“Prometeu Americano” é uma obra-prima da poeta Yêda Schmaltz

Reconhecimento da crítica deve-se à sua técnica apurada, ao preciosismo linguístico, à erudição e ao rico arsenal de intertextos

Simone Athayde

Yêda Schmaltz (1941-2003) foi uma das poetas mais profícuas e premiadas de Goiás. Dos quatorze livros de poesia que lançou, vários deles receberam premiações, incluindo quatro primeiros lugares na Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos. O reconhecimento da crítica deve-se à sua técnica apurada, ao preciosismo linguístico, à erudição, ao rico arsenal de intertextos, ao complexo e elaborado trabalho de escrita e às criativas composições poéticas. A obra de Yêda não é fruto apenas da vocação para as Letras nem da transposição para o papel de sentimentos e emoções, mas é toda ela bem pensada e elaborada a partir do estudo de temas, muitos deles pertencentes à mitologia, reformulados com requinte e sistemático trabalho de escrita.

O livro “Prometeu Americano”, publicado em 1995, parte de um dialogismo com a mitologia grega para falar da condição de mulher, brasileira, poeta, nos anos 90, o que poderia ter ficado datado não fosse a habilidade da autora para lidar com questões universais e, ainda, devido ao movimento pendular da História que nos faz reconhecer nos versos de Yêda o mesmo locus problemático que persiste ainda hoje.

Antes de falar sobre alguns poemas desse livro, seria interessante relembrar resumidamente o mito do qual ele parte. Prometeu é um dos personagens mais queridos da mitologia grega. Segundo nos conta a narrativa, ele era um dos muitos deuses do Olimpo. Seu irmão, Epimeteu, ficou encarregado de criar os animais e os homens que habitariam o mundo. Cada ser foi criado com capacidades e habilidades para bem sobreviver, mas quando chegou a hora de criar o homem, ele viu que os recursos de que disponha haviam acabado. Então, Prometeu ajudou o irmão a criar o homem do barro da terra e, para que ele não ficasse tão indefeso, roubou dos deuses o segredo de fazer o fogo e o ofereceu à sua criação. Zeus, o deus supremo, ficou muito irritado e, para punir Prometeu, mandou que o acorrentassem a uma rocha no alto do monte Cáucaso, onde todos os dias uma águia vinha comer seu fígado, provocando nele dores horríveis. Como Prometeu era imortal, durante as noites seu fígado regenerava para, na manhã seguinte, recomeçar o doloroso ciclo.

Prometeu acorrentado

Não satisfeito, Zeus arma um plano para prejudicar a criação de Prometeu. Ele cria a primeira mulher, chamada Pandora, e a presenteia ao homem. Pandora carrega uma caixa na qual estão encerrados todos os males do mundo e um único dom, a esperança. Zeus recomenda a ela que de forma alguma abra a caixa, mas, como a fez curiosa, a mulher acaba desobedecendo sua ordem e espalhando pelo mundo toda sorte de desgraças. Arrependida, fecha a caixa a tempo de guardar nela a Esperança. Por isso dizem que, ao ser humano, mesmo nas piores condições, ainda resta esta virtude.

Esse mito de Prometeu e Pandora deu origem a várias interpretações artísticas. Há uma espécie de simpatia dos homens por aquele ser benfeitor que se imola pela humanidade, além de semelhanças entre ele e as narrativas bíblicas da criação do homem, do pecado original e da expiação dos pecados por Jesus.

O livro “Prometeu Americano” é dividido em quatro partes. A primeira, chamada “Prometeu Criador”, conta com um belo poema, o número 3, que podemos considerar como um resumo temático de toda essa obra:

“Eu sou o Prometeu

terceiromundista,

um rato acuado

da Latino América:

o miserável mesmo do Brasil,

este país que, nos anos noventa,

vive no tempo da carroça,

ainda não atingiu o Século XX.

 

Eu sou o Prometeu Americano

que subiu ao céu de Hesíodo,

aguilhoou-se em Ésquilo

e Byron, viajou em La

Barca de Calderón,

esteve com Shelley

e até com o aristocrático

Longfellow.

 

Eu sou, na certa, o Prometeu

que aprendeu de boca aberta

e que amou Leopardi,

Spitteler e Goethe.

 

Prometeu pop, suburbano,

popular, pobre de marré-deci.

O Prometeu Americano

de cantos devastadores,

de dor mais forte e mais dura:

brasileiro que passou

os últimos trinta anos

nas mãos da ditadura;

um Prometeu de mãos dadas

com a tortura.

 

Mas sou o Prometeu

mais Prometeu,

um miserável

pé-rapado do Brasil;

mais Prometeu porque,

sendo mulher, latinamente,

a alma de Pandora me ilumina;

a Pandora da América do Sul,

o Prometeu da América Latina.

O Prometeu, eu sou,

o Prometeu, eu sul,

o Prometeu, eu sol,

o Prometeu, eu soul.

Yêda Schmaltz: a obra da poeta é elaborada a partir do estudo de temas, muitos deles pertencentes à mitologia, reformulados com requinte e sistemático trabalho de escrita

Nesse poema, vemos um eu-lírico que se identifica com o mito grego na dor da existência e na impossibilidade de viver uma realidade mais amena. Esse eu-poético desfia um rosário lírico que reverbera em vários outros poemas da obra e que reflete a grande erudição da autora e seu amor pela literatura clássica — expressa pela enumeração dos autores na segunda estrofe — e a discrepância entre esse rico universo cultural e a realidade brasileira filha da ditadura e da miséria, por isso mesma: dura. Na última estrofe, o eu-lírico revela-se feminino e nos conta das mazelas de ser mulher na América Latina. Os últimos quatro versos trazem um paralelismo rico em assonâncias nas quais a poeta brinca com a semelhança entre as palavras sou, sul, sol e soul, cada uma delas colocadas no poema com uma intenção muito bem arquitetada. Em “O Prometeu, eu sou”, temos a identificação com a obra clássica. O “sul” representa um dos pontos cardeais, um guia para o viajante; “sol” é o astro rei que dá vida, que brilha e ofusca; e “soul” pode ser lido de forma dúbia, pois tanto é alma em inglês, como o ritmo americano parente do jazz e cheio de molejo gringo.

A citação à tortura estabelece mais um paralelo entre a história de Prometeu, torturado pela águia, e o do Brasil da época ditatorial. A atualidade do poema não está somente na sua beleza atemporal, mas na constatação de que, na década de 2020, ainda precisamos conviver com os fantasmas da pobreza, do atraso, da violência contra a mulher e dos ataques à democracia.

Ainda na parte 1 temos outro poema arrebatador, o de número 4:

“Esse amor à sabedoria,

esse desejo de tudo conhecer.

Mudar corresponde a sofrer.

 

Esse despertar na consciência

e o se libertar da dependência.

Mudar corresponde a sofrer.

 

Esse não aceitar o arbitrário,

esse viver ao contrário,

custa a repressão.

 

Esse ser orgulhoso criador,

esse amar a quem quiser — o amor,

custa sacrifício.

 

Apesar do sofrimento,

mesmo que um deus

o force,

o poema

não abandona a posição rebelde

e se contorce.”

Nesse poema de tom também pessimista temos o conflito do eu-lírico que entende que a busca da sabedoria e do conhecimento é um caminho que leva ao sofrimento e à exclusão dos que vivem na média (“viver ao contrário” dos demais). A metalinguagem, tema também recorrente em Yêda, aparece na última estrofe e no intertexto com o mito de Prometeu: o poema, mesmo que um deus o force (referência indireta a Zeus e/ou aos detentores de algum tipo de poder) é o espaço da rebeldia, é o poder da palavra sobre o destino traçado.

E a menção ao fazer poético, com suas vicissitudes e virtudes, perpassa todo o livro e, de forma especial, as agruras de ser poetisa em Goiás aparecem na parte 3 “Interlúdio Histórico”, no ótimo e crítico poema “Goiânia descabelada”, no qual a poeta vai narrando algumas particularidades excêntricas da cidade que se mostra brega, reacionária e hipócrita. Ao final das sete estrofes, enumera modelos de carros da época, num exercício antilírico que tem sua função de demonstrar a falta de cultura, a futilidade e a dureza goianas. Nesse ambiente, o poeta não se consegue se encaixar, como atestam esses versos que usam da ironia, como se uma outra voz, alheia à voz poética, mostrasse a péssima opinião das pessoas sobre essa classe artística: “Um grande poeta não cabe na província, poeta gosta é de bombom ao licor, o anarquista, o safado, o filisteu. É frescura! O anjo exterminado.”

Em “Pandora/escritora”, “O cu do mundo” e “As vacas”, o eu-lírico, num exercício autobiográfico, continua a nos dizer das dificuldades de ser poeta em Goiás, comparado ao Cáucaso, local da tortura infligida a Prometeu:

“Jamais consegui uma Editora

para publicar os poemas

de uma brasileira

de Goiás.

 

Tudo é tão longe

e tão certo:

vivo em Goiás descabelada

e contaminada,

no deserto componho.

 

E a minha palavra

Vai caindo, como o poema

de Safo,

no abismo.

A palavra contaminada faz referência ao acidente com o Césio-137, e Safo foi uma poeta grega anterior à era cristã, cuja memória foi ultrajada e cujos poemas se perderam com o tempo, restando, da maioria, apenas fragmentos.

Na saga de continuar produzindo poesia, incompreendida, excluída pelos próprios pares literários por inveja, a poeta descreve em “O construtor das embarcações” a dor que cabe a quem se aventura a fazer poesia:

“Um último olhar, antes de embarcar

(mares desequilibrados)

naquilo que constróis:

uma casca de noz que vai virar

e nela, embutida, a saga

dos poetas: sangue, ferida, saliva,

pele triturada, recheio de desengano

— casca de nós e a carne viva.

Em todas as quatro partes de “Prometeu Americano” encontramos pérolas poéticas. Para conseguir usufruir de toda beleza ofertada pela autora, requer-se um arsenal anterior de leituras, pois as muitas citações a outras obras, fatos históricos e mitos pode tornar a sua poética um tanto hermética.

Yêda faleceu em 2003, mas fico aqui pensando o que diria, em seus poemas, dessa época que estamos atravessando, talvez ainda mais dura.

“Ousei ter sido amante

da poesia.

Lamento em dor

a minha rebeldia.”

Simone Athayde é escritora e crítica literária. É colaboradora do Jornal Opção.

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