Italo Wolff
Italo Wolff
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Quatro poemas curtos

escrito por Italo Castrillon Wolff

Poemas curtos
Summer Evening, 1947, Edward Hopper | Foto: Reprodução/Direitos Livres

Haikais dos ecos 
do passo noturno

1.

Teatro vazio 

Uma goteira pingando 

ecoa um aplauso

2.

Sigo os passos à rua

da minha sombra sozinha

no clarão da lua

3.

Coração deserto

bate o latido do cão

num bairro quieto

4.

Sono lento vem

buscando rastros do sonho

eu fujo também

5.

Procurando abrigo

num teatro abandonado

me encontro comigo

A beleza do mundo

A beleza do mundo me irrompe

eu aprendi a me fechar

a vida toda me treinando

a deixar a beleza entrar

a noite cai

a chuva entra

em papeis pequenos

Proibindo o pranto

Caro amigo
ouvi dizer
que você quer sacrificar
a perfeição deste silêncio 
por um punhado de lágrimas

Eu que já estou adiantado
vou te dizer o que encontrei
nas esquinas escuras do mundo
andei 
tocando minha dor
toquei 
as esquinas escuras do mundo

E isso é tudo que há
o estalar das patas das baratas 
nos escombros da memória
ou das esquinas
não precisa de você

O cataclismo da ruína
que quer retratar em suas páginas
vai arruinar esse retrato
e bem
silenciar as suas lágrimas
silêncio 
vai arruinar você também

A última semana

Era segunda-feira
quando Isabella viu as marcas 
de gillette nos meus pulsos
e soube que éramos iguais

suicidas dedicados
a sermos nada na vida
ela, a melhor metade,
se dedicou mais

Era terça-feira
eu tateava no escuro
que ela apagou para fazer
brilhar as estrelas

carregava perdido
o peso no peito
de ser imagem morta
negativo sem a meia

Era quarta-feira
eu conheci o seu duplo
Isabela com um só L
volteio e contra floreio

no seu quarto quente
onde tempestade de céu
espanta até nuvens 
promessas sem freio

Era quinta-feira
eu buscava seu uno
seu nome primeiro
você jogava xadrez 

eu procurava sinais 
li seu tarot
interpretei a cicatriz 
de separação do siamês

Era sexta-feira
quando você me disse
que seus gêmeos se foram
e soube que éramos iguais

pela perda, pelo ofício de dar,
pela adultecência precoce
pelos nada na vida
que, contra nós, faz brilhar

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