Prós e contras de José de Alencar

Apesar de o leitor contemporâneo achar monótona a leitura de alguns romances do escritor cearense, ele é um dos maiores romancistas brasileiros, o primeiro entre os mais relevantes de conhecimento público (que não passam de oito)

José de Alencar (1829-1877): patriarca da ficção nacional, na exata acepção do termo, sua importância não é apenas histórica como a do antípoda Gonçalves de Magalhães, é também estética

J. C. GUIMARÃES
Especial para o Jornal Opção

Normalmente a ideia que se faz de um bom romance pressupõe apenas evolução, crescimento, ascendência. A história nunca pode declinar, descontado o fato de que todos (ou quase todos) terminem mal. Um conjunto de fatores contribui para que, mesmo quando a realidade se impõe, ao menos o interesse do leitor permaneça em pé. Isso não acontece a partir dos últimos capítulos de “Lucíola”.

José de Alencar poderia ter concluído o livro no capítulo 19, revelador, surpreendente e muito imaginativo: a febre amarela adoeceu a família quando a protagonista era criança, levando-a a prostituir-se aos 14 anos. A partir daí (mais dois capítulos), a impressão que temos é de que o romance malogra, bruscamente. Não porque Lúcia morre (de loucura) e a história de amor termina mal. Escrita em 1862, “Lucíola” integra, juntamente com “Senhora”, o estudo da sociedade urbana fluminense daquele período. É, sobretudo – como declara o narrador –, um “perfil de mulher”.

A história de Maria da Glória (Lúcia) é interessante, principalmente depois que revela seus motivos, e o quadro se completa, aos olhos do leitor. Ela é uma garota de programa – “cortesã”, como se dizia naquele tempo – que se resgata pelo amor de Paulo, único homem que evita explorá-la. Paulo luta por uma correspondência total e egoísta, que não exclui o sexo. Talhado pela sociedade do Segundo Império, sacrifica-se à honra, disposto a pagar o devido crédito à opinião pública. Vive na tensão entre o convencionalismo moral e a rebeldia dos sentidos, prevalecendo enfim o primeiro.

Relevância

Neste romance, o problema de Alencar, insuperável do nosso ponto de vista – da sensibilidade moderna –, transcende o autor e suas contingências sociais porque é metaestrutural. Em consequência, expõe seus limites de ficcionista e justifica, por contraste, o lugar de Machado de Assis: escritor cujo talento maior superou os fundamentos do próprio romantismo. Não significa que Alencar não seja grande. Uma leitura sensível notará inclusive a semelhança de dicção, e até do estilo perpassado de vocativos, entre ele e o sucessor genial.

Alencar é um dos maiores romancistas brasileiros, com justiça, o primeiro entre os mais relevantes de conhecimento público (que não passam de oito). Estamos falando do patriarca da ficção nacional, na exata acepção do termo. Sua importância não é apenas histórica como a do antípoda Gonçalves de Magalhães, da “Confederação dos Tamoios”. É também estética: ninguém discute as qualidades literárias de um livro como “Senhora”, ou mesmo “Lucíola”. Trama, estrutura, caracterização, está tudo aí, satisfatoriamente bem resolvido, com o auxílio de um tino para a veracidade muitas vezes impressionante, como o trecho abaixo:
“Conhecendo o meu passo, ela jogou de si a costura, e precipitou-se para mim; trazia o sorriso orvalhado de carícias, o olhar cheio de candura.

– Infame!

A indignação e o desespero que fermentavam no meu seio borbotaram nessa única palavra, grito e soluço de uma angústia cruel. Lúcia tornou-se lívida; vacilou. Com um supremo esforço, dominando a vertigem que a tomava, cobriu-se com um olhar frio, cheio de tanta dignidade e altivez, que me colou imóvel sobre o chão. Assim pasmo e quedo, vi-a atravessar com lentidão a sala e desaparecer detrás de uma porta, que se fechou surdamente. Parece-me ouvir selar a lousa do túmulo, onde eu acabasse de sepultar uma porção de minha alma.”

Ninguém discute as qualidades literárias de um livro como “Senhora” ou “Lucíola”. Trama, estrutura, caracterização, está tudo aí, bem resolvido

Chororô

O que ninguém aguenta mais, e por isso ameaça a permanência literária de Alencar, é o romantismo, naquilo que o movimento tem de mais crônico e repugnante: o chororô sem fim. É curioso como a escola durou tanto. Dura até hoje, entre escritores menores e sem futuro. Um dos possíveis motivos é a imagística saturada, seja na prosa ou na poesia dos originais do século 19.

O próprio Alencar cria imagens em profusão, às vezes de uma beleza indiscutível, mas nem sempre desejáveis, contaminadas que estão por aquele doce que repugna. Há uma cena, ao contrário da anterior, em que parece haver uma dramaticidade esquemática demais, para acreditarmos em sua naturalidade:

“…Não me retires a graça e a bênção que me deste! Salva-me, Paulo! Salva-me de ti. Salva-me de mim mesma!…

Deixou-se cair em meus pés, e sua voz espedaçou-se num grito pungente.

– De mim que não terei forças para resistir, se a tua coragem me não exaltar.

Ergui-a, fazendo-a sentar-se nos meus joelhos. Ela deixou-se atrair com meiga confiança. Seu instinto sutil lhe dizia que não devia temer naquele momento; adivinhava o respeito e a unção de que minha alma a envolvia, santificando-a.”

Sensibilidade da época

O momento em geral não é bom para esse tipo de prosa. Talvez os leitores do século 19 se sentissem perfeitamente traduzidos nesta passagem, que a rigor teria o que dizer apenas para a sensibilidade da época. Já os relacionamentos atuais traduzem o que o notável sociólogo polonês Zygmunt Bauman definiu como “amor líquido”, onde não há o menor espaço para qualquer sentimentalismo, predisposição íntima em que a pena de Alencar esmera.

Particularmente, em “Lucíola”, a dose de emoção é concentrada nos dois últimos capítulos, e haja saco para suportar a transição de uma cortesã em santa por meio de recursos ideológicos tão enjoativos:

“– Tu me purificaste ungindo-me com os teus lábios. Tu me santificaste com o teu primeiro olhar! Nesse momento Deus sorriu e o consórcio de nossas almas se fez no seio do Criador. Fui tua esposa no céu!”

Ninguém pode negar que a vítima de uma história tão sofrida quanto a de Lúcia realmente se torne uma doente mental, e que se perca em delírios místicos. Alencar é coerente. Mas depois de 150 anos não há quem ature esse tratamento linguístico, esse gosto pela ênfase virginal que causa tanto ruído aos nossos ouvidos.

J. C. Guimarães é historiador e ensaísta

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