondeu a voz.

“E aonde vamos? Como você poderia me levar?”, perguntou Júlio enquanto imaginava sendo transportado dali através de um disco voador.

“Ah, mas não seja bobo! Não tem nada de disco voador”, riu mais uma vez a voz misteriosa.

“Como…”, começou a falar o garoto.

“Apenas deite na grama. Vamos! Deite-se”, disse ela.

Sem entender como a voz poderia ter escutado seus pensamentos, Júlio sentiu que a noite não poderia ficar mais estranha, então apenas resolveu obedecer e descansar na grama.

“E agora? Vai contar até três e me pôr para dormir?”, debochou o garoto.

“Não, Júlio. Apenas olhe para o azul do céu. Vamos atravessá-lo hoje”, respondeu a voz com paciência.

“Atravessar o céu? Como eu poderia atravessar o céu?”, perguntou ao sentir mais uma brisa vindo da noite de verão.

“Júlio, deixe a angústia aqui quando começarmos”, avisou a voz. Porém, o garoto não entendeu o que aquilo poderia significar.

“Mas  o que…”, começou mais uma vez a perguntar.

“Deixe ela ir, apenas deixe… Você precisa deixar ela ir!”. Júlio ouviu a voz dizendo, porém cada vez mais baixo. Não entendia nada daquilo, o que poderia significar tais palavras? Não entendia como poderia deixar um sentimento ir embora quando toda sua vida se entrelaçou a ela.

Sentindo mais uma vez o vento frio em seu rosto, o jovem desconfiou de setembro. Nunca tinha sentido tanto frio no mês mais quente do ano. Foi então que percebeu: alguma coisa estava acontecendo com seu corpo, parecia mais leve, mais distante do chão também. Olhou para baixo, o solo estava distante. Lá de cima conseguiu observar o barraco que morava com sua amada mãe desde sempre, desde quando o pai foi. E depois quando a luz também foi embora, depois quando a água foi, depois quando a dignidade foi. E, mais uma vez, só sobrou ela: a angústia.

No meio dos pensamentos, havia então percebido: estava flutuando. Longe, tão longe do chão. O garoto então sentiu seu coração disparar. Tentou se mover, porém, mais uma brisa fria encharcou e, desta vez, todo o seu corpo foi abraçado por uma imensidão. 

Calma. Tudo o que sentiu ali foi calma. Sentiu sua pulsação finalmente se recuperando. Estava voando. Estava sentindo o mar que é o enorme céu azul. Ao abrir os olhos, após sentir o doce sabor do espaço sideral, Júlio conseguiu observar o enorme carrossel de estrelas que se formavam diante dele. Não sabia sobre astronomia, não sabia o nome de cada constelação, nem sabia nomear as mais conhecidas. Porém, naquele momento, Júlio sabia que avistava um carrossel delas.

Levantando os braços para sentir aquela poeira cósmica, o garoto observou uma delas se aproximando das palmas de suas mãos. Ao erguer, viu um balão. Não qualquer balão, mas sim o único balão de gás hélio que havia ganhado em sua vida. Aquele que viu na feira com sua mãe há alguns anos atrás. O único brinquedo que possuiu depois de anos. O mesmo em que sua mãe teve que deixar de comprar as verduras do mês inteiro para conseguir comprar. Tudo isso apenas para ver o filho sorrindo. E foi o mesmo balão que nem chegou a testemunhar as lágrimas de despedida quando ele escapou das mãos do garoto na volta para casa.

Indo por onde for, Júlio se permitiu aquela sensação gostosa que só sentia ao conseguir arrancar um sorriso de sua mãe quando ela chegava de um dia cansativo de trabalho. E com esse pensamento, mais uma brisa suave o atingiu e, junto dela, o amado som da gargalhada.

“Mãe? Mãe é você?”, perguntou Júlio baixinho sem acreditar no que seus ouvidos testemunhavam. “Mãe, volta já! Volta para casa agora!”, gritou no espaço sideral. Porém, a risada ia ficando cada vez mais distante. E de repente, o carrossel de estrelas começou a girar ainda mais rápido. 

Observando incrédulo, Júlio viu o emaranhado de estrelas revelar o que parecia ser os traços de seu pai. “Não quero te ver. Traga de volta minha mãe!”, gritou o garoto para o além. 

“Júlio! Júlio! Você deve deixar ela ir. Vamos Júlio, deixe a angústia ir”, clamou a misteriosa voz em seu retorno.

“Não posso deixar ela ir. Não sou nada sem ela. Não me conheço sem ela”, começou a disparar Júlio em meio às lágrimas.

“Oras, Júlio, não foi sua culpa. Deixe a ir!”, choramingou a voz.

“Eu não estava lá! Como pode não ser minha culpa se eu não estava lá?”, gritou mais uma vez o garoto.

“Júlio, você tem que se lembrar…Se lembre!”, se afastou mais uma vez a voz.

Navegando mais uma vez na imensidão do céu, outra onda de vento o atingiu. Desta vez, agressiva e de atropelamento, que foi levando o garoto cada vez mais longe do carrossel que ainda formava a figura de seu pai. Se distanciando cada vez mais, Júlio parou em um lugar opaco e desprovido de qualquer possibilidade de luz. Não entendia muito de astronomia, mas se perguntou se não tinha ido parar em um buraco negro.

“Onde estou?”, gritou o garoto. 

Silêncio.

“Ei, voz! Onde estou?”

Silêncio.

Silêncio.

Silêncio.

Silêncio.

Silêncio.

Não aguentava mais a escuridão silenciosa que o cercava. 

Silêncio.

Onde estava?

Silêncio?

“Onde eu estava?”, se perguntou.

“Naquela noite, onde eu estava?”, mais uma vez se questionou.

Silêncio.

Silêncio.

Silêncio.

O silêncio parou. De repente, como mais uma onda de vento, as lágrimas escorreram de seu rosto. O buraco foi ficando menor, consumindo-o mais e mais.

“Você estava lá, pequenino. Se lembre”, dessa vez não era a voz misteriosa. Era a dona do sorriso. A proprietária da gargalhada.

Então, sem acreditar que era possível, mais uma brisa o atingiu.

Era uma tarde fresca de verão, Júlio jogava bola na rua como sempre fazia quando voltava da escola e sua mãe conseguia sair do trabalho mais cedo e fazer hora extra no domingo para compensar. Estava fresco, fresco como setembro nunca conseguia ficar. Se divertia como sempre com os colegas da rua.

“Oh, mãe! Olha eu aqui, ôh!”, disse acenando para sua mãe que descascava uma laranja e as tiras da já então pelada fruta caiam no chão.

“Ei, menino! Cuida aí, vai levar um olê!”, respondeu a mãe rindo da situação.

Voltando ao jogo, Júlio queria provar para a mãe que isso não ia acontecer. Ele era bom, se garantia na bola. Ia ser um jogador profissional e tirar a mãe daquela casa, pelo menos era o que sempre contava aos colegas. Correndo rumo ao gol, Júlio conseguiu marcar o ponto e, aos berros, saiu correndo e exclamando: “Essa é pra você!”.

Ao apontar para mãe, viu a matriarca conversando com um homem. Aquele homem. “O que fazia aquele homem aqui?”, se perguntou a criança. O homem. O homi. O. Sempre diminuiam as palavras, já que nem gostavam de falar sobre ele dentro de casa. “O que o O faz aqui?”, observava o garoto.

“Vêm, Júlio. Bora terminar”, gritou uma criança da rua.

“Calma aê! Vou só beber uma água”, respondeu e foi andando em direção de onde a mãe acabava de sair com o Homem, ou melhor, homi, melhor ainda, O. Entrando na casa, Júlio ouviu as vozes de discussão. “Mais uma vez não. Faz parar”, clamou o jovem já com as mãos nas orelhas. “Não consigo mais uma vez, faz parar!”, suplicava ele.

Porém, dessa vez, os gritos de discussão se tornaram gritos que Júlio nunca ouvira a mãe fazer. E cadê os gritos do pai? Não ouvia a voz dele mandando ela calar a porra da boca

“Socorro!”, o grito diferente da mãe veio.

Não conseguia. Tapou as orelhas mais uma vez e desejou que acabasse. “Eu desejo. Eu desejo. Eu desejo…”, dizia o menino sem parar até cessarem os gritos. O pedido havia se realizado. Os gritos pararam. Mas Júlio resolveu ficar ali, escondido atrás do sofá da sala, porque a mãe sempre sabia onde encontrá-lo. 

Ela não veio.

Silêncio.

Horas passaram.

Silêncio.

Luzes vermelhas e brancas começaram a circular.

Silêncio.

Não. O silêncio é interrompido com o barulho das sirenes da ambulância.

“Corpo de uma mulher negra foi encontrado dentro de casa no Bairro de Santa Vitória. O suspeito é o ex-marido e foi visto saindo agora há pouco pelos vizinhos”, ouviu uma voz robotizada dizer.

“Ela não tinha um filho? Cadê ele?”, perguntou uma voz masculina.

“Não sei, deve ta jogando bola. Vou lá chamar ele”, respondeu outra pessoa.

Silêncio.

Silêncio.

Silêncio.
Silêncio.

“Júlio, te encontrei. Não foi sua culpa, Júlio”, disse aquela voz misteriosa, mas dessa vez ao lado de seu ouvido, no meio do buraco negro.

“Mas eu estava lá e não fiz nada!”, chorou mais uma vez.

“Você era apenas uma criança, meu pequeno. Isso não deveria ter acontecido. Não havia nada que você pudesse fazer. Júlio, deixe ela ir…Você deve deixar ela ir. Você não nasceu com ela. Vamos, deixe ela ir”, disse a voz.

“Não posso deixar minha mãe ir!”, rebateu ele.

“Não, Júlio. A angústia. Não deixe ela te consumir. Veja! Olhe ao redor! Veja como ela está perto de você. Não deixe ela entrar, não deixe ela te consumir”, falou mais uma vez.

Júlio olhou ao redor. Estava preso em um buraco que havia criado. “Como poderia sair daqui”, imaginou. 

“Deixando ela ir…”, falou novamente a voz.

Havia entendido. Depois de anos. Depois de viver em vários lares para menores. Depois de sempre fugir destes lugares e voltar ao barraco. A casa que havia crescido com sua mãe. Não tinham nada, mas se orgulhavam do quintal que tanto regavam com amor, só para poderem se deitar nas noites quentes de setembro. Deveria deixar ela ir.

A brisa. A brisa que imaginou que nunca mais sentiria chegou. Então fechou os olhos e deixou a escuridão o abraçar. Mais uma vez estava flutuando. Flutuando na imensidão do espaço sideral. Não sabia nada de astronomia, mas sabia que aquela era a galáxia. E, naquele momento, ela pertencia a Júlio.

Com os olhos abertos novamente, Júlio se viu mais uma vez em seu quintal. Porém, já não era mais como se lembrava. A grama estava alta e a toalha que jurava que tinha sido estendida, já não estava à vista. As cigarras cantavam mais alto que nunca. “Vai chover, mas no começo de setembro?”, se questionou mentalmente.

“Nem é setembro, Júlio. Desde quando as cigarras cantam em setembro?”, disse a voz em meio a risos leves.

“Você!”, gritou o jovem.

“Veja só, Júlio. Você deixou ela ir. O que acha?”, perguntou a voz.

“Não tenho certeza. Me lembro dela às vezes. Isso é deixar ela partir?”, perguntou ele.

“O que fica quando a lembrança vai embora, meu menino?”, indagou a voz.

“Saudade. Paz. Dor. Raiva… Muitas coisas.”, respondeu Júlio.

“E ela, Júlio. Ela fica?”, perguntou novamente a voz.

“Ela não”, terminou Júlio.

“Que bom…”, disse baixinho a voz.

“Espere! Não vá embora! Lembre-se! Você prometeu que se eu fosse no passeio você se revelaria”, tentou Júlio.

“Há há, Júlio. Isso foi há anos!”, disse gargalhando.

“Não importa. Quero te ver”, disse por fim. 

“Ao tocar da última brisa em seu rosto, encontre novamente o carrossel. Lá estarei eu.”, disse a voz mais baixa a cada pronúncia de palavras.

Sem entender o que aquela frase significava, Júlio se sentou em meio a grama não podada. Observava a casa que cresceu e onde sua mãe partirá em meio a tanta violência. Feminicídio. Foi uma das palavras difíceis que disseram a ele quando criança. O culpado? O O. Nem 10 anos de prisão. O homem tentou entrar em contato com Júlio e explicar que estava bêbado e com raiva, já que a mãe cobrava as pensões acumuladas. Ela queria colocar o menino em uma escolinha de futebol. “Não foi minha culpa”, passou a ser o novo mantra de Júlio ao invés de “Peço por favor, se alguém de longe me escutar, venha aqui me buscar…”.

Afogado nos pensamentos, Júlio sentiu uma brisa gostosa e fria, desta vez. “Ao tocar da última brisa, procure o carrossel”, se lembrou. Olhou então para a imensidão do céu azul e lá estava ela: o sorriso de sua mãe.

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